Longe dos holofotes, presente na luta

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Quem observa de longe, sem mesmo refletir sobre o que vê, encontra em Marisa Letícia uma eterna companheira de Lula, que se dedicou inteiramente à ascensão do marido na vida política. Quem encontra isso acerta, Marisa Letícia foi essa parceira de vida, pessoal e política, de Luís Inácio Lula da Silva. Mas não somente. Marisa também teve sua trajetória, longe dos holofotes, às vezes na rua, às vezes em casa. Ora sendo a Galega (como Lula a chamava), ora sendo primeira-dama. A Dona e a Marisa caminharam juntas até o fim, na firmeza dos seus propósitos e das suas crenças.

Marisa nasceu no dia 7 de abril de 1950, em São Bernardo do Campo, e viveu num sítio junto dos dez irmãos até seus cinco anos. Seus pais tiverem 15 filhos, três morreram no parto. Quando pequena, sua família mudou-se para o centro da cidade, na região do Grande ABC em São Paulo. De família humilde, aos nove anos Marisa começou a trabalhar como babá. Entre as crianças de quem cuidava, também foi responsável pelas sobrinhas de Candido Portinari.

Aos 13 anos, Marisa abandonou o trabalho como babá e, com autorização do pai, começou a trabalhar na fábrica de chocolates Dulcora, como embaladora de bombons. Na fábrica permaneceu por muitos anos, até seus 19, quando se casou pela primeira vez com o motorista de caminhão e taxista Marcos Cláudio dos Santos. Mudou seu nome para Marisa Letícia Casa dos Santos. Engravidou e, aos quatro meses de gestação, seu marido foi assassinado numa tentativa de assalto. Seu primeiro filho foi batizado com o nome do pai.

Em 1970, antes de conhecer Lula, Marisa já se envolvia com a política. Ajudou em uma campanha para vereança. Passou a frequentar o Sindicato dos Metalúrgicos em 1973 em busca de um carimbo da assistência social da instituição, pois tinha por objetivo receber uma pensão após o falecimento do marido. Quem a atendeu foi Lula, dificultando ainda mais a burocracia para Marisa. O também viúvo se apaixonou por ela, dizendo em algumas entrevistas que estava à espera de uma ‘viúva novinha’ para formar um novo par. Usou o tempo do carimbo para conquistá-la. Conseguiu, aos poucos e com certo poder de convencimento. Casaram depois de sete meses de namoro.

Nove meses depois do seu segundo casamento, nasceu seu segundo filho. Marisa se considerava a mais rebelde das irmãs. Queria mais e além do que sua educação bastante convencional e conservadora dizia que teria. Queria estudar e trabalhar. Pausou esse objetivo algumas vezes para se dedicar aos filhos e à família. Fez mais do que esperava. Passou a viver e compartilhar anseios e sonhos junto do novo marido. Em 1975, em plena Ditadura Militar, Lula tornou-se líder sindicalista no ABC Paulista. Marisa viveu junto dele esse momento intenso. Abriu as portas da sua casa para a resistência sindical, na ilegalidade a que a repressão militar os submetia.

Onde muitas pessoas recuariam, exigiriam o marido para si e para os filhos, Marisa foi longe e diferente. Participou. Dentro da sua casa viveu as discussões, os inícios e os embriões de mudanças que atingiriam todo o país. Não só acolheu como também moveu suas pernas e braços para isso. Em 1980 liderou a passeata das mulheres, filhos, filhas e mães em apoio aos sindicalistas presos e aos operários. Uma marcha cercada por policiais militares foi posta em pé. Num período em que erguer a voz era ofensa e dava cadeia e até mesmo tortura e morte. Quando Lula foi preso, Marisa cuidou dos filhos, da mãe de Lula, que estava com câncer, e ainda assim não desistiu ou tentou mudar os desejos do marido. Era agarrada à luta tanto quanto o futuro presidente do país.

Após a prisão de Lula, nada mudou. Junto do marido sonhou um partido que representasse os trabalhadores do país. Onde poderia estar exausta, sentindo-se depressiva ou derrotada, Marisa preferiu escolher um tecido e um desenho que representasse esse novo início. Confeccionou a primeira bandeira do Partido dos Trabalhadores. Fez mais de mil camisetas e pôs à venda para arrecadar fundos para o partido. Também foi à rua mais uma vez, levantar assinaturas para o nascimento da nova legenda. Junto de outras mulheres exigiu a maior participação feminina nas chapas dos sindicatos do ABC.

E assim continuaram. Com filhos, casa e campanhas, Marisa e Lula viveram os anos de 1982, 1986, 1994 e 1998, nos quais Lula se candidatou, intensamente. Levando e levantando a bandeira do PT. Chegou até a desacreditar na chegada de Lula à presidência. “Vamos parar com tudo isso, esses caras não vão deixar você chegar ao poder nunca. Eles não vão largar isso aqui jamais. Fazem qualquer coisa, mas não abandonam essa vida”. Em 2002, ano em que Lula venceu a eleição, Marisa, com os filhos já adultos, conseguiu se dedicar inteiramente à campanha do marido. No dia 1° de janeiro de 2003, o líder sindicalista e metalúrgico, nascido em Caetés, Pernambuco, tornou-se o trigésimo quinto presidente do Brasil.

Como primeira-dama, Marisa não participou ativamente de nenhum projeto social, característica das atividades de primeira-dama, junto das ações oficiais. Por isso, recebeu inúmeras críticas da oposição. Na campanha de 2006, teve pouca participação, acreditava que tudo se resolveria no primeiro turno. Como não aconteceu, Marisa passou a aparecer ativamente, levantando caminhadas por Brasília e Goiânia. marisa1

Uma trajetória longa e bastante próxima da realidade de inúmeras brasileiras. Longe de entrar no plano julgador: não há negação, estamos sim diante de uma história de luta. Marisa viu de perto o desejo odioso dos contrários a Lula e ao PT nos últimos anos. Em 2016, quando virou ré em duas ações da Operação Lava Jato, isso só ficou mais evidente. Muitos queriam a sua cabeça, a do marido e dos filhos. Passaram de todos os limites e não se importaram. Independentemente de doenças e da sua própria morte.

O mês de janeiro e início de fevereiro mostraram mais uma vez essa situação. Quando internada no Hospital Sírio Libanês após ter sofrido um AVC, manifestantes foram até a frente do hospital e, sem respeitar a dor da família, demonstraram a falência do ser humano, a descrença da melhora na educação e no crescimento do otimismo. Foram fundo no poço e mostraram o quão sombrios podem ser. E mais, como se já não fosse só e o fim, médicos passaram por cima da ética profissional. Limparam-na para dar lugar ao ódio, ao bizarro insustentável. Divulgaram em grupos virtuais o quadro de Marisa, fizeram disso piada. Aplaudindo a discórdia humana e os últimos dias de Marisa.

Em três de fevereiro sua morte foi confirmada. Já sem fluxo cerebral, a família deu ordens sobre a doação dos órgãos. Lula mais uma vez ficou viúvo, após 42 anos e oito meses de casados. Muitos continuam a se alegrar com o fim da vida. Causando desespero aos incrédulos. Marisa deu adeus a um Brasil que vive tempos não só difíceis, mas tempos fatigantes. Tentar acompanhar é exaustivo e deprimente. Todos os lados nos causam repulsa, é pouco o que dá esperança. Mas ainda esse pouco existe. É importante lembrar.

Marisa já fez parte desses poucos, não sei se só no começo da vida ou da luta. Isso o tempo irá dizer. Mas sua caminhada brilhou, como aquela estrela que um dia costurou. Sempre foi companheira, ao lado, não atrás. Participou e viveu, não só olhou de longe. Não foi mais uma, foi algumas, Marisa Letícia, Dona Marisa ou a Galega de Lula. Esteve presente!

Legenda foto principal:
Marisa Letícia na passeata das mulheres em 1980

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