Pane seca. 71 mortos

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Escrever sobre a tragédia que aconteceu com o time da Chapecoense em novembro é difícil, é estar no fio da navalha, pois há de se ter o respeito com os familiares, com os mortos, com os envolvidos. É preciso, no entanto, falar. Não de uma maneira doentia e oportunista. É preciso falar, pois a irresponsabilidade de um piloto – de uma empresa aérea – voar com o combustível no limite não é algo que possa passar sem comentários.

As autoridades da Aeronáutica Civil da Colômbia confirmaram que o avião que transportava a equipe da Chapecoense para Medellín caiu sem “uma gota de combustível” no morro em Cerro Gordo e que agora serão investigadas as causas do que provocou a pane seca. O acidente matou 71 pessoas e deixou seis feridas.

O piloto Miguel Quiroga queria pousar. Passou o recado à torre de controle a pedir as orientações. “Estamos a 10 mil pés. Vetores, senhorita, vetores na pista”. Ele queria que a torre precisasse sua velocidade e altitude para que o pouso fosse seguro.

Antes do desespero de Quiroga, ele tinha informado que tudo ia bem e poderia esperar o tráfego. Um avião tinha pedido pouso de emergência por causa de um vazamento de combustível. Quiroga, sabendo da sua situação, confirmou a espera. Por pouco tempo.

Yaneth Molina, controladora de tráfego na torre do aeroporto, perguntou: “Solicita prioridade para sua aterrissagem por problema de combustível. Correto?”

Quiroga confirmou. “Com emergência de combustível, senhorita. Por isso lhe peço de uma vez um trajeto final”, disse. “Solicito descida imediata”, já consciente de que a queda era uma possibilidade plausível. Trocaram localizações. Foi tarde. E o LaMia 2933 tinha caído, matando 71 pessoas, por irresponsabilidade.

De acordo com informações da Rede Globo, que teve acesso ao plano de voo, o documento indica que o piloto decolou da Bolívia para a Colômbia sem combustível suficiente para qualquer imprevisto.

O plano de voo é um documento que as empresas aéreas são obrigadas a apresentar antes da viagem com informações como rota, altitude e autonomia do avião. Aqui no Brasil eles são apresentados à Infraero de acordo com o presidente do Sindicato Nacional dos Aeroportuários (SINA), Francisco Lemos.

O plano de voo apresentado pela empresa LaMia foi feito pelo piloto e sócio da empresa, Miguel Quiroga. “Esse documento tem valor jurídico. Provavelmente ele vai ser uma peça importante para determinar os fatores contribuintes do avião”, afirma o perito em aviação Marcus Reis.

O copiloto previu um voo direto, entre Santa Cruz e Medellín. Apenas com um aeroporto alternativo como opção, de Bogotá, caso houvesse algum problema no aeroporto final, em Medellín. Outra coisa que o documento mostra: desde o começo a empresa sabia que o tempo para chegar ao destino era muito apertado para aquele tipo de avião. Tanto que no plano o tempo de voo, 4 horas e 22 minutos, é igual à autonomia anotada no documento, 4 horas e 22 minutos. Apesar disso, o plano de voo recebeu uma assinatura e o carimbo da Aasana, a Administração Autônoma de Serviços Aeroportuários e Navegação Aérea da Bolívia.

Segundo o secretário de Segurança Aérea da Aeronáutica Civil, Fredy Bonilla, as normas internacionais exigem que uma aeronave precisa ter combustível suficiente “para chegar ao aeroporto de destino, mais 30 minutos e ainda mais 5 minutos ou 5% da distância, que é o combustível reserva”.

As declarações que foram dadas por parte dos dirigentes da LaMia é de total confiança no piloto. Tratava-se, de acordo com eles, de um excelente profissional. “É um piloto com muita experiência, treinado na Suíça”, disse o diretor-geral da empresa, Gustavo Vargas. O pai de Quiroga afirmou o mesmo, disse que o filho estudou em Oxford, na Inglaterra. Ou seja, não era um inexperiente. Quiroga, quando tomou a decisão de ir direto a Medellín, em vez de pousar em Bogotá para reabastecer como estava previsto no plano de voo, sabia do que se tratava, sabia o que estava fazendo. Julgou ter combustível suficiente.

Francisco Lemos informou à Ideias que “a pane seca é o terror da aviação” e que “só traficante faz isso”. Questionamos sobre a existência desta prática aqui no Brasil, ele afirmou que desconhece alguém que faça isso. “Se no Brasil acontecesse isso, cairia um avião a cada dia porque o tráfego em São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro e outras cidades é enorme”. Quem anda frequentemente de avião sabe: muitas vezes demora para aterrissar devido a variados problemas, um deles é o volume de tráfego.

Quiroga apostou tudo no “vai dar certo”. Não deu. Deu pane. Pane seca e 71 mortos.

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