Mulher e Política: antagonismo histórico

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Qualquer pessoa ao observar os espaços políticos no Brasil se depara com a ausência de mulheres ou com a gritante diferença da participação masculina à feminina. Isso não é de hoje. A História mostra, repete e grita isso há algum tempo. Suas exclusões e continuidades são constantes.

DESDE QUANDO?
Para analisar essa situação é preciso lembrar que nosso país, em sua estrutura, sempre teve aspectos patriarcais e machistas. Por meio de leis, princípios e valores, às mulheres eram dedicados espaços privados, comportamentos adequados e padrões a seguir. O diferente do imposto era errado e leviano. A educação chegou depois às mulheres, direitos individuais e políticos também. A Constituição brasileira imperial e republicana, sendo uma de 1824 e outra de 1891, não lhes davam nenhum direito político. Nem tocavam no assunto. Permeava nas mentalidades e atitudes a constatação de que mulher e política não funcionavam e que essa união seria impossível. Impensada. Não podemos dizer que todos acreditavam nisso, algumas intelectuais, escritoras e jornalistas mulheres, que por meio de fontes escassas chegam até nós, já não concordavam com essas afirmações, fugiam da considerada “literatura feminina” e ecoavam suas exigências. Narcisa Amália dos Campos (1852-1924) foi um desses pródigos exemplos. Escreveu certa vez: No pedestal da igualdade/ Firma o povo a liberdade,/ Um canto à fraternidade/ Entoa a voz da nação,/ Que em delírio violento/ Fita altiva o firmamento,/ E adora por um momento/ A deusa – Revolução!

As poucas vozes ecoaram e a passos lentos outras mais foram aparecendo. Mulheres com acesso à informação e com ímpetos revolucionários passaram a juntar-se e defender uma vontade conjunta. Participação política. A ausência na Constituição a respeito do voto da mulher foi um dos pontos que mais foi questionado. Se lá não havia explicação então não estava proibido. Portanto, várias mulheres tentaram votar e envolveram-se nessa roda. Justificativas estapafúrdias, mas que predominavam nas ideias da época foram repetidas. Capacidade intelectual inferior, fragilidade natureza maternal e doméstica… Foram esses e outros argumentos, de nível conforme, utilizados para barrar a entrada da mulher na vida política. Não bastou. Em 1910 nasceu o Partido Republicano Feminino, contra todas essas recusas, elas se organizaram e promoveram debates e passeatas em nome das mudanças que consideravam necessárias.

Os movimentos feministas que fervilharam a Europa do século XIX chegaram ao Brasil e espalharam sua primeira onda. Sufragistas e feministas, como Bertha Lutz (1894 – 1976) no Brasil, lideraram grandes oposições às justificativas machistas, que deixavam de fazer sentido no imaginário feminino e de toda a sociedade. Lutz era da elite, tinha aproximação ao que de mais moderno imperava nos pensamentos da época. Seu objetivo era compartilhar com mulheres brasileiras e estimular a luta entre e por elas. Por seus direitos. Conquistando seu espaço e espalhando sua voz, no ano de 1919, foi indicada pelo governo brasileiro a participar do Conselho Feminino da Organização Internacional do Trabalho. E em 1922 ela representou o país na 1ª Conferência Pan-Americana da Mulher.

A posição negativa em relação ao voto continuou por mais alguns anos. Apesar da forte resistência de líderes feministas e sufragistas, vários empecilhos sempre brotaram para impedir a existência e a execução da lei que iria garantir esse direito às mulheres. Somente em 1932, o novo Código Eleitoral, assegurou o direito de votar e ser votada e em 1934 essa prerrogativa foi exercida, pela primeira vez, na eleição da Assembleia Nacional Constituinte. Carlota Pereira de Queirós foi a primeira mulher eleita à Câmara dos Deputados. Formada em medicina e pertencente à elite paulista, Carlota teve mais votos que Bertha Lutz, que ficou na primeira suplência. Elegeram-se também deputadas estaduais em Alagoas, Bahia, Sergipe, São Paulo e Amazonas. O Sul teve que esperar um pouco mais. Esse sufrágio foi aproveitado e utilizado pelas mulheres de classes altas e intelectualizadas. Mulheres pobres e negras permaneceram e ainda permanecem na marginalidade, sempre distante da modernização.

ONTEM E HOJE
Que a mulher vota, todos sabemos. Mesmo em diferentes condições, hoje ela pode exercer seu direito político de votar e ser votada. Porém – sempre há um – a História, suas permanências e rupturas não mudam de um dia para o outro. A complexidade sempre é maior e profunda. Muitas particularidades com mais de um século ou menos permanecem e são tidas como normais, necessárias e até mesmo naturais. Para citar um período, podemos relembrar os Anos Dourados lá pela década de 50. Onde dia e noite era pregado, por meio da imprensa, e com auxílio do rádio, os papeis de mulheres, os comportamentos das boas mães e esposas. Mulher sensata era aquela que se dedicava ao lar, ao marido e aos filhos (a mulher de então era exclusivamente maternal). E não somente. Era aquela que compreendia infidelidades em nome de um instinto natural do homem, ser com mais apetite sexual que a mulher. Etc., etc., etc. Exemplo é o que não nos falta. A reflexão deve pairar na construção “dessa mulher” e seus reflexos na atualidade. Permanências que se espalham em vários espaços da sociedade e que mantêm, infelizmente, estereótipos e preconceitos sobre mulheres que quebram padrões e ousam ser livres dessas amarras. E até mesmo as que não o fazem.

Na política não é diferente. Nossa criança Democracia ainda tem muito caminho pela frente. A mulher que decide fazer política encontra inúmeras barreiras de uma estrutura quase impenetrável. Diversidade é o que não se vê no espaço político de hoje. Ainda paira no imaginário coletivo que política é coisa de homem e que a mulher, sua delicadeza e fragilidade, servem a outros negócios. As críticas à administração durante ou depois do governo de Dilma podem ser utilizadas como exemplo. De várias formas elas possuíam conotações machistas e misóginas. O jornalista João Luiz Vieira, em seu espaço na Revista Época, escreveu das relações de Dilma e o Sexo. O texto, já retirado do ar, resumia o péssimo governo da presidenta, de acordo com ele, com sua falta de erotização.

Enfatizando mais uma vez a relação de milênios, a mulher e seu corpo (corpo sempre ligado à sexualidade). “… eles querem que ela expresse uma sexualidade, uma comunicação corporal que crie empatia, proponha, acrescente, acolha.” Disse o jornalista, relacionando um bom governo com uma falta de atitude erótica de Dilma. Outro exemplo atualíssimo é o da recém-eleita ao cargo de vereadora na cidade de Taubaté em São Paulo, Loreny Caetano Roberto. Tendo fotos de biquíni compartilhadas na internet, passaram a questionar sua competência no cargo que concorria.

Pois bem, dum espaço cercado de ideias e atitudes que não conseguem desconciliar a mulher de uma sexualidade intrínseca ao corpo e que propaga discursos machistas não se espera mais. Infelizmente. E para participar desse ambiente historicamente excludente é no mínimo angustiante para uma mulher. E no máximo, essa participação não acontece. Pela falta de interesse, pela falta de estímulo e pelas barreiras construídas há séculos.

ELEIÇÕES 2016 NO NEGATIVO
Vamos aos dados. As eleições de 2016 mostram essa ausência de representatividade feminina. A análise do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos) mostra que apenas 12% do total de eleitos para prefeituras até o momento são mulheres. Nenhuma negra ou parda. Somando 638 cadeiras, essas mulheres que irão assumir em 2017, representam um número inferior comparado ao ano de 2012, 674. No momento da escrita dessa matéria, em sete cidades, sendo duas capitais – Campo Grande, com Rose Modesto (PSDB), e Florianópolis, com Ângela Amin (PP) – mulheres concorrem à prefeitura. Em outras capitais com eleições já definidas, apenas uma mulher foi eleita. Teresa Surita (PMDB), em Boa Vista, que ocupará o cargo pela quinta vez. Nas câmaras das capitais, as mulheres vereadoras somam 107 entre os 811 eleitos. Representam 13% do total de vagas para essas casas. Nenhuma, mais uma vez, negra ou parda nas capitais de São Luís, Recife, Campo Grande, Cuiabá, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Aracaju e São Paulo. A grande maioria dos eleitos no primeiro turno é homem e branco. Nas capitais, eles são 62,9% prefeitos eleitos e, ainda, 49,8% dos vereadores nas câmaras. Os homens negros e pardos são 36% dos eleitos para a vereança nas capitais.
Esse antagonismo, que se esparrama em outras áreas da vida da mulher, deve ter um fim. Ou pelo menos o início do fim. A saída de Dilma não deve ser vista como um fracasso às mulheres (aqui não mencionando críticas à sua administração) e, sim, como estímulo para que outras mulheres ocupem o espaço. Pois precisamos de mulheres em todos os cargos políticos. Somente ocupando esses lugares é que poderemos realçar debates e desconstruir ideias pouco fundamentadas, mas muito compartilhadas, da distância que há entre mulher e política. União tão, imediatamente, necessária.

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