Maureen Miranda, tudo ao mesmo tempo agora

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Tudo é indefinido e planejado. Tudo é surpresa e resultado de trabalho, muito trabalho. Tudo é intenso e bem vivido. Maureen Miranda é múltipla e isso todo mundo já sabe, o que as pessoas não conhecem, pelo menos as que ainda não tiveram a oportunidade de chegar perto, é que o caldeirão que ferve personagens e desenhos é também delicado e tranquilo, tem doçura na voz e no olhar. Ela se liga em mil coisas ao mesmo tempo e faz isso com competência em todas. O segredo para tratar de tudo é a organização. Acompanhe: ela é atriz, figurinista, artista plástica, estampa roupas, sapatos e porcelanas, escreve, cuida da avó, dos pais, dos amigos e vez ou outra se envolve com um novo projeto.

Maureen puxou fôlego para encarar 2017, que é recheado de trabalho e diversão, porque as duas coisas caminham de mãos dadas. Em entrevista para Ideias ela contou sobre o que vem pela frente, o que já está e o que passou.

Quando você começou a trabalhar na Globo?

Em 2015. Antes eu tinha feito algumas participações, mas só quando eu meti a cara, aluguei um quartinho e arrisquei tempo e grana em ficar 15 dias lá e 15 dias aqui, é que me chamaram. Antes disso, em 2012, eu fui fazer uma peça e de tempos em tempos eu era chamada para uma participação. Mas o Rio era um pouco estressante para mim, eu sempre voltava. Em 2015 eu me apaixonei pela cidade e resolvi ficar.

Como foi a sua entrada na Globo?

A Globo é uma empresa gigantesca. Uma imensidão, onde as coisas não param. No meio daquela correria toda, ninguém tem muito tempo de te pegar pela mão e te mostrar como as coisas funcionam. Eu fiquei meio ano entrando pela portaria errada; na minha primeira gravação, eu lembro, começava às 11 horas da manhã, eu fui para o estúdio achando que iria ter uma pausa para o almoço, quando eu vi eram 5 horas da tarde e eu estava gravando ainda. Essas coisas: fazer um lanche reforçado antes de começar a gravar, onde comer dentro da Globo, o que fazer no tempo de espera, esses detalhes todos eu fui aprendendo sozinha. A barca tá andando e você tem que dar seu jeito…

Até chegar esse momento, como as coisas rolaram?

Eu estava no Rio há 8 meses e as coisas não aconteciam direito, eu ia a todos os lugares, fazia testes, frequentava os teatros, não tinha nada de específico. Quando chegou o final do ano, resolvi voltar. Uma amiga me ofereceu um lugar na casa dela para deixar minhas coisas, para me livrar do aluguel e de alguma maneira ter um endereço carioca. Aceitei, deixei as malas e voltei para Curitiba para pensar no que ia fazer exatamente. No dia seguinte me ligaram da Globo. Parece que quando você para de chutar a bola, alguém chuta ela pra você.

Por que você queria trabalhar na Globo?

Eu sentia que precisava fazer alguma coisa, dar um suspiro diferente. A carreira de atriz já havia completado mais de 20 anos e eu precisava de algo diferente. Não que fazer teatro seja ficar na mesma, mas chega uma hora que é preciso buscar outras coisas, mais coisas, dar um impulso novo à carreira, fazer outras descobertas, ter novos desafios.

E você encontrou o que buscava, realizou as diferenças entre teatro e TV?

Isso foi muito significativo. No teatro as coisas acontecem num nível diferente, as pessoas se envolvem de um outro jeito. O diretor está ali, na sua frente, olhando no seu olho. Na TV é uma voz, você não vê quem está dirigindo a cena, cada um tem sua marcação e tem que se virar com ela. Artisticamente são linguagens muito diferentes, no teatro você consegue pensar em como se colocar na cena, esmiúça todas as possibilidades; na TV não há tempo para isso, eu gravava treze cenas por dia. Fiquei fascinada com essa loucura toda, esse ritmo frenético de televisão, a gente grava um longa por dia. E é muita gente trabalhando, às vezes é preciso 80 profissionais para gravar uma cena, tudo feito com muito capricho, com muito cuidado.

“A Globo é uma empresa gigantesca. Uma imensidão, onde as coisas não param. No meio daquela correria toda, ninguém tem muito tempo de te pegar pela mão e te mostrar como as coisas funcionam.”

Como funciona um personagem na TV? É fechado, você tem que leva-lo ipsis litteris?

O Wolf Maia me disse “eu te dei uma banana e você fez uma bananada”. Há total liberdade para criar. Eu ia tendo ideias para minha personagem e ia propondo, algumas coisas eram bem aceitas, outras não. É assim que a gente vai criando o personagem na televisão, ele é muito do que o ator pensa e inventa.

E as relações com as pessoas?

A televisão é um trabalho mais solitário, não dá tempo de se envolver com as pessoas durante o trabalho. O ritmo é intenso, a coisa não para. No teatro tudo vira uma grande família. É como se fosse comparar uma grande fábrica de móveis e uma lojinha de móveis artesanais. O teatro é móvel artesanal, tudo tratado com muita proximidade. Fiz amizades na televisão, mas elas são mais raras e precisam de mais esforço para acontecer do que no teatro.

Depois da novela, a sua relação com o trabalho aqui em Curitiba mudou?

Muito. Depois da Rede Globo todas as portas profissionais se escancararam pra mim. Feiras de arte que antes eu não conseguia participar, de repente se tornaram possíveis, recebi muitos convites, propostas de trabalho de todos os tipos. Porque no teatro, se você ficar em cartaz por um mês, com sorte, 600 pessoas vão te assistir, na televisão são 6 milhões por dia e depois dessa exposição toda as coisas mudam.

As pessoas falam com você na rua?

Sim, todo mundo. Ainda hoje, aqui perto, me chamaram de Esther, a personagem de 2015. Eu acho muito bacana. E também tem uma outra coisa, as pessoas me perguntam muito como fazem para entrar na novela, e é engraçado, porque eu só consegui fazer novela aos 38 anos, o que não me credencia numa conselheira confiável nesse setor. Também há uma confusão entre aparecer na novela e ser artista, são coisas diferentes, há uma lacuna bem grande entre as duas coisas.

Agora você inicia os trabalhos com um novo personagem, para a novela das 23h. Está com peças prontas para o público carioca, se informa a respeito de feiras de arte no Rio, tem um endereço fixo, que não é mais aquele antigo quartinho. Você pensa em se mudar definitivamente?

Nada é muito definitivo na minha vida, porque a pressão me coloca num lugar em que eu fico meio desesperada. Eu adoro minha casa nova no Rio, tem um bom espaço, é num lugar muito agradável. Mas não penso numa mudança definitiva, meus pais estão idosos, minha casa, aqui em Curitiba, é bem do lado da deles, muro com muro, eu tenho meus cachorros… Meu coração fica bem apertado, meu contrato só termina em setembro. E não dá para saber quando eu poderei vir visitar, porque a gente recebe a agenda da Globo na sexta-feira com toda a programação da semana, então não há muita antecedência na informação, tudo é muito em cima da hora. Só posso vir pra Curitiba, quando consigo dois dias seguidos de folga, do contrário não dá. Por enquanto vou vivendo assim, nessa ponte, com duas casas, dois ateliers e saudade dos dois lugares.

“A Soraia sempre acha que está arrasando com as opiniões dela, o que acaba por satirizar um tipo muito corriqueiro que vemos por aí.”

Você tem uma personagem permanente, Soraia Reflexiva que tem um canal no Youtube, fale um pouquinho.

A Soraia nasceu a partir de uma sugestão de um diretor da Globo, enquanto conversávamos sobre a chatice do mundo e algumas coisas que me irritavam e que não dá para ficar tratando na seriedade. Para fazê-la, tenho o apoio do meu amigão Paulo Pesinato, ele chega de repente com uma pergunta e manda, ela responde. A gente mantém uma atmosfera de improviso, sem cenário ou figurino, sem nenhum glamour, para que a atenção fique no texto (que nunca sabemos como vai sair) e a Soraia sempre acha que está arrasando com as opiniões dela, o que acaba por satirizar um tipo muito corriqueiro que vemos por aí.

Em 2017 você tem seu novo personagem na TV, na novela “Os dias eram assim”, peças e o que mais? (depois que Maureen me contou tudo que a espera para 2017, resolvi dividir isso em itens para ser mais fácil de acompanhar na TV, no teatro, no cinema, nas livrarias, nas lojas, nas galerias e em qualquer lugar – não a perca de vista!).

– Lançamento de 14 livros do grupo Genoma (que tem como mentor James McSill), do qual faço parte, somos 14 artistas com expertises diferentes, eu ilustrei os livros que serão publicados, são livros infantis, para colorir.
– Lançamento do livro de Neide Gomes “Clara e a fada dos livros”, fiz as ilustrações.
– Estreia no Brasil do filme “Atira-te ao rio”, que foi rodado em Portugal.
– Fechei um contrato com o Clube da Alice, para ter um espaço com minhas criações numa loja no Shopping Müeller, todas as roupas são com a temática de “Alice no país das maravilhas”.
– Fechei também um contrato com a Triton para coleção de inverno.
– Estreio no Rio, em março, a Ilíada de Homero, Canto 12.
– Apresento no Rio, “Punho fechado”, peça, em formato pocket, que faço com meu marido, Neco Yaros.
– Feiras de artes no Rio, porque meu atelier é aqui, mas quando viajo, ele vai comigo.

Fotos de Adriana Sydor

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