Barra pesada

fabio

Que a barra está pesada, está. Todos – oposição, situação, forças vivas da nacionalidade, reservas morais da nação, donas de casa, sem-teto, sem-terra, sem-caráter, mulheres, homens e todos os gêneros, alto e baixo clero, produtores e consumidores – concordamos que a barra está pesadíssima.

A cada dia somos desafiados por diferentes problemas sem solução e por soluções que por si formam problemas. Para citar o Eça, temo-la boa, a situação. O governo é frágil e mal se equilibra na corda bamba de um Congresso viciado em falcatruas e nas ameaças da Lava Jato, que pode derrubar, a qualquer momento, um bamba da República.

Todos os políticos estão sob suspeição. Ninguém merece crédito. O presidente Michel Temer corre o risco de perder o mandato na Justiça e enfrenta nas ruas a oposição raivosa, ressentida porque foi defenestrada com o impeachment de Dilma Rousseff. Máscaras estão caindo do rosto daqueles que, nesta hora, invocam o cassetete, assim como daqueles que agitam na retaguarda, na ilusão de revoltas inviáveis.

Uns e outros, em verdade se parecem no anseio de uma ordem destinada a levar em conta, exclusivamente, seus pontos de vista e suas vantagens. Existem revoluções e revoluções agitadas nas ruas, e todas são pouco recomendáveis. Murmuram-se insatisfações militares, lustra-se a lembrança de 64. E parte da imprensa esmera-se por conferir ao noticiário o tom de penúltimo ato de tragédia.

Neste país em que mais de 30 milhões de cidadãos ignorantes de sua cidadania vivem na miséria, 12 milhões não têm emprego e, entre os empregados, mais de 70% ganham de dois salários mínimos para baixo, a realidade é a da fome e da indigência. A fome e a criminalidade aumentam na mesma proporção. Os presídios estão lotados. A superpopulação presidiária desata guerras internas de facções e oferece espetáculos de barbáries, com dezenas de mortos, muitos decapitados.

A temporada de espantos não tem fim. Empresários estacionam diante dos números da crise como se vivessem a fatalidade. Os prognósticos mais otimistas indicam lenta recuperação que levará, no mínimo, mais de uma década para voltarmos a índices de dez anos atrás.

Na esteira da crise, os serviços públicos deterioram, os remédios amargos se impõem, como a reforma da previdência, os ajustes fiscais, o congelamento de salários, a majoração dos tributos. E a grita aumenta. Não há no mundo país mais “governista” do que o Brasil, nem povo mais convencido do que o nosso das insubstituíveis virtudes cívicas e até domésticas da intervenção governamental em todos os planos e em todos os assuntos. Na crise, o berro pelo socorro do Estado cresce, a começar pelos Estados, que gastaram o que não podiam e querem que o governo da União cubra seus déficits.

A barra está pesada. Para não perder de todo a esperança, o que justifica entre nós algum otimismo é que somos um país e um povo em rápida transição; uma terra em que dois Brasis estão há tempo em conflito aberto: o Brasil ancestral, atrasado, ainda dominante, e o Brasil moderno, urbano, impaciente e inexperiente que procura encontrar a sua própria maneira de ser e de governar-se, entre tantos equívocos, contradições e desacertos.

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