Cinema de arte Riviera

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Funcionou por aproximadamente sete anos, de 63/64 a meados de 1970. Porém foi um marco para os cinéfilos de Curitiba, pois vimos filmes japoneses, suecos, tchecos, e até russos, em plena censura da ditadura militar. Além da sua programação diária e em horários normais, aos sábados à tarde, o cinema reunia alguns grupos de cineclubistas. Havia as sessões do cineclube Walt Disney, do grupo Amigos do Cinema, e da Central Católica de Cinema Sul 2, entidades que se revezavam na procura por cópias de grandes clássicos e bons filmes sem interesse para exibição nos cinemas comerciais.

jensen-scarfaceAntes da sessão, eram distribuídos boletins informativos sobre os filmes e seus diretores, uma análise da obra, escritos pelo Aramis Millarch, Lélio Sotomaior, Estevão von Harbach, entre outros. Nestas sessões eram exibidas as mais variadas tendências e raridades. “Scarface a vergonha de uma nação” (Scarface the shame of a nation) produção de 1932, dirigida por Howard Hawks, estrelada por Paul Muni, George Raft, um clássico inconteste de filmes de gângster. “Oito e meio” (Otto e mezo) de Fellini, 1963, com Marcelo Mastroianni e Claudia Cardinale. “O homem do prego” (The pawnbroker) com Rod Steiger, Geraldine Fitzgerald, direção de Sidney Lumet, produção de 1965. Diretores como Elia Kazan, Vicente Minelli, Alfred Hitchcock e tantos outros.

jensen-pqna lojaDepois das sessões, animadas conversas e debates. Tudo por pura diversão e interesse por cinema, pois não havia nenhum incentivo do poder público, muito pelo contrário. Diversas vezes estive na cabine com o Estevão operando os projetores. Vale lembrar que ainda não tínhamos o videocassete, e era a única forma de vermos filmes de interesse do grupo. Como membros do cineclube tínhamos que correr as distribuidoras, marcar a data para o filme, buscá-lo, e depois devolver na data marcada, torcendo para que a renda e ou mensalidade dos sócios cobrisse o gasto com o cinema, talvez com uma pequena folga para o caixa, e o próximo filme.

O Riviera começou com o cine Santa Maria, aberto em 1954, no antigo colégio dos Irmãos Maristas, ao lado do Teatro Guaíra, onde passavam os mais variados filmes e em alguns promoviam o que chamavam de cinefórum com debates em que participavam os alunos e Luiz Geraldo Mazza, René Dotti, Francisco Cunha Pereira, Dico Kremer, entre outros. Dentre estes alunos estava o José Augusto Iwersen, nascido em 1946. Já era um apaixonado por cinema nas matinadas do cine Ópera ainda criança. Mas estas sessões o tornaram um cinéfilo e mais atento. Ao findar o científico na época, já dirigia um cineclube em 62, o Pró-arte, e achou que poderia administrar um cinema aberto ao público, arrendando a sala de aproximadamente 300 lugares dos Maristas. Para isso, teve que abrir um acesso independente do colégio, pela Rua Marechal Deodoro, quase esquina com a Tibagi, por onde se subia por uma rangente, íngreme e larga escada de madeira que dava acesso ao cinema no piso superior.  Instalou nova tela, trocou as poltronas por estofadas e instalou os banheiros. Surgia o Riviera.

Dentre os marcos da programação regular do cinema, como os filmes da nouvelle-vague francesa (Godard, Resnais), o Iwersen fez um contrato com a distribuidora Mario Civelli de São Paulo que tinha em seu catálogo filmes tchecos, que jamais passariam aqui. Eram filmes já famosos, realizados quando o país comunista experimentou uma liberalização da rigidez soviética, conhecida como “Primavera de Praga”, até que os tanques de Brejnev o invadiram para “restaurar a ordem”. Um dos grandes realizadores que fugiram foi o grande diretor Milos Forman, que realizou, em 1975, “Um estranho no ninho” (One flew over the cuckoos’s next) com Jack Nicholson, Louise Fletcher. Ou “Amadeus” (Amadeus) com F. Murray Abraham, Tom Hulse, de 1984, vencedor de oito Oscars.

Filmes marcantes desta leva, exibidos com sucesso no Riviera, foram: “Um dia um gato” (Az prjide kokour), direção de Vojtech Jazny, 1963, tornou-se cult, uma fábula para adultos envolvendo um gato com poderes mágicos; “A pequena loja da rua principal” (Obchod na korse) direção de Jan Kadar/Elmar Klos, 1965, drama onírico sobre  uma senhora judia que perde sua loja na ocupação nazista; “O anjo da morte” (Smrt si Rika engelchen), também direção de Jan Kadar/Elmar Klos, 1965, vigoroso drama da ação nazista na Tchecoslováquia e mulher que quer se vingar de torturador.

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Mas nem tudo eram alegrias. Dificuldades para conseguir filmes, alguns fracassos de público e a eminente transferência do Colégio Santa Maria para o bairro São Lourenço selaram o fechamento do cinema.

Depois disto, o Iwersen se dedicou a realizar filmes na bitola de então, o Superoito, e lançou algumas publicações, tendo inclusive morado em São Paulo. Retornou a Curitiba, falecendo em agosto de 2016, com muitos filmes na cabeça que ainda queria realizar.

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