É disso que o povo gosta, é isso que o povo quer

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Prefeitos e vereadores inauguraram o ano em seus novos postos de trabalho. A maioria tratou da posse com seriedade, ou fingindo seriedade, e pronto. É o pessoal da turma dos sem holofotes, ou dos holofotes falsos. Mas o que teve de espetáculo estranho pelo Brasil não está no gibi. Deveria estar, como material de historinha de brincadeira.
Um giro rápido pelo país e a gente se espanta. A posse e os primeiros atos são aqueles espetáculos iniciais que todo circo que caminha pelo país faz. É o prenúncio do que o empossado quer transmitir como luta pelos próximos quatro anos. Ou, se fôssemos fazer outra analogia, poderíamos dizer que as primeiras horas de governo são como o prefácio do que vem pela frente.

Em Triunfo, no Sertão da Paraíba, o ano começou sem prefeito. Duas sessões foram marcadas na Câmara de Vereadores para a formalidade, mas José Mangueira eleito com quase três mil votos e seus vereadores aliados não apareceram. O lance se deu por conta de um cabo de guerra entre oposição e situação. Para que os oponentes não tivessem quórum para eleger a presidência da Câmara, o pessoal amigo embarcou numa de Arnesto, aquele do samba de Adoniran, e deu bolo. Dia seguinte, foi feita nova tentativa de posse. A oposição marcou para as 19h, mesmo endereço. O prefeito e os seus improvisaram em outro lugar o recebimento de faixa e eleição da casa às 17h. A novela não acabou, porque um dos vereadores puxou da manga a notícia de que segundo o que consta no regimento interno os atos realizados por vereadores fora da sede não têm validade. Enquanto escrevia essa matéria o lance corria na justiça, não tive tempo de saber se o caso já teve desfecho.
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A 796 quilômetros de Salvador, a pequena cidade de Guanambi tem um pouco mais de 86 mil habitantes. Metade dos eleitores votou em Jairo Magalhães para prefeito. Não sei a religião reinante na cidade, se há crentes, ateus, mas isso pouco importa, já que o Estado é laico e pronto, certo? Errado. No primeiro dia do resto de nossas vidas, o prefeito tratou de contar para todo mundo que a partir daquele momento a cidade estava sob proteção divina, passou a pertencer a Deus. Ok, poderia ser uma força de expressão, um agrado verbal aos eleitores mais fieis, uma confissão de fé, mas o Jairo Magalhães fez isso na forma de decreto. Sim, decreto: texto, assinatura, Diário Oficial e o escambau. Sob o título de “Entrega das chaves da cidade ao Senhor Jesus Cristo”, o texto tem coisas como “Declaro que esta cidade pertence a Deus e que todos os setores da prefeitura municipal estarão sob a cobertura do Altíssimo”, cancelou “em nome de Jesus, todos os pactos realizados com qualquer outro Deus ou entidades espirituais” e ainda por cima tratou de tentar colocar um ponto final na questão “e minha palavra é irrevogável”. O procurador Rômulo Moreira pediu para que o Ministério Público entrasse de sola no caso porque entendeu que o decreto fere os princípios de Estado laico. O documento foi para análise e caso não esteja de acordo com os princípios públicos (eu poderia até dizer que caso a chefe do MP da Bahia não seja tão crente quanto o prefeito, mas fiquei com medo de levar uma carraspana judicial) poderá – poderá! – sofrer uma Ação Direta de Inconstitucionalidade e perder validade. Oremos.
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Vamos falar de João Doria? Antes de tratar da micareta que ele promoveu ao se fantasiar de gari, é bom sublinhar que afirmou que não vai se candidatar a reeleição. No primeiro dia, ele mandou o recado: “Não sou favorável. Não disputarei”. Maravilha, tem bastante gente já bem sem paciência com ele. São Paulo é a principal cidade do Brasil, tem a maior população do país, do continente e do mundo inteirinho de língua portuguesa, é a sétima mais populosa do planeta, o maior centro financeiro da América Latina e a cidade brasileira mais importante no cenário global. São Paulo é uma gigante que não permite certas coisas. Mas João Doria, dono de 3.085.187 votos avisou que o seu gesto de se vestir de gari e sair para limpar as ruas de São Paulo irá se repetir até o final de seu mandato: “Todas as semanas em quatro anos. Podem anotar, registrar”. Eu não sei se Doria de fato varreu a Praça 14 BIS de onde bradou seu programa “Cidade Linda” (os jornais disseram que ele exerceu o trabalho braçal por 10 segundos), mas deu tempo para selfie e postagem no Facebook.

Sena Madureira, no Acre, elegeu um paranaense para tratar da gestão da cidade: Mazinho Serafim. Quase oito mil votos. Seu primeiro ato foi mandar acabar com uma porta estratégica que havia no gabinete. Tijolos, cimento e adeus aos tempos de escapadelas à Leão da Montanha. A porta era uma entrada privativa e segundo o eleito muitos se beneficiaram dela para escapar de cobranças do povo. Mas com ele não vai ter isso, afirmou que vai entrar e sair pela porta da frente todos os dias, para ser visto e falar com quem estiver em sua antessala. Confesso que gosto de saber que a intenção do prefeito é ver e ser visto, mas será que não dá apenas para ser sério e pronto? Precisa desse carnaval todo? Quem construiu a barreira de tijolos foi o vereador eleito Canário, que é pedreiro, não sei se foi uma colaboração gratuita ou se recebeu da prefeitura pelo serviço.

Parece que Gerson Colodel, eleito em Almirante Tamandaré, tratou com transparência suas prioridades. Seu primeiro ato sentado na cadeira de prefeito foi revogar a lei que reduzia em 20% seu salário, do vice e dos secretários. A justificativa veio com o fato de ele ter reduzido o número de secretarias do município. Noves fora, tá tudo certo.
E o novo empossado de Petrolina, Miguel Coelho? Permitiu que o carro de som responsável pela solenidade tocasse uma música de título “Arruma a mala aí”, não conheço a canção, mas pelo nome é uma provocação muito feia ao seu antecessor. Coisa desnecessária e que tem custo, caso o Ecad esteja atento e forte.

O prefeito Rafael Greca chegou de ônibus, disse que estava alegre por estar num veículo “que não faz barulho e não gera câncer porque não tem fumaça poluidora” e ainda deu o recado: “é o futuro começando a entrar em Curitiba. Quis ir à posse nesse veículo de ponta para homenagear a Volvo, que emprega 4.200 chefes de família”. Mas antes de embarcar, já havia muito tititi a respeito de seus primeiros passos. O adiamento da Oficina de Música para repassar a quantia que a prefeitura gastaria no evento para a área de saúde foi um deles. E depois da posse a manchete ao seu redor não cessou, Greca foi internado. Começou os primeiros dias despachando do hospital: boletins oficias e comunicação pelo Facebook.
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Crivella doou sangue; dois prefeitos da Paraíba tomaram posse à luz de velas, porque os prédios tiveram a energia cortada por falta de pagamento; muitos eleitos trataram de distribuir cargos para a família, a perpetuar o nepotismo nosso de cada dia; outros invocaram o nome de Sergio Moro em seus palanques como se ainda estivessem em campanha; teve gente que baixou decreto contra a corrupção (ah bom!, finalmente a corrupção foi proibida – ironia); nomes de ruas foram trocados com urgência; teve gente que zerou os cargos em comissão, mandou todo mundo embora para começar a preencher as vagas com os seus apoiadores, mas só comunica a primeira ação e por aí vai… É tanta coisa descabida que não dá para citar todas as esquesitices que o circo político permite. Mas nada é mais assustador do que ver a imagem do vereador de Caratinga Ronilson Marcílio Alves chegando para tomar posse algemado e com o uniforme de presidiário. Ele foi reeleito em outubro, no mês seguinte a polícia, cumprindo um mandato, chegou em sua casa e levou documentos, celulares, pen drives. Uns dias depois, foi preso e levado para penitenciária. Há segredo de justiça, não dá para saber direito o que está a acontecer, mas parece que o caso envolve padre e extorsão. Ronilson assinou sua posse, ficou cerca de duas horas no plenário e depois voltou para penitenciária. Para não perder o mandato, o advogado está contando com o tempo de recesso parlamentar (!) que vai até 15 de fevereiro, se a sorte dele não mudar até lá, ele vai pedir uma licença de 120 dias.

O nosso carnaval não tem fim!

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