Música Erudita. Ed. 184 – O Código Rossini

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Na obra A History of Opera: The Last Four Hundred Years (Penguin, 2015), os pesquisadores Carolyn Abbate e Roger Parker afirmam que a história da ópera tem sido geralmente escrita como um progressivo processo de mutação de formas musicais, observando-se, porém, frequentes resgates e regressão a estilos e recursos antigos. A alternância padronizada entre recitativo (com diálogo e ação cênica) e uma ária de um só movimento (com monólogo e reflexão) no início do século XVIII, discutida no tópico. Um banho de seriedade na ópera barroca, já enfrentava resistência nas últimas décadas do mesmo século.

Na época de Rossini, nasceu o chamado “movimento múltiplo” como unidade formal da ópera. Essa unidade era mais previsível nas óperas italianas, mas também passou a representar a espinha dorsal de obras em francês. Tratava-se de um número contendo momentos estáticos e movimentados. Nas primeiras décadas do século XIX, com mais ênfase na ópera-cômica, o recitativo ou diálogo falado com acompanhamento contínuo alternava com esses números; mas o recitativo foi ganhando, pouco a pouco, um acompanhamento orquestral, e assim foi estilisticamente absorvido nas seções movimentadas dos números operísticos. Jean e Brigitte Massin (Histoire de la Musique Occidentale, 1983) chegam a considerar que, em certos domínios, Rossini foi mais longe do que Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), morto alguns anos antes que ele nascesse: em Elisabetta, regina d’Inghilterra, foi o primeiro a renunciar totalmente ao recitativo secco, sem por isso valer-se do recurso ao estilo francês ou alemão, ao diálogo falado.

O sucesso de Rossini no domínio do emergente repertório da década de 1820 tem a ver com uma matriz de padrões formais recorrentes de composição que nasceu em suas mãos, que iria influenciar as várias décadas seguintes na Itália. Era o que Abbate e Parker chamam de código rossiniano. Tal código evitava aventuras frustrantes e agradava bastante às plateias. A ária solista, principal elemento, era composta tipicamente por um recitativo introdutório seguido por três movimentos, exemplificados no vídeo da ária “Quant’è grato all’alma mia” de Elisabetta, regina d’Inghilterra, de Rossini: (a) um movimento lírico, em geral de andamento lento e com frequência chamado de cantabile; (b) uma passagem movimentada de ligação, estimulada por algum acontecimento em cena e chamada de tempo di mezzo; e (c) uma cabaletta de conclusão, geralmente mais rápida do que o primeiro movimento e exigindo agilidade por parte do cantor.

Os grandes duetos e os longos números executados por conjuntos tinham o mesmo formato, mas com um movimento de abertura antes do cantabile, quase sempre com diálogos entre seus personagens. Esse esquema, porém, não era seguido de forma rígida. As soluções operísticas de Rossini muitas vezes eram diferentes desse modelo, em especial nos conjuntos de suas óperas italianas mais tardias. Às vezes, como no segundo ato de Semiramide, ele utilizava uma técnica que adicionava uma sequência de movimentos num só número, respondendo melhor às peculiaridades da situação dramática.

O papel inovador de Giovacchino Antonio Rossini (1792-1868) na história da ópera passa necessariamente pelo emprego dos recursos convencionais de composição que ele compartilhou com seus contemporâneos e deixou como legado a seus seguidores.

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