Janela quebrada

fabio

Confesso que ando exausto. Tão insuportável quanto óleo de rícino tornou-se a dose diária de denúncia de corrupção que recebemos goela abaixo. Vejam bem: acho muito bom que a Lava Jato tenha aberto as entranhas desta pátria mãe tão distraída, subtraída por tenebrosas transações. O desesperador é perceber que toda a República foi contaminada. Não sobra um, meu irmão. E nesse esgoto entrou a esquerda e todas as esperanças de batalhas por avanços sociais. Sobrou o caldo de cultura ideal para a direita troglodita que se apresenta para vingar os brasileiros, as vítimas do descalabro.

A que ponto chegamos. A Nação enfrenta a maior crise econômica, social, política e moral de todos os tempos. A violência está nas ruas e a criminalidade pode tomar conta de um estado inteiro, como aconteceu no Espírito Santo. Desde a carnificina no presídio de Manaus, seguida pela matança em Boa Vista, a violência entrou com destaque em nossas vidas. A criminalidade atinge índices insuportáveis. Vivemos situação que guarda alguma semelhança com a “teoria da janela quebrada” (Broken Windows Theory), que é o resultado de um estudo realizado por dois professores de Harvard – um cientista político e um psicólogo criminologista – mostrando que há relação de causalidade entre desordem e criminalidade.

A tese é a seguinte: se uma janela do apartamento de um prédio quebrar e não for consertada imediatamente, as pessoas são levadas a crer que aquele apartamento está abandonado, já que ninguém se importa com ele, e esse abandono incentiva depredações de outras janelas, mais atos de vandalismo e até invasão do prédio. As revelações sobre as falcatruas de nossos governantes e representantes acabam por estimular a criminalidade em todos os seus estágios. Até que ela se instale definitivamente. As janelas estão quebradas e não há sinal de que seja possível consertá-las em prazo curto. A confusão entre pequenos e grandes crimes acaba provocando uma perda de referência por onde se infiltra e se instala o vírus de amoralidade, essa anomia que destrói os nervos e que corrói a alma do país.

Achar graça em revelações de roubalheira é o primeiro vidro da janela quebrada. Desconhecer o que significa a promiscuidade entre público e privado, entre governo e partido, entre governo e Estado, entre Estado e partido, pode parecer uma minúcia, uma ridicularia, mas não é. Pelo menos em países sérios não é. O desprezo pela coisa pública é de tal monta que a ausência de remédios ou médicos em postos de saúde é tida como natural, que soterramentos em épocas chuvosas são tratados como acidentes imprevisíveis, que esperar anos a fio faz parte da dinâmica de uma Justiça que sempre tarda, que homicídios têm de frequentar o cotidiano dos brasileiros.

Se a janela está quebrada, o prédio está abandonado e tudo é permitido. Da janela quebrada ao pântano moral em que o País mergulhou, a distância é mínima. Princípios morais não têm peso, nem largura, nem altura, nem espessura. Ou existem ou não existem.

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