Eu não posso salvar todas

jessica

Caminhei pela Marcha das Vadias de Curitiba por dois anos. Foram dois anos de muito aprendizado, acolhimento, conflito e dor. Aprendi muito com as mulheres que conheci, com suas dificuldades. Com elas consegui me deixar de lado um pouco, reconhecer meus privilégios e lutar por um espaço mais real e igual para todas. Lutamos todos os dias e aprendo em todos eles. Fui acolhida, aos poucos me encontrando em diferentes espaços e movimentos. Na rua, lugar que deve ser ocupado não só pela Marcha, andei de sutiã, coisa antes nunca imaginada. Nunca respeitada. Ao lado de centenas de mulheres, pela primeira vez, me senti segura. Essa é uma das sensações que a Marcha das Vadias trás: segurança. Conflito diário, pois o feminismo e suas batalhas não são felizes. Não é fácil dar com a cara na porta todos os dias. Em discussões onde ninguém quer escutar e se perceber. Perceber-nos. Em debates onde qualquer contradição vira deboche. “Por que vadias?” Eles perguntam. E quando começamos a responder nos calam. A militância cansa e deprime. Por isso a dor. A dor de se sentir impotente. De que a cada passo da liberdade, a opressão passa correndo, muitos passos à frente. O comportamento livre ofende. Causa repulsa ao “limpo”, ao branco, ao homem cidadão de bem. E por fim descobrimos: não podemos salvar todas. Foi com essa frase que minha amiga Jussara Cardoso andou na Marcha das Vadias de 2015. Eu não posso salvar todas. Nós não podemos, pois se contarmos os minutos do dia vamos nos deparar com inúmeras mortes, assédios e violências múltiplas. Para todos os lados e letras. Ficaremos surdas em meio a todos os gritos. E se não nos agarrarmos, juntas, permaneceremos numa escuridão que só nos leva à tristeza. A militância corrói a realidade. Entramos no cotidiano de pessoas já esquecidas, de mulheres e homens abandonados. E não temos força para levantar todos e todas. Eu sei, eu não posso salvar todas.

Este ano a Marcha não sai às ruas. Nosso ato tradicional não vai acontecer. Ela vai continuar existindo, de outras maneiras continuaremos saindo às ruas, desenvolvendo atos e debates. Procurando mais mulheres e pessoas que se importem e queiram salvar outras. O feminismo existe em diferentes olhares e movimentos. E por mais surpreendente que possa parecer, ele só cresce e ganha adeptas e adeptos. Feministas pipocam e incomodam cada vez mais. Apesar de todo pesar ele sempre é gratificante, mesmo quando alcançamos só uma pessoa. Sempre conseguimos uma. Há sempre um abrir de olhos no fundo do poço. O Brasil está perto desse fundo. E é por esses dias de glórias e para lembrar os inúmeros outros que batalhamos forte que o dia 8 de março deve continuar existindo e persistindo. O dia da Mulher é um dia de vitória que representa a luta. Constante, cansativa, mas sempre satisfatória. Inspirada na frase de Darcy Ribeiro, digo: Não posso salvar todas, mas odiaria estar no lugar de quem tenta me vencer.

Foto: Ke Sia

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