O mais belo texto do mundo

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No final dos anos noventa, um conceituado crítico e ensaísta francês, Jean-Pierre Thibaudat, tinha oportunidade de publicar no hebdomadário francês “Liberation”, um interessantíssimo artigo. Qual o título? “Le plus beau texte du monde”. Dele me apropriei, aliás, devidamente traduzido para o vernáculo, para intitular o escrito fluente.
A que texto – e autor – estaria se referindo o escritor francês? Seria porventura um poema de Homero ou Virgílio, Tasso ou Dante, Milton ou Skakespeare, Gil Vicente ou Camões, Goethe ou Maeterlinck, Mallarmé ou Rimbaud, Baudelaire ou John Donne, T. S. Eliot ou W. B. Yeats, Rilke ou Menkiewicz, Lorca ou Neruda, Walt Whitman ou Ezra Pound, Ungaretti ou Montale, Paul Valéry ou Saint-John Perse? Ou seria antes um fragmento, mais ou menos longo – romanesco ou dramatúrgico –, de Cervantes ou Bocaccio, Racine ou Moliere, Tolstoi ou Dostoiewski, Balzac ou Flaubert, Dickens ou Sterne, Zola ou Stendhal, Pirandello ou Ibsen, Proust ou Joyce, Roger Martin du Gard ou Thomas Mann, Romain Rolland ou Herman Hesse, Malraux ou Morávia, Faulkner ou Steinbeck, Hemingway ou Dos Passos, Wasserman ou Hermann Broch, Pasternak ou Soljenitsin, Camus ou Beckett?

O crítico e ensaísta francês, Jean-Pierre Thibaudat

O crítico e ensaísta francês, Jean-Pierre Thibaudat


Não. Thibaudat não se referia a nenhum desses nomes arquetípicos da literatura universal de todos os tempos. Visava um autor do condomínio linguístico luso-brasileiro, cultor exímio da “última flor do Lácio, culta e bela”, se me for permitido corrigir o verso de Olavo Bilac. A textualidade cantante do escrito indigitado por Thibaudat começava com estes versos tão singelamente simples:

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim
todos os sonhos do mundo.

Esse o introito inaugural de um poema longo, extremamente longo, com mais de quatro centenas de versos (alguns deles, quilométricos), belo, profundamente belo. Um poema tenso, denso, intenso, fruto da pena de um mago, de um prestidigitador do verbo essencial. Um poema modernista por excelência, situado, quiçá, no patamar mais alto, no ápice do Modernismo, onde não há rima nem métrica, mas pontifica algo incomparavelmente mais importante, que é o ritmo. No caso, ritmos, sejam eles do “scherzo” ou do minueto mozartianos, sejam da sinfonia ou do concerto beetovenianos. O título do poema? “Tabacaria”. O nome do autor? Fernando António Nogueira Pessoa. Ou melhor, Fernando Pessoa, como ele se assinou a vida inteira (1888-1935). Era “alfacinha”. Vale dizer: lisboeta.

Na opinião da grande Crítica, nas duas margens desse “mare nostrum” luso-brasileiro que é o Atlântico, ele é o maior poeta da língua, depois del-Rei Camões. Ambos, o clássico e o moderno, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, integrantes daquilo que, há três ou quatro décadas, eu tive a ousadia de considerar como “a santíssima trindade poética” da Língua Portuguesa. Orgulho-me de tê-la cometido.

Fernando Pessoa? Seria melhor dizer – Fernando Pessoas. Pois ele foi sobretudo ou poeta multímodo, pluriforme, plural. Dividiu-se, subdividiu-se, fragmentou-se, cindiu-se em inúmeros heterônimos. Alguns dos quais desconhecidos do grande público leitor. A começar pelo que foi inventado na província da infância, o Chevalier de Pas. E em cujo elenco se destaca um triunvirato de ouro: Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Alberto Caeiro. Todos criados por “ele mesmo”, o demiurgo singular. Aliás, a “Tabacaria” é um produto por excelência da “fábrica” alvarocampina.

Mas o que vem a ser, de fato, os heterônimos? Mais do que meros pseudônimos, como à primeira vista parecem ser, são algo mais: são outros eus, desdobramentos claros de personalidade, manifestações nítidas de uma alteridade premeditadamente buscada e estrategicamente assumida.

Eis-nos, pois, em presença de seres – indivíduos, pessoas, poetas – com características físicas e psicológicas bem definidas, com culturas e temperamentos distintos, com cosmovisões e filosofias de vida peculiares. Para os quais o criador chega ao extremo de inventar biografias autônomas. Com data de nascimento e morte.

Acima de tudo, os heterônimos exercitam estilos próprios inconfundíveis. E nós não podemos esquecer que, como ensina Buffon na sua lição definitiva, “le style c’est l’homme”.

A rigor, os heterônimos – outros nomes – parecem personagens de uma peça teatral, “dramatis personae” participantes daquele “drama em gente” a que se refere, na sua monumental biografia pessoana, João Gaspar Simões, um dos cardeais do ensaísmo crítico luso, no século vinte. Com quem não tenho qualquer parentesco, é claro.
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Insisto: é no aspecto estilístico que os heterônimos se projetam, com ímpeto, com força avassaladora, na infinita solidão branca das incontáveis páginas silenciosas que consubstanciam a “opera omnia” ferdinandina. Esta, na sua estrutura orgânica, lembra uma Ilíada espiritual ou uma Odisseia psicológica, e constitui um autêntico banquete estético para “gourmets” do espírito em disponibilidade.

Aqui, abrindo parênteses, lembro que outros poemas pessoanos chegam a tangenciar o círculo da grandeza estética da “Tabacaria”. É o caso de “Hora absurda”, “Chuva oblíqua”, “Episódios”, “Passos da Cruz”, “Ficções do interlúdio” ou “O menino de sua mãe”, da lavra de Pessoa “ele mesmo”; ou da “Ode marítima”, da “Ode triunfal”, da “Saudação a Walt Withman” e de “O marinheiro”, drama estático, que a rigor não passa de um extraordinário poema em prosa. Todos integrantes da seara “alvarocampina”. E sem esquecer (já ia esquecendo) o fundamental “O guardador de rebanhos”, de Caeiro.

“Não sou nada./Nunca serei nada./Não posso querer ser nada.” É bom ter em mente que a mão que escreveu esses versos (em 1933, no nº 39 da famosa revista “Presença”, patrona do Modernismo em Portugal) é a mesma que tinha escrito antes estas palavras emblemáticas, profundamente reveladoras:

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa: “Navegar é preciso, viver não é preciso”. Quero para mim o espírito dessa frase, para a casar com o que sou: viver não é necessário, o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida. Nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a minha alma a lenha desse fogo.

Como se verifica, há uma grande distância entre a humildade quase franciscana dos versos iniciais da “Tabacaria”, e a aparente – só aparente – megalomania sibilinamente expressa no texto subsequente. Temos aí duas posturas polares, que embora antagônicas, se complementam, numa estreita simbiose psíquica. Sobretudo, por detrás dos dois posicionamentos, se vislumbra aquele fingimento típico que é uma das marcas registradas da “poiesis” do “insincero verídico”, como lhe chamou outro grande crítico luso, Adolfo Casais Monteiro. (Simões e Monteiro, ao lado da brasileira Cleonice Berardinelli, são certamente os maiores e melhores exegetas da Obra fernandina).
Não é por acaso, portanto, que Pessoa escreve, na abertura da sua sempre citada “Autopsicografia”:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente,
que chega a fingir que é dor
a dor que deveras sente.

Penso que chegou a hora, “hic et nunc”, de corroborar a tese nuclear de Jean-Pierre Thibaudat, que eu prefiro transcrever no original: “Aujourd’hui, ici et maintenat, il faut admettre: “Tabacaria”, de Fernando Pessoa, c’est le plus beau texte du munde”. Com outras palavras, é claro. Como estas: na sua integralidade, formal e conteudística, na sua plenitude significante, o poema excelso traduz e consubstancia um autêntico festival pirotécnico onde os fogos de artifício são metáforas feéricas, prenhes de estesia. Ele certamente ilumina o espírito e enriquece o intelecto do leitor eventual. Deslumbra e faz pensar.

Concluindo: vamos ler a “Tabacaria”. Lê-la e, quiçá, relê-la e trelê-la. Penso que a sua leitura, mesmo para os não iniciados em quem ainda não morreu a estesia – o sentimento do belo –, será uma espécie de exercício espiritual quase agostiniano. Sim, vale a pena a leitura. Afinal, foi o próprio Pessoa que, num dos poemas da “Mensagem” – “Mar Português” – assim cantou:

Tudo vale a pena
se a alma não é pequena.

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