Morrer por dinheiro

edmilson

Após o trágico acidente com o avião que transportava a equipe da Chapecoense além de jornalistas, dando uma proporção sem precedentes a essa tragédia, fiquei, como todos, acompanhando o desenrolar das investigações da provável causa da queda.
Em todos os acidentes aéreos, a expectativa é sempre a recuperação da famosa caixa preta para elucidação dos fatos.
Desta vez não, a situação foi tão bizarra que a causa se escancarou rapidamente. O piloto, também sócio da empresa, o que explica melhor o ocorrido, para evitar uma parada para abastecimento, arriscou tudo em um voo sem escala.

Existem jogadores que são contumazes em arriscar tudo em cassinos, loterias e diversos outros jogos de azar, mas esse arriscar tudo para eles é relativo ao dinheiro. No caso do personagem central dessa tragédia, por ganância, para ganhar um pouco mais, arriscou a própria vida. Tivesse sido somente a sua vida. Ainda vá lá. Um ganancioso inconsequente a menos neste mundo.

A questão é que, além da vida dele, esse mentecapto, sem dar a mínima chance de opção para outros 77 passageiros, decidiu por eles. Sim, sua moeda de troca por um punhado de dinheiro a mais foi a sua própria vida.

A que ponto chega o ser humano! Somos ditos racionais, pelo simples fato de nosso universo mental, permitir que existam pensamentos sobre outros pensamentos, e é nesse momento que nos colocamos acima dos chimpanzés e golfinhos.
A consciência humana é única no mundo animal, diz o neurocientista indiano Vilayanur Ramachandran.

Que consciência tinha esse infeliz? Imaginem seu diálogo mental consigo mesmo tentando negociar essa possibilidade insana de voar aquele trecho com combustível no limite. “Vou usar toda a minha experiência e fazer esta viagem sem reabastecer, e se Deus quiser nada vai acontecer”. Se Deus quiser? Teria ele consultado Deus sobre seu plano de voo? Teria Deus dito “Vai que Eu garanto”.

Essa questão me remete a outra situação que há tempos venho observando. Como nós, latinos, temos por questões culturais, a sensação da proteção divina nas nossas ações irresponsáveis. Fechamos os olhos e dizemos “Seja o que Deus quiser”. Essa transferência de responsabilidade, dando a Deus, sem consultá-lo, a decisão pelo resultado final, mostra o nível de nossa negligência.

E por que digo latinos? Porque me parece que europeus, americanos do norte e asiáticos, para ficar apenas nesses três exemplos, são educados dentro de um padrão de comportamento que não lhes permitem a negligência, ou melhor, lhes imputam tamanha responsabilidade por seus atos, em termos jurídicos, que eles crescem olhando para as leis com olhos mais temerários. Parece-me que para eles o certo é certo, e o errado é errado. Muitas vezes para nós, o certo é certo e o errado pode não ser tão errado assim se der pra “dar um jeito”. Somos mais benevolentes, mais condescendentes. Acolhemos o mal feito com certa paternalidade.

No caso em questão, o filho do outro sócio da companhia, tinha um cargo importante no governo o que facilitava, por tráfico de influência, a empresa operar, mesmo com diversos problemas. Não o bastante, o despachante do voo, mesmo alertado por uma funcionária face a grave situação do plano de voo do piloto que não previa reabastecimento, não deu importância e o liberou. Após o ocorrido a funcionária teve que pedir asilo no Brasil, pois estava sendo ameaçada por ter cumprido o seu trabalho. Fizeram dela um belo bode expiatório, como sempre.

Que as lições tiradas desse fatídico episódio, tragam as revisões devidas, para que novas tragédias possam ser evitadas, principalmente como as desse tipo, totalmente evitáveis. Em outras situações estaremos sempre rezando para que Deus nos ajude.

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