Ensino Mais ou Menos

01-1

Escolas ocupadas. Professores, pais, alunos e a sociedade debatendo. Debatendo o quê? Como? Por quê? Sociedade, alunos, pais e professores protestando. Protestando contra o quê? Como? Por quê?

No final de setembro, as informações sobre a reforma no Ensino Médio chegaram confusas e acompanhas do tom autoritário de medida provisória. Ainda que um projeto de lei que trata sobre o assunto estivesse lá na gaveta da Câmara aguardando votação e que algumas mudanças dependam do que diz a Base Nacional Curricular Comum (e ela só vai ficar pronta em 2017), Temer meteu a caneta e fez valer seu poder unipessoal. Pegou mal e engrossou a hashtag Fora Temer.

Os gritos começaram dentro das escolas embalados pelos sindicatos e por estudantes, que formam a massa ecoante da esquerda no Brasil. E eles sabem fazer barulho. Muito barulho.

OUTROS TEMPOS
Antes de falar sobre o que realmente versa essa reforma, vamos dar uma voltinha pela história da educação no Brasil e ver o que a escola já reformou.

Quem tem no mínimo a minha idade ainda lembra: Educação Moral e Cívica e OSPB entraram nas salas de aula com força total naquele período em que os militares estavam no comando e era preciso amar o Brasil, suas tradições, símbolos e instituições. A primeira modalidade cercava as crianças; a segunda, os adolescentes e todos aprendiam que o mundo ideal era o verde e amarelo feito de ordem, respeito e louvor à pátria.

Também testemunhei a impressionante Educação para o Lar. Lembro bem: uma professora gordota e com voz cheia nos ensinava a bordar, pregar botões, fazer barras e mais uma infinidade de coisas que não aprendi. Eu a olhava e pensava sempre, sempre, sempre que ela deixava a própria casa toda desarrumada porque passava o tempo na escola a nos ensinar como arrumar a casa. Até aí, tudo bem, se eu tivesse aprendido alguma coisa naqueles tempos, hoje seria mais autônoma e várias pendengas domésticas teriam fim. Mas as aulas eram, sobretudo, um mantra de como deveríamos, nós, meninas, ser delicadas e mansas, preocupadas e ajuizadas, recatadas e do lar. Estávamos fadadas a sermos todas Temer, Marcela Temer. Desde menina cultivei espírito rebelde e hoje não sei fazer barra, não sou bela nem recatada nem do lar.

Tive aula de religião. Religião católica, que fique claro. Nada de abrir o leque e mostrar as religiões do mundo ou de estudar a cultura viva e pulsante dentro de cada tipo de culto ou, ainda, de compreender como cada crença influenciou em guerras, matanças, desavenças, reconstruções, acordos. Nada disso, nem as correntes do catolicismo eram explicadas. Na minha infância, além dos militares, dos homens aos quais tínhamos que ser submissas, ainda rolava a figura de Jesus Cristo e seu olhar de piedade de retrato, mas que servia sempre como dedo acusatório. Não foi fácil.

Latim. Só tive aulas de latim na faculdade, por conta do curso de Letras. Do primeiro ao último dia adorei. E sinceramente acho que não deveria ter sido retirada do currículo obrigatório – não se faz isso com uma mãe. Tenho convicções, puramente empíricas, de que se tivéssemos noções básicas de latim, saberíamos mais, melhor e com alguma profundidade sobre língua portuguesa e isso nos ajudaria na comunicação escrita e oral. Muitas das peças que nossa língua-mãe nos prega na caminhada de escrita, leitura e fala poderiam nem existir se a gente soubesse um pouco mais sobre. E sem contar como isso nos ajudaria à compreensão do gradiente de línguas latinas. Ela saiu da grade em 1964 quando rolou um acordo entre o MEC do Brasil e a United States Agency for International Development, dos EUA. As duas instituições concordaram em retirar do currículo matérias consideradas obsoletas.

A DISCUSSÃO DA REFORMA DO ENSINO MÉDIO
De volta ao tema. Ao ler os cartazes que de norte a sul foram levantados e os testemunhais de adolescentes e professores a dizer por que são contra a reforma, deu para perceber que nem todo mundo sabe do que está falando. O amplo debate que deve haver dentro das escolas para esclarecer o que está acontecendo agora, em gerúndio, deu espaço a outra coisa que, no mesmo tempo verbal se espalha nas ruas: a reforma na educação se transformou em mais um argumento no grito contra Michel Temer. Ah! E antes que eu esqueça, #foratemer.

A campanha que recolheu milhares de assinaturas pelo Avaaz traz este título: “Congresso Nacional: Impeça a aprovação da medida provisória que reformula o Ensino Médio” e esta explicação: “A reforma não foi discutida com a sociedade e acaba com a obrigatoriedade do ensino de arte, educação física, sociologia e filosofia no Ensino Médio, além de prever que os profissionais que atuarão na educação não necessitem de formação específica para tal e de ampliar a carga horária total deste nível de ensino, sem explicar como será operacionalizada esta ampliação.” Ok, é tudo verdade. Mas isso foi traduzido em gritos de “Nós não poderemos mais estudar artes”, “Eles não querem que a gente pense”, “Vão acabar com o Ensino Médio”, “Tenho notório saber em vídeogame, posso dar aula”, “Amigos de governantes vão tirar o lugar dos professores”, “Estudei durante 5 anos e minha licenciatura não vale nada”. E por aí vai. Há uma incoerência entre o real e o protesto que pega, justamente porque a escola não ensinou nossos alunos a lerem além das manchetes. Logo, a compreensão fica capenga. Não que a reforma seja uma maravilha salvadora. Para falar a verdade, eu acho sinceramente que, de modo prático, ela não vai mudar muita coisa, ou alguém é capaz de dizer que o ensino de artes, filosofia, sociologia no Brasil vai muito bem? Não, não vai. A maioria de nossos jovens rebola ao som do Bonde do Tigrão e não tem a mínima ideia de que Simone de Beauvoir existiu – apesar do Enem do ano passado.

O texto da medida provisória é uma colcha de retalhos, recebeu mais de 550 emendas. E apesar disso deixa buracos enormes para o futuro. Para explicar num chavão que não se usava mais até que Ney Leprevost voltou à televisão: a medida provisória não ensina a pescar, e mal dá o peixe. Isto é, muitas coisas que estão ali não têm explicação clara de como serão implementadas e garantirão que estudantes tenham acesso de modo igualitário em todo o território. Um exemplo: hoje a carga horária é de 800 horas anuais, a reforma prega que ela seja ampliada para 1.400. É uma boa mudança. Experiências de carga horária expandida resultaram em melhoria no desempenho dos alunos. Mas como arcar com os gastos? De onde virá a grana para isso tudo se o mesmo governo diz que o valor repassado para as escolas públicas dependerá da disponibilidade orçamentária? Outro exemplo: como algumas disciplinas serão facultativas, é possível (por opção, conveniência, aptidão ou rebeldia) que um aluno queira estudar um assunto que não está disponível em sua escola. Para resolver isso, o texto explica que cada estado deverá criar mecanismos que permitam a mobilidade do aluno – traduzindo, é o repasse do pepino.

FUNDAMENTAL É MESMO A EDUCAÇÃO
Mas se largarmos a discussão que incendeia os dias atuais para pensarmos em coisas mais importantes, chegaremos à triste realidade da educação brasileira. A que está longe de índices internacionais, a que despeja analfabetos funcionais no mercado de trabalho, a que não permite conhecimentos básicos das grandes áreas fundamentais. A essa realidade que não contesta qualidade, que não sabe ler, escrever, falar, fazer conta ou analogias.

Para que um adolescente do Ensino Médio seja apto a aprender artes, filosofia e sociologia é preciso ter um Ensino Fundamental de qualidade. É preciso ser verdadeiramente alfabetizado e estimulado a fazer perguntas, a procurar explicações, a questionar, discutir, debater, se informar. É preciso, antes de tudo, se saber como indivíduo capaz de tudo isso. E até agora o Ensino Fundamental não conseguiu entusiasmar nossas crianças assim. O que significa que o buraco é mais embaixo. De novo, mais uma vez, estamos gritando pelo motivo errado, com a falsa e perigosa tinta de que incentivamos nossos jovens à política estudantil. A derrocada continua.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *