Receita Culinária: Polvo à Minha Moda

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Eis aqui a receita de João Manuel Simões à sua moda, que supera qualquer escola. O poeta português dá os ingredientes direitinho, mas não ensina o caminho. Resguarda o segredo e nos coloca em dúvida quanto a quantidades. Brinca conosco. Faz do apetite um ingrediente.E garante que para acompanhar não há vinho melhor que o vinho verde. Com vocês, o polvo de João Manuel Simões.

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O melhor prato que existe?
eu vos direi, em sigilo,
que só entre nós:
um risoto, um bom risoto,
ou melhor, um bom arroz,
modesto, simples e tranquilo.
(Falemos a meia voz.)
Não de frango ou bacalhau,
camarão, ou mexilhões.
(Nenhum deles, sei, é mau),
mas de polvo. Polvo? Certo?
À grega ou à provençal?
À portuguesa, à espanhola?
Direi melhor: à Simões;
Minha receita, afinal,
supera qualquer escola;
Mas respeito opiniões
contrárias. Sou democrata.
(Embora, em minha cachola,
seja um pouco aristocrata.)
Vejamos os componentes
da receita que proponho:
um quilo do dito cujo.
Se for demais, usem menos,
como de fato suponho.
Mas que o polvo, o bom polvinho,
seja escuro, bem curado,
devagar, devagarinho.
Quanto ao arroz, à vontade.
Deve haver no refogado,
em proporções bem singelas,
ervilhas e champignons,
cebolas e berinjelas,
cogumelos, azeitonas
(uma ou duas, mas não mais).
Sem esquecer o tomate,
meia colher de açafrão,
e muito azeite de oliva.
(Outro óleo, é heresia
típica de mau cristão.)
Esqueçam o abacate.
(Fica para a sobremesa:
é sempre ótimo remate.)
Meio cálice de vinho
(safra boa, com certeza).
Tinto ou branco? Tanto faz.
Mas seco. Que seja seco,
para não passar apuro,
nem mesmo tirar a paz.
O molusco cefalópode
deve estar sempre, sem falta,
no ponto. No ponto exato:
nem mole nem muito duro.
Para acompanhar o prato,
mas facultativamente,
uma dúzia de batatas.
Das pequenas. Bem coradas.
Não esqueçamos o vinho,
que é sempre sol liquefeito,
como dizia o bom Dante:
el sol che si fa vino.
De preferência, verdinho,
nado e criado além-mar.
Um Castelo do Infante?
Um Casal Mendes, Garcia?
Um bom Castelo do Monte?
Um Barão da Mouraria?
Ou um Maria da Fonte?
Esqueci o Barca Velha
mais o Casa da Calçada,
que custam quinhentos paus,
e que, lamentavelmente,
não são verdes, mas maduros.
(E eu digo, sem dar risada,
que eles até não são maus…)
E pronto. Vamos em frente.
Podem servir-se à vontade.
Como se diz (ou dizia)
na minha terra natal,
lá muito longe, além-mar,
na outra margem do Atlântico,
tenham todos bom proveito.
Que mais posso desejar,
meus bons amigos do peito,
ao fim deste pobre cântico?
Que comam, bem devagar,
e ao beber – bebam direito.

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João Manuel Simões

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