Condições de exibição para filmes especiais

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Alguns filmes vinham com recomendações ou exigências contratuais das distribuidoras. “Fantasia”, a pretensiosa obra de Walt Disney, de 1940, com a Philadelphia Orchestra, regida por Leopold Stokowski, provocou o temor de que não seria exibido por aqui, pois o sistema sonoro criado para o filme, o “Fantasound”, era caro e complicado, instalado em poucos cinemas americanos. Nas demais cidades do mundo, foi exibido com som monaural, mas os técnicos da Disney visitavam os cinemas para verificarem as condições acústicas da sala, a projeção e o conjunto sonoro. Se não estivesse a contento, não cediam o filme. Em Curitiba, após verificações e testes, foi aceito o cine Ópera, como o de melhor condição à época, onde finalmente foi exibido.

“O grande ditador” de e com Charles Chaplin, Paulette Goddard, também de 1940, era uma sátira ao nazismo, com inteligente crítica a vários ditadores. Foram exigidos dois cinemas em exibição simultânea, cedidos o Luz e o Palácio. No entanto nunca lotaram, e foi considerado fracasso de bilheteria, dadas as expectativas.
Nos anos 50, promoveram um festival de filmes de terror no cine Avenida. Tinha um esqueleto, pintado com tinta refletindo uma luz negra, que deslizava até o palco, puxado por roldanas. Ficava escondido antes da sessão, quando era puxado para fora, dando alguns sustos.

O famosíssimo“Psicose”(Psycho) com Janet Leigh, Antony Perkins, Martin Balsam, direção de Alfred Hitchcock, produção de 1960, marcou Perkins pelo papel do psicopata Norman Bates, dono do motel. Hitchcock declarou que filmou em preto e branco para não chocar a plateia com a cena de sangue no banheiro, e Bernard Hermann criou a trilha sonora inesquecível só com cordas, para combinar com a fotografia monocromática. A distribuidora Universal mandou um álbum com instruções detalhadas para a publicidade e a exibição, no caso o cine Lido. Por exemplo, impedir a entrada de pessoas depois do início do filme (lembrar que se comprava a entrada para qualquer sessão, podia entrar quando quisesse e ver o filme mais de uma vez). Isto porque a personagem da Janet Leigh, estrela do filme, morre na primeira terça parte e os retardatários ficariam esperando o momento de vê-la. Para a fila da próxima sessão, havia uma pessoa bem vestida com um cartaz pedindo paciência com a fila, pois seria recompensada com o filme! Ao fim da projeção, distribuía folhetos pedindo para não contar o final do filme a ninguém, nem ao seu melhor amigo. Permaneceu semanas em cartaz.

“Doutor Fantástico ou como aprendi a parar de me preocupar e amar a bomba”(Dr. Srangelove or: how I learned to stop worryng and love the bomb) com Peter Sellers em três papéis, George C. Scott, Sterling Hayden, Slim Pickens, direção de Stanley Kubrik, de 1964. A distribuidora Columbia exigiu que a lotação do cinema não ultrapassasse a ¾. Talvez para que as gargalhadas não transformassem o filme em comédia deslavada, nunca se soube. Mas esta crítica sátira de humor negro chega a ser chocante, com diálogos hilariantes. Foi um fracasso de bilheteria aqui, nunca atingindo a lotação no enorme cine Lido com 1900 lugares.

“Terremoto”(Erthquake) com Charlton Heston, direção de Mark Robson, produção de 1974, em que o cinema tremia, dando a sensação de terremoto, época em que os “filmes catástrofes” faziam muito sucesso, seria exibido com sistema de som “Sensurround”. A distribuidora Universal fornecia o processador, amplificadores e alto-falantes, que deveriam ser instalados conforme rígidas instruções, inclusive de segurança. Por exemplo, o cinema não poderia ter adereços pendurados, lustres ou algo que pudesse despencar. O sinal do filme passava pelo processador, e deste para um amplificador dedicado, conectado a alto-falantes montados em caixas especiais, para ressonância de baixas frequências. Duas caixas em cada lado do palco, duas na plateia de baixo e duas na de cima, cobrindo totalmente o mesmo cine Lido. Nas cenas de terremoto, começava a barulheira, a plateia olhava para cima, temerosa, para ver se não estava caindo alguma coisa. O gerente Zito Alves Cavalcanti conta que uma senhora que morava em um prédio em frente ao cinema veio reclamar que o seu cãozinho poodle não dormia até o fim das sessões latindo; o operador ficou com medo de que o cinema caísse com a constante trepidação, e os lanterninhas diziam que dava dor de barriga. O filme foi um sucesso, em cartaz diversas semanas, para incômodo dos empregados e vizinhos. Vieram mais dois filmes com este sistema sonoro: “Terror na montanha-russa” e “Midway”, com Henry Fonda, Toshiro Mifune, Charlton Heston, direção de Jack Smith, produção de 1976, filme de guerra com o barulho das bombas. Mas o que funcionou mesmo foi “Terremoto”, mais condizente com o referido sistema sonoro, estes outros não obtiveram tanto sucesso. Contam que quando passou “Terremoto” no Rio de Janeiro, em um cinema de Copacabana, um espectador voltou com arroz cru nos bolsos e sentou na segunda plateia. Quando deu o primeiro barulhão, jogou aquilo na plateia de baixo. Foi uma correria, e o espectador detido. O exibidor da cidade de Toledo, na época o Sr. Lourival Mendes, vendo aquilo no Lido ficou impressionado, e, não tendo como contratar o filme, resolveu fazer no seu cinema com seus próprios recursos. Marcou um outro filme catástrofe japonês, “Submersão do Japão”, com terremotos, maremotos e outras desgraças. Contratou uns ajudantes, instalou mais caixas de som, sabe-se lá de que jeito. Arrebatou um arsenal de pedaços de vidro, metais e tudo que fizesse barulho. O cine Imperial tinha a plateia central e corredores laterais para as saídas. Nestes corredores, seus ajudantes preparados e a postos com o material barulhento. Na hora certa ele dirigia: agora! E jogavam aquilo tudo, mais a barulheira do filme. Resultou em efeitos especiais às avessas, o público começou a levantar para ver o que era aquela barulheira toda, admirando o espetáculo extra! O cine Imperial cerrou suas portas em dezembro de 1992, sem efeitos especiais.

“Amadeus”, grande vencedor do Oscar de 1984, com oito prêmios, incluindo filme, direção (Milos Forman), som, ator (F. Murray Abraham), direção de arte, figurino e outras indicações, mostrava Mozart e seu rival Salieri, compositor a serviço do imperador. O filme foi adaptado por Peter Shaffer da peça de sua autoria. Formidável música e ampla encenação de Don Giovanni. A distribuidora exigiu que o cinema tivesse o sistema sonoro Dolby, na época o analógico, com quatro canais, que já estava consagrado em outras produções. O escolhido foi o Palace Itália, estranha sala acima do shopping de mesmo nome, cujo acesso se dava apenas por elevadores, um problema, principalmente na saída do público. Este sistema sonoro foi lançado, com o primeiro “Guerra nas estrelas”, dirigido por George Lucas em 1977, aqui exibido no cine Vitória com som monaural, já que nossos cinemas ainda estavam com o som ultrapassado, e continuaram assim, com raras exceções.

Alguns anos depois vieram outros aperfeiçoamentos sonoros, como o DTS e o Dolby digital em suas múltiplas versões, que dos cinemas passaram a ser utilizados também em residências, os “home theaters”, através dos DVDs, blu-rays e transmissões televisivas.

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