As mulheres do Café Alvorada

poesia

“Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?”

Fernando Pessoa – Poema em linha reta

As mulheres do Café Alvorada
ouviam muito, escutavam nada.
Transportavam um cemitério
na memória. Uma dizia:
“Ah! Morreu?… que pena…
ontem servi cafezinho pra ele…
Existiam, tranquilas, fugindo sempre,
pela porta em frente,
onde está o placard dos mortos.
Caminhantes verticalizadas,
prisioneiras inculpadas
no muro niquelado.
Corpos de dedicação
afeitas ao permanente gesto
de servir, percorriam…
horas pendulares, enfrentando homens
– meio busto estáticos.
Braços erguidos nas tipoias invisíveis
sustentando xicrinhas brancas.
Subindo-e-descendo descendo-e-subindo
balancins monótonos
dos relógios da floresta negra.
Louças alvas, recheadas
de tintura escura.
Viviam no silêncio do tempo,
aquarianas, derramando cerâmica,
aquecida e alva a alquimia da terra:
noite volúvel e adocicada, noite
irmã menor do grande silêncio.
Servidoras de trevas
as mulheres do Café Alvorada
distribuíam trevas à Cidade,
profissão estranha essa,
servir noite diluída.

II
Há um resto de luz
no amarelo ocíduo dos aventais,
cor do desamparo, da solidão –
das culpas ignoradas.
Todas sorriam, um riso amarelo
riso cansado grudado na face,
destinado a perdurar, na rotina
da totalidade dos dias indiferentes.
Elas sempre as mesmas
os homens mudando sempre.
Doutores com anel, doutores sem anel
cabeludos, sem cabelo, paletó
sem paletó, gravata, não gravata
lentos, apressados, ricos
vazios de tudo, pobres repletos de riqueza
“Com açúcar, sem açúcar”.
Governantes e governados, vencedores,
Vencidos, possuídos da verdade
eterna dos fracos, preocupados
com a ilusão temporária dos fortes.
Multidão consubstanciada, mosaicos
originalmente arquitetos
com elementos banais. Experimentadores
do acaso na roleta da procriação.
Condenados a solidão de cada um.
Solitários e eufóricos, solitários tristes.
Interconhecidos de vista.
Quantos? Um… dois… três…
a sinfonia dos pitis distribuídos
açucareiros entupidos.

III
Dotô… será que o siô… esse
remédio… nha mãe… pressão alta
velha setenta. Linguagem misteriosa
espaçada entre uma xicrinha e outra,
é um argot brasileiro, código secreto
língua verde, quase um canto,
linguajar dos humildes e soando
na mesma cadência das baladas
de François Villon, sempre eloquentes
mesmo murmuradas. É na boca
que a alma se instala.
O bule acaba, consulta demora mais…
“não esqueça meu remédio”
fala a maquinista. A da caixa
entre uma ficha e o troco:
“meu vizinho tem coceira”
tem sorte, na fila está o mecenas
do laboratório, o propagandista
abre a pasta, medicina pelo guichet.
Outra… não foi entendido.
Mas… há aquela que não diz nada.
Nunca disse nada e tem perfil de asteca.
Calada como um abandono.
E, um dia mostra algo
assim, como um sorriso
tem ternura e meiguice, dizendo
“será que o siô colabora
na nossa caixinha de Natal?”

IV
Falta-nos uma mensagem
sublimada na tela de um pintor
o quadro ausente da galeria.
Rembrandt pintou a “Aula de Anatomia”
Renoir os “Guarda-chuvas”,
Velázquez as “Fiandeiras”,
Brueghel a “Boda dos Camponeses”,
falta na coleção: o quadro da Cidade
“As mulheres do Café Alvorada”.

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