Um contrato com Deus

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Quando ele veio, tinha apenas vinte e nove dias. Lembro como se fosse ontem. Era um bebê bonito, forte, aparentemente saudável. Sim, era ele quem eu queria. E ele era igualzinho a muitos outros bebês que conheci. Como eles, não sabia falar; como eles não sabia comer sozinho e muito menos andar e exatamente como eles, às vezes, sorria de maneira adorável. Eu ali extasiado, a vislumbrar um futuro auspicioso e brilhante porque vida era bela demais para ser desperdiçada na solidão compartilhada.

No primeiro ano já sabíamos que havia algo de errado e no segundo, a certeza indesejada se alojou definitivamente em nossas vidas. Sim, ele era “especial”. O diagnóstico de autismo, mesmo que impreciso, não deixava margem de dúvidas das deficiências que iriam aflorar com o passar dos anos. Quando se tem um filho deficiente nem sempre se descobre de imediato. É sempre uma surpresa assustadora. O pior é que os pais escutam sempre a mesma ladainha: “Olha, agradeça aos céus, pois o filho especial é um presente de Deus”. Sabemos que não dizem isso como piada, mas raramente são pessoas que tem filhos deficientes. A vontade que dá é de falar: “É mesmo um presente de Deus? Ah, não precisava de tanta bondade…”.

Aliás, as rezas e promessas foram uma constante durante algum tempo. Há como não se apegar à crença de um milagre? Claro que lá fomos nós em peregrinação na busca da fé em tudo que era lugar santo pelo mundo, incluindo o Santuário de Lourdes e uma entrada triunfante na Porta da Misericórdia da Basílica de São Pedro, em Roma, pois afinal se você quer um milagre, antes tenha a decência de ser perdoado de seus pecados. Assim o fiz e senti que tinha cumprido minha parte no contrato com Deus. Quando retornei vi que definitivamente não haveria milagre e se a coisa é como ouvi por aí de alguns idiotas que crianças deficientes são uma punição dos céus, não haveria forma da Santa Virgem interceder pelo garoto, pois a decisão sobre a sua vida foi tomada nas altas esferas e, portanto, só Ele poderia cumprir a sua parte no contrato e não delegar tal responsabilidade a qualquer outro santo.

Então treze anos se passaram e as dificuldades se multiplicaram como esperado e nós sempre o defendendo da incrível sorte que se agarrara a ele. E não são poucas as vezes em que tenho a nítida impressão de que ele entende perfeitamente a sua condição. Leio em seus olhos o que quer dizer durante as crises que às vezes o acomete: “Pai, desculpe por tudo que faço de errado, não consigo evitar, não controlo nada, me ajude, por favor”. Então me abraço a ele com toda a força do mundo e mesmo que impotente e descrente da providência divina, transmito todo o imenso amor que tenho por ele e digo mil vezes àquele inocente que nos pede socorro, que estamos juntos nessa jornada tormentosa até que a finitude nos separe, ou até que Deus resolva cumprir a sua parte no contrato.

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