OFICINA DE MÚSICA DE CURITIBA

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De 07 a 29 de janeiro, silêncio na cidade

Desde 1983 Curitiba amanheceu dentro de um novo ano com a festa da Oficina de Música, um evento internacional que colocou a cidade num calendário importante e respeitado. Nas férias de verão, enquanto outras capitais longe das praias e destinos turísticos se esvaziavam, nossa cidade tratava de receber os artistas e alunos que sustentavam não só a consolidação cultural e artística como também bares, restaurantes, hotéis e comércio da capital. Para 2017 estavam inscritos 1.143 alunos para participar da Oficina, 113 deles estrangeiros. Mais de 100 professores de todo o Brasil e de onze países (Japão, Israel, Suíça, Alemanha, Itália e outros) entre instrumentistas, maestros, cantores, arranjadores e palestrantes estavam contratados para ministrar aulas.

Ok, a Oficina nunca foi um evento de alta repercussão econômica e nem de abrangência global para a cidade. É um nicho, um segmento, uma fatia de um enorme bolo composto por muitos ingredientes. Mais, sempre foi uma vitrine para os investimentos, ainda que mínimos, que a prefeitura fez ao longo do ano anterior em seus grupos artísticos. E ainda, um carimbo de comprometimento com a música, a boa música, e sua divulgação.

FRAGILIDADE

Quando um evento completa 34 anos de atividades é difícil acreditar que ele não tenha força suficiente para dobrar esquinas de crise, falta de estrutura ou qualquer outra ordem negativa. Durante este período, nem sempre foi fácil, nem sempre os investimentos foram o que os organizadores precisavam, mas mesmo assim driblaram dificuldades e hastearam a bandeira de que aqui o compromisso se cumpre, apesar de tudo. Talvez caiba descontextualizar José Pedro Teixeira Fernandes: “valores não podem nunca ser dados como adquiridos”.

O cancelamento, que ganhou nome de adiamento, mancha a nossa história e gera uma instabilidade na crença de quem conhece, participa, divulga, propaga o evento. E também deixa profissionais com a cara no chão, depois de contatos, contratos e acertos feitos. São muitos os músicos daqui e de fora que acabaram recusando outros trabalhos para se dedicar ao ofício, que é de ensinar e aprender, de trocar experiências e enriquecer o próprio currículo e a arte como um todo – os encontros que aconteceram em todas as edições deixaram marcas insubstituíveis em todo mundo que participou, um legado transformador.

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PÚBLICO

Nessa conta há também o público, o distinto e comum público, como eu, que aproveita de valores interessantes para ver grandes espetáculos. É praticamente uma maratona que faz curitibanos mapearem a cidade e se deslocarem de um lado para outro durante quase todo o mês para dar conta da agenda. E é assim também que lugares novos, bares, teatros e espaços culturais, acabam sendo apresentados e entrando no cardápio das pessoas ao longo do ano.

O erudito sem pompa nem circunstância, o melhor da MPB, um circuito que apresenta músicos novos, estilos diferentes, vanguarda de produções a um público que ficou na cidade, muitas vezes, para se valer da oportunidade de ter acesso a tudo isso – este é, também, o papel da Oficina.

CIRCUITO OFF

Paralela à agenda oficial da Fundação Cultural de Curitiba, ainda há um outro caminho de movimento. Normalmente os músicos que vêm até aqui para ministrar aulas combinam pequenos shows, gigs, encontros com outros músicos num calendário cheio de improvisos e grandes momentos. São músicos internacionais que na maioria das vezes se apresentam em grandes palcos e durante esse período podem ser vistos em apresentações extraordinárias bem ao alcance dos olhos.
O Circuito Off acontece em bares, cafés e restaurantes que se responsabilizam por cachês, som, luz, divulgação, transporte e tudo que precise para promover a noite. E aí é movida outra economia da cidade. Poderiam estar com as portas fechadas, por conta das férias e das praias, mas estão com as casas abarrotadas de gente a presenciar momentos únicos.

DISCU$$ÃO

Em dezembro, quando as primeiras horas de Rafael Greca como prefeito começavam a ganhar tinta, ele afirmou “Eu não posso contrapor a saúde à música. Enquanto houver dor em espaço público não atendida, não pode haver música.” A declaração veio depois da Secretaria Municipal de Finanças confirmar o repasse de recursos para a pré-produção. Da ordem da administração de Gustavo Fruet saíram 420 mil reais – que estavam previstos na Lei Orçamentária Anual de 2017 –, destinados às despesas que antecedem o evento como passagens, hospedagens, equipamentos, transporte. O custo total seria de R$ 1,3 milhão (bem menor do que a edição anterior). Para fechar a conta e chegar aos quase 900 mil reais restantes, a gestão de Fruet indicou venda de ingressos, inscrições de aulas, patrocínios privados e subsídio obtido através da Lei Rouanet. Com isso, é óbvio, que nem todos os recursos que seriam investidos na música de janeiro irão para a área de saúde, muitos deles só existem se existir Oficina. Na página da prefeitura, Fruet afirma que o dinheiro gasto na Oficina sustentaria apenas seis horas da saúde curitibana; Greca rebateu com “temos que escolher entre a dor do povo e o prazer de fazer música”.

NOVA DATA

A informação é que a edição de 2017 foi transferida para o segundo semestre, ainda sem datas fixas nem curadoria artística, sem crença nem alunos, sem público nem professores. Também circula a informação da possibilidade de fatiar a Oficina ao longo do ano. Um calendário que ocupe a mesma verba para dar importância ao evento de forma compartimentada.

Os professores convidados e alunos inscritos foram comunicados sobre o cancelamento no mês de dezembro. O valor de inscrição para os cursos, 100,00 por modalidade, foram ou serão devolvidos via Pag Seguro, mas correm boatos de que a conta ainda vai sair mais cara para prefeitura, porque alguns artistas pensam em processo para ressarcir as perdas que tiveram por cancelar outros eventos de suas agendas; alunos de fora também querem cobrar o que haviam investido em passagens e reservas em hotéis.

Aceitando ou não as alegações do novo prefeito, acreditando ou não nas afirmações do antigo, a verdade é que o fato provocou uma mancha num dos atrativos de Curitiba, que entre outras fantasias é/era tida como capital cultural, uma rasteira na imagem. Resta saber se deste cambapé, sacudiremos a poeira para darmos a volta por cima.

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