MPB da felicidade

adriana 1

Quantas vezes a gente, em busca da ventura,
Procede tal e qual o avozinho infeliz:
Em vão, por toda parte, os óculos procura
Tendo-os na ponta do nariz!

(Mário Quintana)

Às vezes tenho pensamentos sobre a felicidade. A minha. Me batuca a cabeça se numa quinta-feira qualquer acordarei, olharei para o lado e concluirei, sem ressalvas, eu sou feliz! É claro que já sei da inexistência de felicidade plena. O que não entendo é por que cargas d’água inventaram esse termo. Decerto para cutucar os fracos ou para incentivar a marcha em busca de coisa melhor – horizonte.

Mas, às vezes, penso se haverá época disso. E se houver, o que farei? Ficarei sendo feliz, sem preocupações, perrengues, questões? Pararei de procurar? O mundo deixará de me incomodar? Não terei interrogações nem menores nem maiores? Viverei plenamente sem nenhum tipo de incômodo?

Que coisa tediosa a felicidade plena!

Talvez seja o revezamento que faça a vida girar: acerta-se um lado, para correr atrás da solução de outro. Uma alternância entre os grandes temas da vida, os assuntos que compõem a vida privada: família, amor, saúde, trabalho. E na folga entre um e outro, as coisas do mundo, minha nega: as fomes, as guerras, os desmatamentos, a política.
Mas e a MPB? Onde está a felicidade para a MPB? Em nosso cancioneiro, a felicidade tem muitos endereços, lugares que vão além de uma gota de orvalho numa pétala de flor…

A primeira parada é na obra de Luiz Tatit. Apesar de estar até o último fio de cabelo envolvido com a Academia, ele é o equilíbrio perfeito entre a linguística da USP e a vida aqui fora. Sabe dos caminhos, das pessoas, dos sentimentos, tem visão de raio-X e por isso é fácil ouvi-lo e reconhecer-se. Tatit compôs Felicidade em 1998, para disco solo (antes disso ele só havia lançado trabalho com o grupo Rumo). “Não sei por que eu tô tão feliz / Não há motivo algum pra ter tanta felicidade / Não sei o que que foi que eu fiz / Se eu fui perdendo o senso de realidade / Um sentimento indefinido / Foi me tomando ao cair da tarde / Infelizmente era felicidade / Claro que é muito gostoso / Claro que eu não acredito / Felicidade assim sem mais nem menos é muito esquisito”. Eu me reconheço nas palavras do Tatit quase sempre. Toda a sua obra é de fácil assimilação, mas não é simplista ou simplória, ao contrário, precisa mergulhos bem profundos.

Outro que sentiu felicidade sem muitas explicações foi Marcelo Jeneci: “Haverá um dia em que você não haverá de ser feliz / Sentirá o ar sem se mexer / Sem desejar como antes sempre quis / Você vai rir, sem perceber / Felicidade é só questão de ser / Quando chover, deixar molhar / Pra receber o sol quando voltar”.

Na mesma batida, está Zeca Pagodinho, um disposto à felicidade que lançou em 2002 música de Serginho Meriti e Eri do Cais que se tornou peça obrigatória em seus shows desde então. A composição também tem aquele espírito de largar um pouco as tormentas cotidianas para poder reconhecer um destino, digamos, feliz: “Se a coisa não sai do jeito que eu quero / Também não me desespero / O negócio é deixar rolar / E aos trancos e barrancos, lá vou eu / E sou feliz e agradeço / Por tudo que Deus me deu / Deixa a vida me levar (vida leva eu!)”.

Parece que a receita para esse lance tão complexo de ser feliz, ou de sentir felicidade, está mesmo no esquecer-se um pouco, no sair da tentativa de controle e no perceber as evidentes singelezas. É difícil e não é para qualquer um. Renato Teixeira e Almir Sáter conseguiram: “Ando devagar / Porque já tive pressa / E levo esse sorriso / Porque já chorei demais / Hoje me sinto mais forte / Mais feliz, quem sabe / Só levo a certeza / De que muito pouco sei / Ou nada sei […]Cada um de nós compõe a sua história / Cada ser em si / Carrega o dom de ser capaz / E ser feliz”.

Mas, sabemos todos, não é tarefa fácil essa tal felicidade, que o diga Tim Maia que rodou todo esse mundo procurando encontrar… Fincar os pés na realidade parece que estraga qualquer perspectiva, mas também denuncia que até o mais básico para o ser humano muitas vezes é negligenciado, Cidinho e Doca sabem: “Eu só quero é ser feliz / Andar tranquilamente na favela onde eu nasci, é / E poder me orgulhar / E ter a consciência que o pobre tem seu lugar”.

Em 1974, apesar de já ter nome conhecido aqui e ali, Martinho da Vila ganhou o Brasil de maneira definitiva. Lançou o Canta, canta minha gente, álbum que trazia na faixa-título muito de seu sorriso que até hoje envolve o Brasil. A mensagem, com música tudo fica melhor: “Canta, Canta minha gente / Deixa a tristeza pra lá / Canta forte, canta alto / Que a vida vai melhorar”. Este foi um grande momento na carreira de Martinho, no mesmo disco tinha também Disritmia – as duas estão por aí até hoje.

Apesar de tanta gente cheia de sorrisinhos na MPB, a gente sabe que o coração do poeta se alimenta é de dor mesmo. Fazer samba não é contar piada, como disse Vinicius e mais ainda ele soube direitinho que tristeza não tem fim, felicidade sim. E é por isso, também, que esta coluna chega ao fim, desejando a todos um ano, digamos, feliz, mas se isso não for possível, então que seja com, no mínimo, alguma felicidade.

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