Editorial. Ed. 184

Lula e o PT estão no fim, mas no pensamento de muita gente parece que o tempo não passou. Quem o idolatrava desde antes se dividiu em dois grupos. O maior é o dos que perdoam tudo por causa de sua popularidade, que seria sustentada basicamente pelos programas sociais, e acham que ele fez mais que podia. O grupo menor é o dos que se sentem frustrados porque ele não fez o que prometeu durante 20 anos e, em especial, viram que a corrupção continua sem freios. Nenhum dos dois grupos mudou seu modo de pensar, mesmo diante dos fatos. Os fãs dizem que ele fez o primeiro governo na história a olhar para os pobres. Os traídos resmungam, mas não reconhecem que estavam errados quando diziam que o PT não era nem cínico nem corrupto.

A paralisia mental não é só dos antigos apoiadores, que se diziam e ainda se dizem “de esquerda”, embora o próprio Lula já não se diga. É também dos que antes o repudiavam. Neste caso, a maioria simplesmente diz que Lula fez o possível – ou seja, não incomodou o mercado, até o ajudou bastante – e desdenha a questão ética, afinal todos os políticos são assim mesmo, no Brasil e no mundo. Nesta categoria o prestígio de Lula murchou. A maioria dos brasileiros, que antes o aprovavam em 73% porque a economia melhorou, o desemprego caiu, a nação tem sido elogiada etc., hoje não passa de 18% dos fiéis da seita. E há uma minoria, “de direita”, que critica Lula quase sempre de um ponto de vista personalista, que o xinga de analfabeto e autoritário e acha que todo o sucesso de seu governo foi concebido antes dele ou a despeito dele.

Os fatos, como diria lorde Keynes, deveriam ter mudado essas ideias. Intelectuais conhecidos chegaram a dizer que os escândalos de corrupção, por exemplo, eram “sem importância”. Mas um sujeito e um partido que constroem sua fama em torno da palavra “ética” devem ser no mínimo cobrados de modo igual. No entanto, a sucessão de falcatruas multipartidárias e a ação do juiz Sergio Moro desmoralizaram definitivamente todos os argumentos lulopetistas.
Lula sempre disse que mudaria o tal modelo, mas o maior trunfo de seu governo foi não ter mudado, ou melhor, foi tê-lo aprimorado. Câmbio flutuante, superávit primário, metas de inflação e aumento das reservas seguiram com apuro ainda maior, para alegria de FMIs e agências de investimentos, graças à autonomia branca concedida ao BC. E a política de crédito foi tão superior que se converteu num fator de popularidade mais determinante que o Bolsa Família, outro aprimoramento do que existia.

O resultado é que os governos do PT são muito mal analisados, que por isso mesmo navegou sobranceiro no segundo mandato. Os traídos e os detratores foram se cansando, vergados pelas pesquisas. Aqui e ali, diante de um pequeno escândalo ou outro, ou de algumas recaídas populistas contra a “zelite” e a “imprensa burguesa”, críticas foram feitas, mas sem efeito. Os anos Lula geraram uma pasmaceira geral, calando até os que se diziam conscientes das mazelas nacionais. Nenhuma reforma séria foi a cabo; a renda apenas recuperou o valor de uma década anterior; a maioria continuou sem ensino de qualidade, sem esgoto nem justiça, mas pagando impostos absurdos; a ladroeira em todos os níveis passou a ser tratada como deslizes da natureza humana. Isso até o juiz Sergio Moro e a Lava Jato entrarem em cena e abrir as entranhas do poder sob o lulopetismo. É o que sabemos agora. E isto ninguém mais vai esquecer.

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