O cobrador

jessica

Já estava decidido, certo e correto. Em minha mente o plano estava escrito, desenhado e emoldurado. Eis que chegou o dia da ação. A pistola 9 milímetros da viúva do aposentado – uma velha coitada sem culpa de nada – estava em minhas mãos. E como eu ficava bem a segurando. Eu precisava abrir a porta do meu apartamento e seguir. A carta e meu amor por Ana ficariam aqui. O nosso manifesto. Desço as escadas e vou. Sei que o vizinho ao lado está a me escutar. Não me importo.

“A rua cheia de gente. Digo, dentro da minha cabeça, e às vezes para fora, está todo mundo me devendo! Estão me devendo comida, buceta, cobertor, sapato, casa, automóvel, relógio, dentes, estão me devendo.”

Todos estão me devendo. Principalmente as vadias. Essa que me faz caminhar servirá de exemplo. Irei inspirar outros homens e mulheres. Esses que merecem meu amor e meu respeito. Meu desdém, minha cólera e meu chumbo aos errados. Começarei pela vadia mãe do meu filho, o meu amor.

“Não foi nem Deus nem o Diabo/ Que me fez um vingador/ Fui eu mesmo/ Eu sou o Homem Pênis/ Eu sou o Cobrador.”

Vou caminhando, pois hoje é dia de festa e o clima é bom. Harmonioso. Parece que para me acalmar todos passam sorrindo. Já estou calmo. Na retribuição já ganhamos felicitações e bons convites para entrar o ano bem. E acredito. E retribuo. Todos teremos o que merecemos. Até os que não são de bem. Começarei pela vadia mãe do meu filho. O meu amor não tem culpa de nada. Nem Ana. Coitada.

“Quando não se tem dinheiro/ é bom ter músculos/ e ódio.”

A caminhada dura duas horas. Chego certo. Estou em frente ao muro baixo. Como ela não pensou em se proteger? Meus motivos são os mais sublimes. Merecem honra. Talvez seja por isso que a polícia não deu a proteção que ela pediu. Enfim, por que pensar nisso? Já estou aqui, em frente ao muro branco, baixo. Escuto risadas altas. A velha mãe está lá, rindo feito uma porca. Escuto meu filho feliz, deve estar brincando com seus presentes de natal, meu anjinho Gabriel. Por alguns segundos imagino nossa vida sem a perturbação de agora. Ah, se ela não fosse essa vadia, não entrasse para essa corja mundana de mulheres que pensam dominar alguma coisa. Eu tentei, eu lembro. Eu cuidava bem dela. Mas ela virou o que se vira nesse mundo podre da defesa dos menores. É uma pena Ana ter me aparecido já tão tarde. Poderia ser com ela, mulher feliz, que vadia não é. Eu, meu filho e Ana.

“Ana me ajudou a ver. Sei que se todo fodido fizesse como eu o mundo seria melhor e mais justo.”

Mas é preciso fazer, agir. Subo com facilidade o muro. Todos me olham, estupefatos. Ela vem correndo em minha direção, questionando minha presença. E lá vai minha primeira bala. Sem dó. Levou a vadia que merecia todas as outras balas. Como exemplo às que não se ajustam: que se ajeitem logo! E mais dez chumbos se repetem. Sem piedade. Eles que procuraram. Que sorte seria passar o Réveillon em outra casa. Pena não há. E por último. Lá estava ele, em prantos, sem entender. A caminho de se tornar mais um traumatizado sozinho nesse mundo. Como eu. Ele estava alto demais para a sujeira. Então pedi desculpas e o matei. Meu filho, meu amor. E por fim, fui, pois aqui também não é meu lugar. Imundo, mundo!

“Leio para Ana o que escrevi, nosso manifesto de Natal, para os jornais. Nada de sair matando a esmo, sem objetivo definido. Eu não sabia o que queria, não buscava um resultado prático, meu ódio estava sendo desperdiçado. Eu estava certo nos meus impulsos, meu erro era não saber quem era o inimigo e por que era inimigo. Agora eu sei, Ana me ensinou. E o meu exemplo deve ser seguido por outros, muitos outros, só assim mudaremos o mundo. É a síntese do nosso manifesto.”

* * *
Esse conto poderia não ter explicação. Poderia ser a cópia infiel de O Cobrador de Rubem Fonseca. Mas não. Só é o retrato de uma ficção verdadeira. No dia 31/12/2016, Sidnei Ramis de Araújo, 49 anos, deixou uma carta, uma namorada e foi até a casa da ex-esposa em Campinas. A matou. Ela, familiares e o filho. Com um objetivo definido por uma doentia obsessão, por uma misoginia, por acreditar saber fazer justiça. A chamou vadia e matou. Ele, mais um machista entre tantos. Matou e continua a matar.

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