Eu quero ser amado

fabio 01

Eu quero ser amado como Joana, a Louca, rainha de Espanha, amou Felipe, o Belo. Não acredito em outra forma de amor. Se não for obsessivo, doente, suicida, não é verdadeiro. O amor deve provar em seu desespero que é definitivo e incondicional.

Menos não quero. Menos eu tive. Amores que se perderam na monotonia dos dias ou na dor dos rompimentos. Nenhum que fosse como o de Joana. Eterno, adoecido pela paixão, sufocado em ciúmes.

Eu viajei a sós num labirinto de rostos, experimentei a carne das mulheres amáveis, das servis e das mulheres a preço.

Amei princesas e saloias. Virgens núbias, jovens pubescentes e também as adúlteras. Foram efêmeras. Desfizeram-se em miragens e são apenas resíduos na memória desde que perderam o mistério ardente da primeira vez. Hoje, ansioso por ternura, o esquecimento procura um corpo e me mantém entre a vigília e o medo.

Quisera dar nome ao que ficou em mim, o seu ardil, fino bordado de simulações. Os vestígios do sórdido e a marca da vulgaridade. Os gestos usados para incendiar o desejo chagoso, triste, disforme, que devo escoimar, antes que corroa, uma a uma, minhas humanas esperanças.

Nunca fui amado com a intensidade do amor de Joana, a Louca. Inconformada com a morte súbita de Felipe, ela sequestrou o seu cadáver e perambulou de mosteiro em mosteiro na esperança de que ele voltasse à vida.

Evitava os conventos porque temia que as freiras pudessem ver e desejar o corpo de Felipe. É assim o amor que agora eu quero. Que me persiga pelas ruas de todas as cidades a mendigar a pequena ração de afeto que posso dar em troca de seu amor torturado. E que não reclame. Nada exija. Que seja silencioso em seu pranto e pródigo em carícias.
Assim deve ser. Um amor angustiado pelo medo de me perder. Que todo o dia investigue minhas roupas e cheire meus lençóis para certificar-se da outra presença e aumentar o seu sofrimento. Cruel? Mais não posso dar.

Mais seria o que agora espero receber. Um amor sufocado em ciúmes. O amor insano que levou Joana à demência. Amor como esse que me condenou ao desvario e me retém aqui, neste claustro, a suspirar e a observar a lua que nasceu em meu teto e a murmurar o cantochão de notas negras que tingem a vida.
Cativo da loucura.

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