O exibidor Henrique Oliva

jensen 0 abre

Um dos pioneiros da cinematografia em Curitiba, Henrique Bracco Oliva, curitibano nascido em 05 de julho de 1899, era louco por circo e era o palhaço “Pé de pinhão”, devido a um defeito que o fazia mancar, nos picadeiros que montava no quintal da casa, ainda menino, fascinado com os circos que passavam pela cidade. A mãe o queria professor, mas começou no teatro, nos anos 10, como carpinteiro, o que arma a cena, monta os painéis. Observou que havia muita gente que projetava filmes nos bares, cafés e confeitarias, comédias curtas de 10 minutos. O Oliva achou que podia ter o seu cinema: alugou o salão da sociedade Duque de Caxias na rua Dr. Muricy com a José Loureiro e abriu o Paratodos. Surgiu a oportunidade de pegar o cine República, um barracão na rua Voluntários da Pátria, onde mais tarde surgiria o famoso cine Curitiba. Com dois cinemas começou a se consolidar, mas como eram salas modestas, não lhe davam bons filmes. Exibia antigos do tempo do cinema mudo, mal sonorizados com música, em plena era do sonoro. “Maciste no inferno”, produção italiana de 1926, estrelada por Bartolomeu Pagano, um gigante estivador do porto de Gênova tornado ator e que estrelou muitos filmes da série Maciste, projetando imagem de força invencível, ideal do futuro “Duce”, com cenas de violência e dezenas de figurantes nús, que impressionavam as plateias. Também o “Filho do Sheik”, 1926, estrelado pelo lendário Rudolph Valentino, entre outros.

Penava na manutenção do seu negócio com estes filmes antigos, quando houve uma briga do Mattos Azeredo, arrendatário dos cines Avenida, Odeon e Imperial, antigo Ritz, com a Fox. Esta ficou sem exibidor em Curitiba com filmes para lançamento eminente. Ofereceram ao Oliva “O capitão aventureiro” (El capitán aventurero) produção mexicana de 1938, estrelado pelo cantor e galã José Mogica, em plena evidência, que mais tarde tornou-se o famoso frei, tendo participado da inauguração da Tv no Brasil. Em seguida outro sucesso, “Anjo de piedade”(White angel), de 1936, com Kay Francis, Ian Hunter, direção de Willian Dieterle, história verdadeira da enfermeira Florence Nightingale, heroína da primeira guerra. Perdeu a Fox depois de uns cinco filmes, mas garantiu a posse do cine-teatro Palácio, que o manteve em contato com cantores e companhias teatrais. Tinha em seu escritório uma gigantesca ampliação da foto de Kay Francis, homenagem à atriz cujo filme permitiu alcançar marca como exibidor e colocar os negócios em ordem. Depois alugou o cine Broadway da família Hauer. Aí já exibia, além da Fox, a United Artists, e depois a RKO. Com o cine Luz em andamento, não houve interesse em manter o República.

Edifício onde residia e tinha os escritórios

Edifício onde residia e tinha os escritórios


Theófilo Vidal, representante comercial de vários produtos, tinha o terreno na praça Zacarias esquina com a Dr Muricy, construiu o prédio do cinema e o arrendou ao Oliva. Inaugurado em dezembro de 1939, o Luz tornou-se um sucesso, com quase 2000 lugares, e três plateias: a de baixo, uma intermediária, e a de cima, chamada geral, com preço menor. Cinema muito rentável, deslanchando a empresa exibidora H Oliva. Em seguida assinava com a Columbia um pacote com a “produção 1946”, em um prédio na rua Carlos de Carvalho, por ele construído, onde instalou seus escritórios e a residência. Como adorava circo, chegou a empresar os “Irmãos Queirolo” em longas temporadas. Na década de 50, comprou um terreno da família Abagge e iniciou a construção de um cinema seu, o cine Lido, com projeto do arquiteto Eduardo Thá, na rua Ermelino de Leão, enorme, com 1400 lugares. Em dado momento faltou dinheiro para terminar a construção, e ele tinha pavor a bancos, pagava tudo em dinheiro. Sua esposa, dona Marianinha, vasculhou uns livros da biblioteca da casa, veio com alguns deles, foi folheando, e entre as páginas haviam notas de dinheiro. Durante anos, tudo que sobrava na manutenção da residência, ela enfiava nos livros, na expectativa de que um dia iriam precisar. Podia depositar em um banco, rendendo, mas os tempos e a mentalidade eram outros. Com esse dinheiro o cinema foi terminado e inaugurado em 16 de setembro de 1959 com cerimônia, como era comum na época. O filme escolhido foi “Guerra e paz” (War and Peace), direção de King Vidor, com Audrey Hepburn, Henry Fonda e grande elenco, produção de 1956, baseada na obra de Leon Tolstoi.

Além de não negociar com bancos, detestava ficar devendo, inclusive pagava seus empregados adiantado. Noutra ocasião, comprou grande quantidade de material para as lanternas dos projetores (as barras de carvão), e acertou com o fornecedor em vinte parcelas, pois não tinha toda a quantia. Pagava a primeira e a vigésima parcelas e assim por diante, para se livrar da dívida mais cedo. Negociador duro e honesto, não se curvava às poderosas distribuidoras americanas, exibindo também filmes mexicanos, italianos, ingleses, franceses e brasileiros. Vicente Celestino era seu amigo pessoal, se apresentou diversas vezes no palco do Palácio, que também exibiu por semanas “O ébrio”, produção Cinédia de 1946, direção de Gilda Abreu, com o próprio Vicente Celestino, Rodolfo Arena e Alice Archembeau, grande sucesso. Mas quando via um seu cinema com platéia reduzida dizia: “Tem pouca gente, mas gente que gosta”.

Cine Lido, em 1986 foi dividido pela americana Cinema International Corporation em duas salas, bar e pequena galeria de lojas, hoje à venda

Cine Lido, em 1986 foi dividido pela americana Cinema International Corporation em duas salas, bar e pequena galeria de lojas, hoje à venda


Em 1961, recebeu um duro golpe com o incêndio do cine Luz, que o destruiu completamente, (não tinha seguro), mas católico fervoroso, declarou aos chegados, em uma expressão humilde: Deus um dia me deu, e hoje tomou. Diversas vezes o David Carneiro, (cine Ópera) e o Mehry, (cine Avenida), quiseram dar os cinemas ao Oliva para que tudo ficasse em “casa”, com gente daqui. Ele alegou não ter dinheiro para a transação. O David Carneiro retrucou que que já haviam falado com um banco e que emprestariam o dinheiro, que seria pago com a renda dos cinemas. O Oliva não aceitou, e o Mehry negociou com a Sul, do empresário paulista Paulo Sá Pinto, abrindo diversos outros cinemas em Curitiba.

Henrique Oliva faleceu em 1965, seu filho Homero tocou a empresa até 1973, quando se afastou do ramo cinematográfico, antes ainda inaugurando em 1969 o pequeno cine Scala, na rua Riachuelo.

Leia mais

Deixe uma resposta