Maus bofes

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Os brasileiros andam de maus bofes. Apoiaram a deposição de Dilma Rousseff, do PT, mas isso não significa que deram apoio automático ao sucessor. Ao contrário, para a absoluta maioria a fase de vacas magras continua a mesma ou piorou desde que Temer assumiu. A vida só melhorou para 7,2% dos brasileiros. Permaneceu igual para 64,6%. E piorou para 26,9%. É o que mostra a mais recente pesquisa de opinião do Instituto Paraná.

A percepção de que a vida piorou é maior entre os moradores do Nordeste e do Sudeste. É maior entre as mulheres. Maior entre os que têm entre 35 e 44 anos de idade. E maior entre os que têm apenas o ensino fundamental. De quem é a culpa por tanto descalabro e sofrimento? Ora, do governo, respondem os entrevistados. E a administração de Michel Temer é muito mal avaliada. Apenas 1,2% dos ouvidos consideraram a administração ótima. Ela é boa, segundo 11,2%. Para 35,5%, apenas regular. Ruim para 18,3%. E péssima para quase 50% (exatamente 49,8%).

A pesquisa também apurou como os brasileiros avaliam a administração de Temer. Dois em cada três entrevistados (66,6%) disseram desaprovar o governo, enquanto 29,5% disseram aprovar – outros 3,9% não souberam ou não quiseram opinar. A constatação é semelhante à da pesquisa CNT/MDA, encomendada pela CNT (Confederação Nacional do Transporte) que apontou desaprovação de 62,4% ao presidente.
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O Instituto MDA diz que a reprovação ao governo aumentou sete pontos percentuais em relação à pesquisa de outubro último. No total dos entrevistados, 44% avaliam de forma negativa a administração de Temer (eram 37% em outubro); 39% de forma regular (eram 36%) e 10% de forma positiva (contra 15% antes). A rejeição ao presidente subiu de 51,5% em outubro para 61%. Nada ameniza o mau humor. Para a maioria, até a corrupção aumentou ou ficou na mesma. Para 37,5% ela diminuiu, mas aumentou para 16,5% e ficou igual para 43,2%.

INACREDITÁVEL LULA
Nesse quadro de desalento e de forte oposição ao governo, deu-se uma reviravolta nas preferências da população, segundo as últimas pesquisas. De deixar muita gente de cabelo em pé. De repente, não mais que de repente, as intenções de voto espontâneo em Lula subiram de 11,4% para 16,6%. As de Jair Bolsonaro (PSC), que se apresenta como alternativa de extrema direita, passou de 3,3% para 6,6%. Todos os demais nomes mencionados tiveram queda em seu percentual.

Os tucanos, que se ofereciam como aposta certa para 2018, desabaram. Depois de Bolsonaro, aparecem Aécio Neves, com 2,2%, e Geraldo Alckmin, com 0,7%, os dois do PSDB. Marina Silva (Rede) com 1,8%, Temer (PMDB) com 1,1%, Dilma Rousseff (PT) com 0,9%, e Ciro Gomes (PDT), com 0,4%.

Mas o fenômeno surpreendente é mesmo o interminável Lula. Depois de todas as acusações de corrupção, de ser exposto como beneficiário de falcatruas que beneficiaram a ele e aos filhos, o homem lidera nos três cenários propostos pelo instituto para o primeiro turno com percentuais de 30,5% a 32,8%. E vejam, foram realizadas seis simulações de segundo turno e Lula passou a liderar nos três cenários em que foi testado. Em outubro, ele vencia apenas em uma simulação contra Temer. Agora, Lula venceria Aécio por 39,7% a 27,5%, bateria Marina por 38,9% a 27,4% e derrotaria Temer por 42,9% a 19%.

O INCONFIÁVEL TEMER
A verdade é que os brasileiros que voltam a apostar em Lula têm na lembrança uma época em que a renda média aumentou, o desemprego sumiu, uma parcela de brasileiros subiu da classe D para C, outra teve acesso à casa própria, automóveis e eletrônicos que lhes eram proibidos. Corrupção? Ora, nesse quesito o presidente Michel Temer (PMDB) também sai perdendo. Ele tem baixíssima credibilidade. Golpe mortal, deixou parecer para 44% dos brasileiros que é contra a Operação Lava Jato, segundo o Paraná Pesquisas, que aponta ainda que para 23,9% o presidente “não apoia, nem é contra” e para 26,4% o peemedebista apoia a operação de combate à corrupção.
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A administração Temer e sua base de sustentação política no Congresso têm vários políticos com algum grau de envolvimento e de suspeitas na investigação, como o titular da Secretaria-Geral da Presidência e homem de confiança do presidente, Moreira Franco, que ganhou foro privilegiado após ser nomeado, o ministro da Casa Civil, Eliseu Padilha, o líder do governo no Congresso, Romero Jucá (PMDB), e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), e do Senado, Eunício Oliveira (PMDB-CE) – todos foram citados em algum momento por delatores da Lava Jato. O próprio Temer foi citado 43 vezes na delação do ex-diretor de relações institucionais da Odebrecht Claudio Mello Filho.

Outra iniciativa do governo Temer que gerou apreensão na Lava Jato foi a indicação de Alexandre de Moraes, também homem de confiança do presidente, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF). Para conseguir sua aprovação pelo Senado, Moraes tem feito peregrinação pela Casa e pedido o apoio de investigados na operação, como os senadores Renan Calheiros (PMDB-AL) e Edison Lobão (PMDB-MA). O mesmo levantamento do Paraná Pesquisas apontou que 58,4% dos entrevistados desaprovam a iniciativa de Temer de indicar Moraes para o STF – outros 20,5% aprovam e 21% não souberam dizer ou não opinaram.

TUDO CONTAMINADO
A sensação que ficou é a de que tudo está contaminado pela corrupção na República. Só que agora os membros do governo, além de tudo, se ocupam a dar soluções para si mesmos e nenhuma para o povo. As grandes figuras referenciais desabam sob a investigação e confirmam que não deve sobrar ninguém ou muito pouco despois da Lava Jato. O último capítulo envolve caciques dos grandes partidos. Os senadores Edison Lobão (MA), Renan Calheiros (AL), Jader Barbalho (PA), Romero Jucá (RR) e Valdir Raupp (RO), todos do PMDB, são investigados no inquérito que resultou na Operação Leviatã, da Polícia Federal, que cumpriu seis mandados de busca e apreensão em endereços de Márcio Lobão, filho do ex-ministro de Minas e Energia dos governos Lula e Dilma e atual presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, e o ex-senador Luiz Otávio Campos, apadrinhado político e amigo pessoal de Barbalho e Calheiros. Todos são investigados por crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

A nova fase da Lava Jato será determinada pelo ministro Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal. A investigação apura corrupção nas obras da usina hidrelétrica de Belo Monte. Batizada de Leviatã, em alusão ao livro do filósofo Thomas Hobbes, a operação investiga pagamento de propina de 1% sobre o valor dos contratos assinados pelas obras de Belo Monte a partidos políticos envolvidos na liberação do projeto da hidrelétrica. A suspeita é de que as empresas que integram o consórcio responsável pela obra fizeram o pagamento. A investigação teve início com a delação premiada do senador cassado Delcídio Amaral. Em seu acordo, Delcídio afirmou que 1% do valor do contrato da usina de Belo Monte ficou com o PMDB. Na colaboração, ele citou repasses também para o PT, mas a operação se concentrou em nomes ligados ao PMDB. A investigação sobre os petistas tramita na Justiça Federal no Paraná.
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LA NAVE VA
Apostou errado quem supôs que a Lava Jato seria interrompida com as manobras da corja do PMDB no Parlamento e nos tribunais superiores. Nada parou, nada foi interrompido até agora, embora o esforço seja grande. Apesar de ser o novo relator da Lava Jato no STF desde a morte de Teori Zavascki, Fachin já era o responsável pela relatoria das investigações sobre Belo Monte – que ficaram desmembradas na Corte das demais apurações que envolviam o esquema na Petrobras. Segundo Delcídio do Amaral, Jader e Lobão exerciam influência sobre várias estatais e grandes obras, entre elas, a usina no Rio Xingu, no Pará. Márcio e Luiz Otávio, por sua vez, foram citados na delação do ex-executivo da Andrade Gutierrez Flávio Barra como destinatários de pagamentos realizados pela empreiteira pelas obras de Belo Monte e também pela usina de Angra 3.

Conforme relato do ex-diretor da Andrade Gutierrez, integrante do consórcio construtor de Belo Monte, entre R$ 4 milhões e R$ 5 milhões foram repassados ao senador Edison Lobão pelas obras de Angra 3 e R$ 600 mil da usina hidrelétrica. De acordo com o delator, o valor relacionado a Belo Monte foi entregue, em espécie, na casa de Márcio Lobão.

Lobão (filho) também foi citado pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado. Em acordo de delação premiada, Machado disse que os valores destinados a Edison Lobão eram entregues em um escritório no Rio indicado por Márcio.

Quanto mais o Congresso tenta avançar contra a Lava Jato e a favor da impunidade, mais é obrigado a recuar, pela pressão dos órgãos de investigação e daquele ator político que, a partir de junho de 2013 e da valorização das redes sociais, está cada dia mais forte: a opinião pública brasileira, ou seja, o senhor, a senhora, você. Foram ao menos cinco recuos históricos, e estridentes, nos últimos meses. No Senado, o ex-ministro e atual líder do governo, Romero Jucá, lançou uma proposta para blindar os presidentes do Senado, da Câmara e do Supremo e, horas depois, teve de recuar. Na Câmara, o plenário incluiu familiares de políticos na nova rodada de repatriação de recursos não declarados no exterior, na chamada “Lei Cláudia Cruz”, e teve de voltar atrás, também horas depois, numa segunda votação.
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E por que senadores e deputados são obrigados a recuar? Simples. Porque a gritaria foi ensurdecedora. A lei da repatriação é para perdoar de certa forma a sonegação fiscal e engordar os cofres da Receita. Mas a suspeita, no caso dos políticos, é de que muitos deles cometeram crimes muito mais graves do que sonegação – como corrupção, por exemplo – e usaram contas de mulheres, filhos e irmãos no exterior para esconder enriquecimento ilícito.

BATATA QUENTE
Depois de uma liminar de novembro do STF, o Senado devolveu para a Câmara uma batata quente: o projeto que deveria ser de dez medidas contra a corrupção e virou um monstrengo para garantir a impunidade dos políticos. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, ficou desolado: “Como faço agora?”. Boa pergunta. Que tal ressuscitar as dez medidas do MP, que tiveram mais de dois milhões de assinaturas? Outra surpresa desagradável foi a recente votação de urgência para um projeto retirando o poder da Justiça Eleitoral de impor sanções para partidos que descumprirem a lei e não tiverem suas contas aprovadas. Na prática, seria acabar com qualquer responsabilidade partidária. Uma festa! A opinião pública deu um pulo, a Justiça chiou. O resultado é que a urgência não valeu e o projeto está trancado a sete chaves na Câmara, gritando: “Esqueçam que eu existi!”

O quinto recuo é também inacreditável: foi depois da votação, na calada da noite, de um projeto que simplesmente anistiava o caixa dois de campanha, hoje tipificado como crime eleitoral. Foi uma iniciativa muito polêmica e com uma peculiaridade: sem pai, sem mãe, sem autoria assumida. Ninguém teve coragem para tanto. Sendo assim, subiu no telhado e de lá não saiu até hoje. É assim que o Brasil vive um círculo vicioso – ou virtuoso? A Lava Jato avança, o Congresso reage com ideias mirabolantes, a sociedade resiste a elas por voz, palavras e gestos e no final os políticos são obrigados a engolir em seco e voltar atrás. Algo parecido com o que ocorre após a morte do ministro Teori Zavascki: quanto mais os citados e envolvidos na Lava Jato imaginam que “o pior passou”, mais o Supremo e a força-tarefa dão sinais de que eles estão redondamente enganados. Aliás, o PMDB e o Senado tiveram a audácia de eleger o senador investigado Edison Lobão para presidir a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), que vai, por exemplo, sabatinar Alexandre de Moraes para ministro do Supremo. Pois não é que o filho dele, Márcio Lobão, acaba de sofrer busca e apreensão na Operação Leviatã? Deve ter sido só coincidência.

Assim caminha humanidade. Nada poderá reduzir os maus bofes dos brasileiros enquanto a taxa de desemprego estiver em 12,5%, a inflação real comendo 7,2%, a renda do trabalhador a sofrer decréscimos significativos, a classe média obrigada a abdicar de serviços de qualidade para entrar na fila do SUS ou colocar os filhos em escolas públicas, porque o orçamento doméstico foi para o espaço e sobrou apenas enorme frustração e nenhum esperança.

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