A caminho de 2018

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As eleições para prefeitos e vereadores atravessaram o seu alvo histórico. Foram muito além de seus limites e abriram, de forma irreversível, a sucessão na República e nos estados. Soterraram o PT e sua promessa de mudanças. As esquerdas, que cresceram sob o manto de Lula e Dilma, voltaram a ser minúsculas e desarticuladas. Sob estes escombros, candidatos à sucessão que pareciam inarredáveis, dificilmente reconquistarão as posições de aspirantes ao poder supremo. Uma vindita da história, que não é imóvel como pensam os que pensam.

A direita, em todas as suas versões, se assanha. Da execrável manifestação de saudosos do regime fardado, aos movimentos conservadores cuja expressão mais baixa é a do movimento de igrejas pentecostais a pregar sobre questões que vão da vida pública à masturbação. O país afundou em mediocridade que se amplia nas redes sociais, pela internet, com uma velocidade assustadora. Mas é fácil perceber que todas essas avaliações do resultado eleitoral são frágeis, incompletos, misturam categorias, desconsideram fatos. Algo é inegável. Em meio a toda a insatisfação que varre o planeta e elege um Donald Trump para comandar a maior potência bélica do mundo, o estrago feito pelo juiz Sérgio Moro e a Lava Jato foi enorme e ele promete mais.

As avaliações partidárias não trazem novidades. O PSDB solta fogos por ser o maior vitorioso nas urnas, o presidente Michel Temer respira aliviado por 80% dos prefeitos eleitos serem de sua base de sustentação e o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, se projeta para 2018 como o tucano mais competitivo. No outro extremo sobram avaliações cinzentas: uns dizem que o Brasil deu uma brutal guinada à direita, com uma onda conservadora a varrer o país, de ponta a ponta. Para outros, a eleição teria sido a própria negação da política, tanto pela via do “niilismo” – abstenção, votos nulos e brancos – como pela via do candidato “não político”.

SUPERFICIALIDADE
Há um toque de ligeireza, superficialidade e pedantismo nessas conclusões. Há grande confusão sobre o chamado desencanto com a política. Para entendê-lo, é necessário mergulhar no tempo, voltar a 2013 e 2014, quando os brasileiros expuseram sua insatisfação sobre a secular ineficiência dos serviços públicos e as anacrônicas instituições político-partidárias, inteiramente descoladas do cotidiano das pessoas. O “sem partido” de 2013, grito das ruas não entendido pela esquerda tradicional, transformou-se no “eles não me representam”, no voto nulo, em branco, na abstenção ou na sua contraface, o voto no “não político”.

Foram eleitos mais de 11 mil prefeitos e vices e 57.736 vereadores, que passam a desenhar o novo – talvez nem tanto – mapa político do Brasil. Mas, na aritmética geral, as mudanças foram menores do que pareciam à primeira vista. Se o PT naufragou — só está assumindo 256 cidades e uma capital, Rio Branco, contra as 630 que detinha em 2012 –, e o PSDB foi o grande vitorioso, ampliando seu poderio para 804 cidades (sete capitais) contra 792 há quatro anos, o PMDB continua líder absoluto. Pulou de 1.015 para 1.027 prefeituras. E nunca se viram tantos partidos com representações municipais. Só nas capitais, 13 deles estão se sentando na cadeira hoje. Alguns como o PRB de Marcelo Crivella, no Rio de Janeiro, a Rede em Macapá, o PMN em Curitiba, o PPS em Vitória, o PCdoB em Aracaju e o PHS em BH, pela primeira vez.

Mesmo que as pequenas siglas tenham, em boa parte dos casos, se beneficiado do oportunismo de políticos conhecidos, a chegada delas ao poder pode contaminar a discussão das cláusulas de barreira, já aprovadas no Senado. Um desastre anunciado.

RECADO EXPLÍCITO
As urnas que elegeram os que agora começam a administrar as cidades e o cotidiano de mais de 200 milhões de brasileiros foram explícitas: praticamente expurgaram o PT, condenaram a corrupção e os políticos profissionais, se renderam aos encantos de quem soube demonizar a política e se apresentar como gestor de sucesso. A lei, que ainda tem de passar pela Câmara, busca regular a multiplicação endêmica de agremiações políticas que fazem do Brasil o país com o maior número de partidos com representação parlamentar no mundo, segundo pesquisa da Universidade de Gotemburgo, Suécia. Hoje, 35 partidos estão oficialmente registrados no Tribunal Superior Eleitoral, 27 deles no Congresso Nacional.

Mais grave ainda é não dar ouvidos às mensagens embutidas no voto. Ainda que no Senado e na Câmara políticos se arvorem em proibir a reeleição, 1.385 prefeitos renovaram seus mandatos, quase 50% dos 2.945 que disputaram um segundo mandato. Nas 26 capitais, dos 20 prefeitos que tentaram só cinco não se reelegeram, provando, mais uma vez, a dissintonia do Congresso com a vontade popular.

Outro recado das urnas, e ainda mais dissonante, é o voto obrigatório, rechaçado pelo eleitor, que faz com que muitos dos que hoje estão sendo empossados tenham tido menos votos do que a soma de abstenção, brancos e nulos. Além de ir às urnas, em 2016, milhões de brasileiros foram às ruas nas mais gigantescas manifestações já registradas no país. O PT de Lula e Dilma Rousseff quase sumiu do mapa, a crise que já era braba se agudizou. Diante da crise e depois da Lava Jato, prefeitos, vices e vereadores empossados têm a obrigação de fazer mais do que a promessa formal de “exercer com dedicação e lealdade o mandato, cumprindo as leis e respeitando as instituições”. Deles se espera isso e a mais singela das obrigações: honestidade. Sem a qual não há ano novo, muito menos um mandato.

TERRENO PANTANOSO
O cenário político agora se constrói com vistas às eleições de 2018. Os brasileiros vão eleger presidente da República, vice, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. Pode ser, apostam alguns, a grande eleição da mudança de rumos. Os menos otimistas não acreditam nisso enquanto não se realizar no Brasil uma reforma política que impeça que a representação dos fundões e dos grotões, das camadas mais ignorantes e atrasadas da sociedade, seja hegemônica. É daí que emergem Renan Calheiros, Romero Jucá e assemelhados.

Diante de terreno tão pantanoso como o que vivemos, marcado pelas denúncias de corrupção capazes de incinerar o prestígio e a popularidade de qualquer político, quem se arrisca a fechar alianças? É crescente a percepção de que as eleições de 2018 passam pelas mãos do juiz Sergio Moro. A depender dos progressos da Lava Jato, tudo pode mudar com a exclusão de políticos referenciais, especialmente os que estão para disputar majoritárias na República e nos estados.

Em princípio, todos os políticos na ativa, com raríssimas exceções, estão sob suspeita. Um nome como o de José Serra, respeitadíssimo, caiu em descrédito a partir de uma delação de que recebeu dinheiro de caixa dois para a sua campanha de 2010. Para citar outro tucano, Geraldo Alckmin, poderoso governador de São Paulo, passa pelo mesmo dissabor. E um terceiro, Aécio Neves, é chamado a depor. Logo o PSDB, partido mais promissor para disputar a presidência da República, não terá candidato. E o PMDB? Todos, sem exceção, a começar por Michel Temer, esbarram nas denúncias de corrupção.
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Já o PT começa a mudar de comportamento para sobreviver em seus vícios. A teoria do golpe passou a ser só para militância. Por 88 cargos, o PT vai apoiar os nomes do presidente Michel Temer para o comando do Congresso Nacional: Eunício de Oliveira (PMDB) no Senado e Rodrigo Maia (DEM) na Câmara dos Deputados. O PT age dessa forma porque perdeu milhares de cargos comissionados em todo o país com o impeachment de Dilma Rousseff e com a saída de 350 prefeitos. O partido vai passar por cima do discurso de golpe e apoiar os candidatos de Temer. A ideia é ter aliados em cargos ligados às vagas que devem ser ocupadas pelo partido nas Mesas Diretoras das duas Casas.

HUMOR INSTÁVEL
Mas o humor dos brasileiros é estranho e mutável. Segundo uma sondagem feita pelo newsletter Relatório Reservado, 71% dos entrevistados cravaram que Lula será preso em 2017 ou no próximo ano. No entanto, 58% das pessoas consultadas acreditam que, se o ex-presidente não cair nas garras do juiz Sergio Moro, não só disputará as eleições como derrotará qualquer candidato. Ainda segundo a enquete, realizada entre os dias 18 e 29 de dezembro, 51% entendem que Lula é culpado dos crimes que lhe são imputados. Já o percentual dos que consideram Lula inocente e vítima de um complô para evitar seu retorno ao Planalto é de 21%.

Enquanto a Lava Jato não vem, Lula se prepara para comandar o PT e evitar um racha. Assumirá a presidência. Dentro do partido há muitos insatisfeitos que ameaçam deixar a sigla. Se Lula não conseguir promover a união, ninguém mais será capaz, segundo os caciques petistas. Para ajudá-lo no comando, cinco vice-presidências. Entre os nomes cotados, Luiz Marinho (SP), Lindbergh Farias (RJ) e Jaques Wagner (BA), todos amigos do ex-presidente. Gleisi Hoffmann foi rejeitada porque tem futuro negro na Lava Jato.

A Lava Jato, o tormento maior dos políticos, está em jejum de operações desde o dia 17 de novembro, quando deflagrou a prisão de Sérgio Cabral e sua turma. É o maior período sem operações em um ano. Mas não é, nem de longe, o período mais longo de suspense entre uma fase e outra. Entre agosto e novembro de 2014, foram 84 dias sem operações – encerrados pelo Juízo Final, que indiciou 27 pessoas. Os políticos, empresários e outros sabem que não perdem por esperar. A Lava Jato está longe de acabar.

MAL-ESTAR NA SOCIEDADE
Caminhamos para 2018 enfiados na maior crise da história do país. Somos um país com medo do pior. O Índice de Medo do Desemprego subiu no último trimestre e fechou dezembro em 64,8 pontos. O indicador da Confederação Nacional da Indústria reverteu a tendência após registrar recuo na medição de setembro. O receio com as condições do mercado de trabalho tem base na realidade. O desemprego atinge a 12,1 milhões de brasileiros e deve continuar subindo, de acordo com especialistas. O medo acaba influenciando as decisões de consumo das famílias.
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Não há luz no fim do túnel. A indústria decepcionou novamente. Foi divulgada a produção industrial de novembro. Bancos e consultorias previam em média 2% de crescimento, mas a alta foi de apenas 0,2%. Isso ainda é o ano passado, mas a partir do dado as projeções para o PIB do último trimestre podem ser revistas para pior. Essa queda maior em 2016 retarda ainda mais a recuperação em 2017. Apesar de o quadro econômico continuar mais frio do que o previsto, o Banco Central não vai se arriscar a um corte maior porque há várias outras incertezas na conjuntura.
Foi divulgada a produção de veículos do ano. O setor continuou em marcha à ré e voltou ao nível de 2004. Números fortes só são esperados pelos empresários do setor na próxima década. A incerteza política continua sendo vista por eles como uma ameaça e um entrave ao consumo e ao investimento. O presidente da Anfavea, Antonio Megale, tem uma boa notícia para dar: em 2017, a produção de veículos talvez tenha um crescimento de 11,9% sobre o ano passado. Mas tudo tem que ser entendido no contexto. A queda acumulada desde o melhor momento do setor, em 2013, chega a 43%. O país já chegou a produzir 3,7 milhões de veículos por ano e fechou 2016 em 2,1 milhões.

Nesse contexto, o medo vai demorar a sumir do mercado de trabalho. O desemprego deve continuar piorando nos próximos meses. No setor automotivo, o nível de vagas recuou a 2007. Mesmo com o aumento da produção esperado para o ano, a Anfavea estima apenas uma estabilidade no emprego, com queda no primeiro semestre e recuperação no segundo. O que tem ajudado muito o setor automotivo é o crescimento das exportações. No ano passado, enquanto o licenciamento de veículos caiu 20%, as vendas externas saltaram 24%. Isso segurou a queda da produção. Para este ano, a expectativa é de novo incremento de 7% nas exportações. A produção de máquinas agrícolas também teve uma forte recuperação no final do ano passado. Embora tenha fechado 2016 em queda, a expectativa de uma safra forte a ser colhida este ano fez as vendas dispararem 84% em dezembro, sobre o mesmo mês de 2015.

O país é ainda atingido pelos estilhaços da maior recessão da história recente. O PIB de 2017 será melhor do que os últimos dois anos, mas isso não significa que todos os indicadores passarão a ser positivos porque mudou o calendário. Continuarão oscilando em todas as áreas, e não é da indústria que sairá o impulso para a recuperação. Ela vai melhorar devagar.

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