Editorial. Ed. 185

Sem catastrofismo, mas com os pés bem plantados no chão. Vamos aos fatos. O comércio varejista brasileiro teve o pior ano da sua história em 2016. O setor bateu recordes de fechamento de lojas, de demissões e de queda nas vendas. Entre aberturas e fechamentos, 108,7 mil lojas formais encerraram as atividades no país no ano passado e 182 mil trabalhadores foram demitidos, descontadas as admissões do período, revela um estudo da Confederação Nacional do Comércio. O ano superou os resultados negativos de 2015 tanto na quantidade de lojas desativadas como em vagas fechadas. Em dois anos, o comércio encolheu em mais de 200 mil lojas e quase 360 mil empregos diretos.

Anuncia-se o caos. O número de pessoas vivendo na pobreza no Brasil aumentará entre 2,5 milhões e 3,6 milhões até o fim deste ano. Denominados de “novos pobres” porque estavam acima da linha da pobreza em 2015 e já caíram ou cairão abaixo dela neste ano. São na maioria adultos jovens, de áreas urbanas, com escolaridade média e que foram expulsos do mercado de trabalho formal pelo desemprego.

Tanto desalento e o povo procura velhas fórmulas, por mais esfarrapadas que estejam. Lula sobe nas pesquisas porque depois que Michel Temer sucedeu a Dilma Rousseff na presidência da República, a vida só melhorou para 7,2% dos brasileiros. Permaneceu tão ruim quanto antes para 64,6%. E piorou para 26,9%. É o que mostra a mais recente pesquisa de opinião do instituto Paraná Pesquisas.

Mas os antigos vícios, esses resistem. Na maior desfaçatez. A Petrobras divulga licitação milionária de propaganda na véspera de carnaval, dia 22. Agências vão levar R$ 2,5 bilhões da publicidade. Agora responda: por que a empresa que detém o monopólio estatal do petróleo, que permitiu ser assaltada pelo conluio de seus diretores, empreiteiros e políticos, tem que gastar toda essa grana em propaganda? Para melhorar a imagem depois dos escândalos de corrupção?

Há quem sustente que o crime compensa neste País dos Bruzundangas, criação do velho Lima Barreto, que morreu de lucidez. Pois, pois, o governo Temer pagou R$1 bi a empresas indiciadas na Lava Jato, membros do “clube de empreiteiras” que roubaram a Petrobras receberam do governo federal, em 2016, mais de R$ 1 bilhão. A Odebrecht, que foi uma das maiores beneficiadas pelo esquema de corrupção nos governos Lula e Dilma, continua embolsando a parte maior: faturou R$ 483,2 milhões ano passado. O restante foi dividido com empreiteiras tipo Queiroz Galvão, Mendes Júnior, UTC, Engevix.

Tudo bem, afinal este é o país dos contrastes, dos privilégios. Sabe o que é privilégio no Brasil? No Supremo são julgados políticos – deputados, senadores e ministros de Estado – que têm foro privilegiado. Pois bem, apenas 5,8% das decisões em inquéritos no STF foram desfavoráveis aos investigados – com a abertura da ação penal. O índice de condenação de réus é inferior a 1%. Com essa taxa de impunidade ninguém para de roubar. Só acredito vendo. Michel Temer jura que ministros que se tornarem réus na Operação Lava Jato serão afastados do cargo. Caso sejam apenas denunciados, desde que por meio de um conjunto de provas que possam ser acolhidas, eles serão afastados provisoriamente. Olha o jeitinho brasileiro.

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