A minha Geração Perdida

armando

Passei a ler F. Scott Fitzgerald por “indicação” de Ernest Hemingway no seu livro Paris é uma festa. A denominada Geração Perdida foi por muitos anos alvo de minha fixação literária e muitas vezes fui a Paris com o objetivo de frequentar os lugares citados pelo intrépido e talentoso escritor americano. Nos anos noventa viajava com as obras de Scott Fitzgerald, Ford Madox Ford, Ezra Pound e Joyce James embaixo do braço para sentir intimidade com aquela época de incertezas mas cheia de romantismo em que o que contava mesmo era ser feliz até com pouco dinheiro no bolso. Aqueles foram tempos de muitas visitas e com o espírito alegre, percorri as ruas daquela cidade fascinante em busca da minha geração perdida.

A Paris dos anos vinte lançava-me sempre ao Quartier Latin, e não poucas vezes subi com minha esposa a Rue Cardinal Lemoine em busca do número 74, um pequeno prédio de apertados apartamentos que abrigara Hemingway com a sua querida Hardley e seu primogênito Bumby. O percurso nos obrigava a atravessar a Place de La Contrescarpe, subir a montanha de S. Genevieve, passar em frente ao Pantheon e descer a Rue Souflot em direção ao Jardim de Luxembourg. Então sempre descansávamos naquele oásis poético no coração de Paris, vendo os barquinhos navegados por pais e filhos nas águas tranquilas daquele laguinho cercado de cadeiras de ferro do século XIX. Felizes, sentíamos o sol no rosto por algum tempo, e refazíamos o trajeto para visitar Miss Stein, ali perto, na Rue de Fleurus.

Sempre me submeti aos encantos e sentimentos da Paris narrada por Hemingway e por isso adquiri uma fixação pela busca das livrarias originais da Shakespeare & Company de Silvia Beach. Certo dia encontrei a primeira de 1919 na Ile de S.Louis no número 8 da Rua Dupuytren e finalmente a derradeira, aquela que abraçou a geração perdida e que ficava próxima ao Teatro L’Odeon no 12 da Rue de l’Odeon. Foi nesse endereço de 1921 que aquela talentosa turma de artistas fez o seu ponto de apoio e de inenarráveis encontros, marcando para sempre a era dourada daquela festa móvel. A livraria hoje existente na Rue de Bucherié é uma esforçada e louvável cópia da lendária Sheakespeare & Company de Silvia Beach.

Foi então inevitável percorrer os bistrôs de Paris indicados por Tatie – como Hardley carinhosamente tratava Hemingway – onde comemos as famosas ostras do Le Dome que “possuíam forte gosto de mar e um leve travo metálico que o vinho branco gelado lavava, deixando somente o gosto do mar e a suculenta textura” e quase batemos um papo no balcão do bar do La Closerie de Lilás com Ford Madox Ford que terminara recentemente o seu O Bom Soldado. Irresistivelmente visitamos Gertrude Stein e sua companheira Alice B.Tocklas por pelo menos duas vezes no seu apartamento do número 27 da Rue de Fleurus, mas infelizmente não entramos na sua fabulosa sala com as coleções de Matisse, Braque, Picasso, Derain, Juan Gris e muitos outros e a qual só poucos privilegiados tiveram acesso.

Em Paris é uma festa, Hemingway comenta ao final, que aqueles foram os melhores anos de sua vida, justamente numa época em que ele e sua pequena família eram pobres e felizes na Paris dos anos 20. Quer saber? Ser pobre em Paris do jeito que Hemingway vivia não era de todo mal, pois ele sabia tirar proveito do que podia usufruir. Minha única frustração naquelas felizes e fascinantes viagens a Paris foi não ter conhecido Zelda, a esposa maluquinha de Scott. Ela parecia tão adorável…

Então só me resta agradecer ao Ernest por ter lido e conhecido mais F. Scott Fitzgerald e dizer com todas as letras que fiquei fascinado pelo O Grande Gatsby, seu maior sucesso, mas que foi Suave é a Noite (Tender is the night) que me arrebatou perdidamente. Esse livro publicado em 1934 é um dos últimos de Scott. Mais autobiográfico do que suas outras obras, conta a história de Dick Diver um psiquiatra americano e sua esposa Nicole Warren, uma paciente por quem se apaixonara, sacrificando sua carreira, seus sonhos e seus interesses, levando-o a uma tragédia. Pode parecer simples, mas convenhamos que as questões das quais a grande literatura se ocupa não são tão profundas e extensas para esgotar os nossos dramas porque o que importa é saber narrar poeticamente que nascemos, crescemos, amamos, sofremos e morremos. O mais é pura desconversa. Não há nada de novo sob o sol, como diz o Eclesiastes, ou como diria Jay Gatsby: “É isso aí meu velho”.

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