Susana

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Todos esses anos, mais de dez, sempre na mesma data. Não lembro como começamos, mas lembro da primeira vez. Esse mesmo quarto, com essa luz e esses lençóis, a chuvinha fina lá fora. No ano seguinte também chovia e depois, acho que intercalamos nossas tardes de loucuras com as nuances do clima.

Nunca soubemos nada um do outro, nem sei o seu nome, não sei onde mora e custo a acreditar que se o visse na rua, caminhando como qualquer um, o reconheceria. Mas naquela primeira vez, você deixou o bilhete na cabeceira com o trato para encontro no ano seguinte e desde então, esse quartinho de hotel passou a ser o único compromisso inadiável que tenho.

Não procuro explicações para sua ausência nesse aniversário dessa estranha paixão. Também não me ocorre chegar à portaria e tentar descobri-lo através dos registros dos anos anteriores. Talvez você esteja no quarto ao lado com uma mulher doze anos mais jovem, a fazer combinações para sua velhice. Talvez você esteja longe, muito longe, numa viagem de lazer, cercado de filhos e com uma esposa que usa saia longuete e colar de pérolas. Talvez você esteja morto. Não interessa. Não quero saber. Nosso casamento foi quebrado, chegou ao fim, como chegam todos os casamentos.

Eu escrevo para te contar o que você nunca me perguntou. Meu nome é Susana e vim todos os anos porque você, uma misteriosa aventura que eu não sei nem o nome, é quem mais me conheceu durante toda minha vida.

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