O indomável jornalismo da América Latina

01-2

“Ir contra a corrente. Fazer jornalismo de fôlego ainda que por ele, nos nossos primeiros anos, os grandes guias do jornalismo na internet nos previram uma morte breve precedida por pulsantes estertores. Num sentido mais literal, esses mesmos desejos foram expressados também por pessoas a quem incomodamos”.

Esta frase, da equipe do salvadorenho El Faro, sintetiza o pensamento do ofício posto em prática em países tão próximos quanto desconhecidos como Colômbia, Bolívia, Costa Rica, México, Equador, Nicarágua, Chile, Peru, Uruguai, Venezuela, Cuba, entre outros da América Latina.

O 4°Festival Gabriel García Márquez de Jornalismo aconteceu entre os dias 29 de setembro e 01 de outubro deste ano na cidade de Medellín, Colômbia. Reuniu 86 jornalistas de 20 países; 42 atividades gratuitas; um show da cantora mexicana Natalia Lafourcade, um stand up ilustrado e uma exposição sobre os refugiados sírios, com mais de 13 mil pessoas de várias partes do mundo que passaram esses três dias pelo Jardim Botânico de Medellín.

Martin Baron, editor do The Washington Post, fez o discurso de abertura do Festival, que contou com a cerimônia de premiação para os melhores trabalhos da América Latina nas categorias: Texto, Imagem, Cobertura, Inovação e Excelência*.

O ponto alto do congresso formado por jornalistas, escritores, críticos, designers, fotógrafos foi, sobretudo, a qualidade do conteúdo produzido cotidianamente para os meios de comunicação sobre os cenários sociais, políticos e culturais em países em que não falta matéria-prima para o desenvolvimento de reportagens que tangenciam questões fundamentais.

Gabriel García Márquez ou Gabo (1927-2014), como é carinhosamente chamado pelos colombianos, ficaria satisfeito e orgulhoso de ver que “a melhor profissão do mundo”, como ele se referia ao ofício, está de acordo com as suas premissas, entre elas esta: “O jornalismo é uma paixão insaciável que só se pode digerir e humanizar mediante a confrontação descarnada com a realidade. Quem não sofreu essa servidão que se alimenta dos imprevistos da vida, não pode imaginá-la. Quem não viveu a palpitação sobrenatural da notícia, o orgasmo do furo, a demolição moral do fracasso, não pode sequer conceber o que são. Ninguém que não tenha nascido para isso e esteja disposto a viver só para isso poderia persistir numa profissão tão incompreensível e voraz, cuja obra termina depois de cada notícia, como se fora para sempre, mas que não concede um instante de paz enquanto não torna a começar com mais ardor do que nunca no minuto seguinte”. Bravo, Gabo!

A Revista Ideias esteve lá e fez uma seleção de alguns dos principais participantes do Festival exclusivamente para seus leitores. Confira.

Jorge Cardona Alzate
El Espectador – Colômbia

“Acabam de assinar o acordo de paz e devo dizer algo sobre o jornalismo, a reivindicação do editor ou a urgência do dever ser no filtro. Advirto que tudo o que possa manifestar hoje sobre o ofício antes de falar da confiança que devemos à paz é suscetível à edição. Pelo autor, pelo chefe da redação, por qualquer um de vocês que possa melhorá-lo. O jornalismo é um trabalho coletivo que pertence depois a quem o interpreta”. As aspas são do editor do jornal colombiano El Espectador, Jorge Cardona, que prossegue: “ Na certeza de saber que tudo o que se comunica pode ser melhorado e que toda obra humana transcendente se constrói corrigindo-se. Escreve-se para o presente, mas quem ler daqui a 100 anos deverá entender com clareza o que passava nesses tempos. É essa a premissa que garante a possibilidade de fazer memória”, conclui.

“É preciso ler quilômetros para escrever milímetros”. Jorge Cardona, que ganhou o prêmio na categoria “editor exemplar”

El Faro – El Salvador

A equipe do projeto jornalístico coletivo de El salvador El Faro, fundado em 1988 por Carlos Dada e Jorge Simá, com muitos poucos recursos, foi o vencedor do prêmio por Excelência do Festival Gabo. El Faro.net foi pioneiro no jornalismo digital na América Latina, ao apostar muito cedo que a plataforma online seria uma revolução nos meios de comunicação. Desde então, a equipe tem conseguido desenvolver suas habilidades e potencializar um estilo, que abriu possibilidades inovadoras para o exercício do bom jornalismo. Localizado em um dos países mais violentos da América Latina e num ambiente político e econômico hostil para o desenvolvimento do jornalismo independente, o veículo transcendeu todos os obstáculos e realiza um trabalho cujo selo de qualidade é a produção de notícias que dá voz e dignidade aos excluídos, desafiando a versão oficial de uma realidade injusta e contraditória. “Construímos o El Faro mediante a autocrítica constante. Entre todos. Porque não é possível fazer esse trabalho sozinho. Não tal e como nós o entendemos. O El Faro não é um jornal digital, é um projeto jornalístico coletivo, que se nutre dos seus membros. O debate jornalístico na redação nos faz acreditar e nos protege da comodidade e do resto das tentações”, afirma a equipe.

“Cabe a nós, jornalistas, dizer que o rei está nu. E também dizer isso em praça pública, para que todos saibam” –
El Faro

Jornalismo contra o público

Alexandra Lucas Coelho (Portugal), Samuel Aranda (Espanha) e Ginna Morelo (Colômbia) conversaram com Martín Caparrós (Argentina) no simpósio ‘Testemunhos. Jornalismo contra o público’ sobre a importância de continuar fazendo jornalismo sobre temas relevantes em uma época dominada pela obsessão por “clics” nas matérias online. “Temos que tirar o leitor da zona de conforto. É difícil enfrentar temas sobre a violência”, completa Alexandra Lucas Coelho.

Os refugiados e a construção de histórias coletivas

Os fotógrafos espanhóis Samuel Aranda e Maria Jou Sol falaram com Natalia Botero, fotojornalista colombiana, e Martín Caparrós, jornalista e escritor argentino, sobre seus trabalhos com refugiados.
Na conferência “Refugiados, o drama daqueles que sofrem” foi discutido que, embora a palavra seja assertiva, a imagem tem a força para sugerir mais do que pode ser dito. De acordo com Caparrós, no debate sobre a imigração as vozes menos ouvidas são as deles. “Sabemos tudo pela linguagem dos outros, que descrevem uma situação que não é aquela vivida pelos próprios refugiados”, afirma.
Segundo eles, enquanto a mídia e os políticos perceberem os imigrantes como pragas ou estatísticas, a crise continuará a crescer. A construção de histórias coletivas, refletida na obra de Maria Jou Sun e Samuel Aranda, dá voz aos refugiados, que fogem realidades violentas e injustas.

Panamá Papers

Marina Walker ( Argentina), vice-diretora do Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ), Rigoberto Carvajal (Costa Rica), especialista em tecnologias de banco de dados, Joseph Poliszuk (Venezuela) e Mónica Almeida (Equador), parte da equipe responsável pelo “Panamá Papers” formada por mais de 370 jornalistas de 80 países, disseram que talvez a conclusão mais importante desta grande reportagem é a mudança de paradigma do ofício e a pesquisa colaborativa feita por esta rede de jornalistas, que levantou um conjunto de 11,5 milhões de documentos confidenciais da sociedade de advogados panamenha Mossack Fonseca. A investigação foi decisiva em descobrir como pessoas e instituições usaram os paraísos fiscais para vantagens, subornos, lavagem de dinheiro e ocultar bens. “Talvez a mudança estrutural mais importante que gerou o Panamá Papers tem sido a mudança na cabeça dos cidadãos, de São Petersburgo a Cidade do México”, ressaltou Marina Walker.

“Aprendi que é melhor ter jornalistas com valores e ética antes de vinculá-los à equipe, porque senão vamos perder muito tempo” – Marina Walker (ICIJ).

Cobertura de conflitos
El País- Espanha

O documentário espanhol El País, dirigido por Daniel Cebrián, relata como um dos jornais mais importantes de Espanha enfrentou o falido golpe de Estado de 23 de fevereiro de 1981, liderado pelo coronel Antonio Tejero. Em plena transição da democracia, El País foi o único jornal que teve coragem de publicar uma edição especial apesar dos ataques militares no Congresso dos Deputados em Madrid. A conversa, mediada por Juan Cruz, jornalista deste veículo, mostra como obras audiovisuais tornam-se importantes no contexto dos países da América Latina, especialmente na Colômbia, onde a democracia tem sido constantemente violada em todo o curso história. “Ambos os países (Espanha e Colômbia) compartilham uma história, uma preocupação comum. Eles sofreram. Queremos que na Colômbia – como aconteceu com nosso país – o terrorismo acabe”, disse Juan Cruz.

Gustavo Faleiros – Geojornalismo
Infoamazonia.org – Brasil

Google My Maps, Google Earth Pro Storymap são algumas das ferramentas usadas para contar histórias com gráficos e mapas interativos. Gustavo Faleiros, criador do Infoamazonia.org, portal que trabalha em relatar a situação dos temas abordados por meio de mapeamentos e gráficos, e a partir daí visualizar áreas e apontar problemas e possíveis soluções, diz que hoje, os principais meios de comunicação estão utilizando estas ferramentas para ilustrar detalhadamente os contextos e assim escrever suas reportagens no meio digital. Este é o caso do The New York Times que mostrou ao mundo como é o lugar onde está o Estado Islâmico, o jornal peruano independente Ojo Público publicou sobre a destruição da Floresta Amazônica e também há um mapeamento feito em Medellín que mostra a evolução urbana da cidade. “A inspiração para o InfoAmazônia foi reforçada pela enorme quantidade de dados gratuitos; séries históricas sobre fogo e desmatamento, por exemplo, são encontradas em formatos abertos nos sites da NASA ou do Instituto Brasileiro de Pesquisas Espaciais (INPE)”, comenta Faleiros.

Judith Thurman
The New Yorker – EUA

Alguns pensam que escrever sobre a liberdade vos libertar, mas para Judith Thurman é a liberdade de escrever o que faz uma mulher livre. A escritora de The New Yorker dedica-se à crítica, moda, poesia e biografias. Liberdade, feminismo e moda foram algumas das questões abordadas no workshop realizado por ela. A jornalista escreveu os principais perfis no mundo da moda, como Chanel, Balenciaga, Schiaparelli o Yves Saint Laurent, e sobre os mais vanguardistas como Rei Kawakubo, Isabel Toledo, Alexander McQueen, entre outros. Também fez o perfil da artista visual Marina Abramovic e da fotógrafa Diane Arbus. Para Judith Thurman o mais difícil “é conseguir a abreviar tudo com o mínimo de perda”, diz ela.

O. Scott
The New York Times – EUA

Crítico de cinema e ensaísta do The New York Times, professor da Universidade de Wesleyan e autor de Better Living Through Criticism: How to Think About Art, Pleasure, Beauty and Truth, A. O. Scott realizou o workshop “A crítica na era digital”. Scott discursou sobre a função da crítica no jornalismo atualmente, as dificuldades na hora de escrever e a convicção que o papel do crítico não é agradar, ao contrário, é levantar questões sobre o assunto. “O grande risco que os críticos enfrentam é a possibilidade de que os leitores tomem nossas palavras como um insulto à sua inteligência. O crítico enfrenta-se a si mesmo, suas ideologias e suas perspectivas”. E finaliza: “a experiência e a capacidade de convencer são a diferença entre o crítico profissional e o amador”.

Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano

A Fundação Novo Jornalismo Ibero-Americano (FNPI) foi criada em Cartagena das Índias, Colômbia, em 25 de junho de 1994, como resultado de uma preocupação de Gabriel García Márquez em incentivar vocações, ética e o bom jornalismo. Desde a sua criação até 2014, data de sua morte, Gabriel García Márquez foi o presidente da FNPI.
Atualmente, os membros diretores são Jaime García Márquez, seu irmão e colaborador, e Jaime Abello Banfi, diretor do canal de televisão Caribe Colombiano Regional (Telecaribe).
Todos os anos a Fundação promove aos jornalistas de países da América Latina, diretamente ou em parceria com outras instituições, atividades como workshops, seminários, conferências, publicações, prêmios, redes de apoio e digitais para compartilhar conhecimentos e experiências.
A FNPI também produz o Festival Gabriel García Márquez de Jornalismo, que premia jornalistas em distintas categorias: Imagem, Crônica, Inovação e Excelência**.

Para saber mais:
http://www.fnpi.org

Inicio

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *