Morreu Fidel, a última lenda

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Em 1959 eu era menino de 12 anos e já militava, como a maioria dos meninos dessa época. Tínhamos em comum um anseio de modernidade, de um mundo livre das teias do atraso, dos costumes autoritários e da corrupção nos governos. Queríamos deixar de ser uma Nação tutelada pelo imperialismo americano, a quem atribuíamos todas as nossas mazelas. Mas esse era um sonho que parecia irrealizável. Onde reuniríamos forças para derrotar inimigos tão poderosos?
Foi quando a revolução em Cuba nos deu alento. Ela provava que um pequeno grupo de humanos determinados pela paixão e orientados pelo marxismo podia tomar o poder e dar fim a um regime de execrável ditadura. Ali, numa pequena ilha do Caribe, ao lado do gigante, a vitória de Fidel Castro exerceu sobre nós o sentimento de revanche. Nós nos identificávamos com o pequeno que venceu o todo-poderoso, o opressor que parecia invencível. Naquele momento, todos queríamos ser Fidel, Che Guevara ou Camilo Cienfuegos, nossos heróis e modelos. Nós, latino-americanos, deixávamos de ser cucarachas, repúblicas bananeiras, caipiras retardados e passávamos a ser um grande perigo para o imperialismo.

Cada discurso atrevido de Fidel na Plaza de la Revolucion, onde reunia mais de um milhão para insultar os gringos, alimentava nosso imaginário romântico e a fé na revolução armada. Líamos Furacão sobre Cuba, de Sartre, e o livreto de Regis Debray, que nos diziam que tomar o poder era apenas uma questão de vontade revolucionária. A derrota americana no Vietnã confirmou a nossa fé. Che nos dizia que deveríamos fazer a revolução mundial com um, dois, três, mil Vietnãs. A aventura do Che, que terminou com a sua morte na Bolívia, só nos encheu de ódio aos americanos e aos ditadores nativos. E fortaleceu o voluntarismo que inaugurou organizações para a luta armada no mundo. Mas a essa altura as ditaduras estavam preparadas para derrotá-las.

Toda uma cultura de louvor a Fidel e ao Che percorreu o mundo. Cantávamos as canções da revolução permanente enquanto milhares eram presos, torturados ou mortos. Ficaram as lendas até hoje repetidas por uma esquerda que não tem coragem de sair à noite e que não arrisca seu empreguinho público ou uma sinecura. Servem para a falsa justificativa da existência de farsantes que militam nos bares e cuja única prática revolucionária é beber rum e fumar um charuto.

Aos que ficaram colados na realidade, a transformação de Cuba em ditadura governada por uma monarquia dos Castro foi difícil de ser assimilada. Mas não há como negar a derrocada de um sistema que fracassou desde que deixou de ser tutelada pela União Soviética, que desapareceu. Para sobreviver, Cuba se apoia no turismo precário e em governos do continente, como os bolivarianos e o do petismo, todos afogados na corrupção.

Com a morte de Fidel, termina a época dos heróis, o tempo e o templo da Revolução. Com Fidel e Hugo Chávez acabaram também as ideias e os ímpetos individuais, o ciclo dos homens indispensáveis. O que será Cuba depois de sua morte? Para entender Cuba é imprescindível aceitar que ali nada é o que parece ser. O salário não é real, todos são pobres, mas não são desnutridos, um professor ganha menos que um porteiro e a saúde é o setor que tem grande carência de dinheiro, mas é gratuita para todos. É uma sociedade em que as pessoas não roubam, mas “resolvem”, o que é o mesmo.

Os cubanos seguramente não desejavam viver assim. Muito menos com uma verdade oficial, com uma polícia secreta enorme a controlar a vida de cada um, com jornalistas independentes presos. Não gostam. Só gostam disso os membros do apparatchik da classe dirigente. Em Cuba pode até existir uma medicina preventiva e pública eficiente, podem provar que ninguém passa fome, embora tenham cadernetas que lhes limitam a dieta a um pão ao dia e carne nunca, a não ser que seja comprada a preço alto no mercado negro. Pode ter um sistema que produz atletas para demonstração de propaganda em Olimpíadas e encher de orgulho pátrio o povo da ilha. Mas o que mais falta em Cuba é o essencial, é a insubstituível liberdade. Só os idiotas, faltos de neurônios e incapazes de raciocinar além dos limites da lenda, ainda cantam a estrofe esquerdoide “para que liberdade, o importante é não passar fome”.

Pouco a pouco, Cuba de lenda romântica passa a ter a sua imagem deteriorada pelas revelações e pela chacota. São comuns as anedotas como a da Grande Regata dos Países Socialistas, realizada na baía de Havana. O narrador da rádio oficial entusiasmava-se com o fato de Cuba estar em terceiro lugar. “Passou a segundo, deixando para trás a República Democrática Alemã, só falta ultrapassar a União Soviética”, gritava. E perto da meta, Cuba a lutar pelo primeiro lugar contra a URSS. “Só mais um esforço”, pede o narrador, “só mais um esforço”. Sim, Cuba ultrapassa a URSS e continuam a remar com força, passam a meta e continuam a remar, sempre com mais força, até que, desesperado, o radialista grita: “Agarrem-nos, que fogem para Miami”.

O sucesso desta, juntamente com aquela que dizia ser Cuba o maior país do mundo – com o Governo em Moscou, a tropa em Angola e o povo nos EUA – mostra bem que, apesar do comunismo, das prisões, dos fuzilamentos ordenados por Fidel e Che, entre outros, o povo não perdeu o humor. Aliás, o povo não perdeu sua cultura que é de uma riqueza fantástica, invejável. Em tudo. Na música, na literatura, na culinária. A falta de liberdade não causou estragos tão grandes como o fez na Rússia ou na Coreia. Mas fez falta ao povo, que ainda está por vivê-la plenamente. Não tinha liberdade na época de Fulgêncio Batista, seu governo corrupto e a sua economia de cassino e bordel dominada pela Máfia, nem durante os 55 anos, que ainda se arrastam a custo, em que Fidel – e agora o seu irmão Raul, como em todas as monarquias comunistas que se prezem – governou.

É preciso que a esquerda festiva e o jornalismo de má consciência trabalhem com consciência e distanciamento crítico. Fidel morreu, paz à sua alma. Mas não morreu um humanista ou um democrata, ou sequer um grande estadista, a menos que queiramos considerar dessa forma qualquer vulgar ditador. Morreu um homem que dominou com punho de ferro um povo que ludibriou constantemente, que se entregou nos braços da União Soviética, quase sem reservas, que encarniçou a guerra civil em Angola, apoiando o MPLA de tal modo que o MPLA se fartou do apoio. A democracia que certamente virá para os cubanos permite julgamentos a curto prazo e a longo ninguém se lembrará de Fidel. Foi mais um, de uma extensa galeria, de que fazem parte Mugabes, Obiangs, Josés Eduardos dos Santos, Erdogans, Pinochets, Videlas, Kim Sungs e tantos outros.

A esquerda, que é pouca, mas verdadeira, não a alcoólica e festiva, a que ainda pensa, terá que estudar sobre o futuro da espécie, sobre Fidel e suas crenças estatólatras, sobre a liberdade, sobre a felicidade e a música. E sobre a pobreza e a carência. Sobre um mundo que não tem só duas cores.

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Fidel Presente Hoy y Siempre!

Eduardo Galeano

Seus inimigos dizem que foi rei sem coroa e que confundia a unidade com a unanimidade.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que, se Napoleão tivesse tido um jornal como o Granma, nenhum francês ficaria sabendo do desastre de Waterloo.

E nisso seus inimigos têm razão.

Seus inimigos dizem que exerceu o poder falando muito e escutando pouco, porque estava mais acostumado aos ecos que às vozes.

E nisso seus inimigos têm razão.

Mas seus inimigos não dizem que não foi para posar para a História que abriu o peito para as balas quando veio a invasão, que enfrentou os furacões de igual pra igual, de furacão a furacão, que sobreviveu a 637 atentados, que sua contagiosa energia foi decisiva para transformar uma colônia em pátria e que não foi nem por feitiço de mandinga nem por milagre de Deus que essa nova pátria conseguiu sobreviver a dez presidentes dos Estados Unidos, que já estavam com o guardanapo no pescoço para almoçá-la de faca e garfo.

E seus inimigos não dizem que Cuba é um raro país que não compete na Copa Mundial do Capacho.

E não dizem que essa revolução, crescida no castigo, é o que pôde ser e não o que quis ser. Nem dizem que em grande medida o muro entre o desejo e a realidade foi se fazendo mais alto e mais largo graças ao bloqueio imperial, que afogou o desenvolvimento da democracia à la cubana, obrigou a militarização da sociedade e outorgou à burocracia, que para cada solução tem um problema, os argumentos de que necessitava para se justificar e perpetuar.

E não dizem que apesar de todos os pesares, apesar das agressões de fora e das arbitrariedades de dentro, essa ilha sofrida mas obstinadamente alegre gerou a sociedade latino-americana menos injusta.

E seus inimigos não dizem que essa façanha foi obra do sacrifício de seu povo, mas também foi obra da pertinaz vontade e do antiquado sentido de honra desse cavalheiro que sempre se bateu pelos perdedores, como um certo Dom Quixote, seu famoso colega dos campos de batalha.

Do livro Espelhos, uma história quase universal, tradução de Eric Nepomuceno.

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