Muito prazer, Donald

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Pareço que fui conservado durante sete décadas numa piscina de vaidade. Sou o Narciso, o lago, o mergulho e o desastre. Tudo acumulado num distúrbio freudiano que, por ignorância, não sei o nome. Tenho 70 anos, faço uma aberração de um bronzeamento artificial, um penteado pra lá de pavoroso e sou um casca-grossa do pior tipo. “Ai que vergonha alheia” – você deve estar pensando! Mas não dá para colocar os óculos do preconceito e tratar de uma pessoa pela estampa. Esqueçamos que eu sou essa figura feia e assustadora, que tenho esses olhos lunáticos e todo o conjunto que você deve estar tratando como trágico e falar dos fatos; vou por ordem de lembrança mesmo, já que é difícil elencar outra disposição para tantos predicados.

APARÊNCIA
Sei que com este subtítulo parece que eu vou continuar a tratar de minhas peculiares características. Não se engane, a verdade é que eu gosto de julgar livro por capa, perfume por frasco, produto por rótulo. Sou um especialista e não me constranjo em afirmar que avalio as pessoas assim também. Se a pessoa é gorda, por exemplo, eu não gosto de cara; por isso mandei que uma diretora de um campo de golfe que tenho na Califórnia demitisse uma funcionária. Eu acho também que se uma mulher quiser ser jornalista, ela precisa ser sensual. Falei isso no programa Last Week Tonight e tenho certeza de que a apresentadora daquela geringonça só conseguiu o trabalho por conta de sua beleza. E falei mesmo que aquela mocinha do New York Times que publicou um artigo sobre minhas finanças tinha uma cara de cadela. E as orelhas de Marco Ruboi? É pra dar risada, né?

MACHISTA
Sou mesmo, e daí? Eu acho que a melhor parte de um filme, não importa qual, é quando os homens fazem as mulheres calarem a boca. Hillary Clinton achou que poderia ganhar de mim. Como ela poderia agradar a América se não conseguiu nem agradar ao seu marido? Já falei e repito: todas as mulheres são interesseiras, nenhuma passa no teste do acordo pré-nupcial. Quando eu quis colocar no ar o programa Dama ou Vagabunda?, para dar umas aulinhas de boas maneiras a mulheres meio fora de controle, se é que vocês me entendem, ninguém topou a empreitada. Uma coisinha sobre um assunto que todo mundo parece adorar no momento: assédio sexual; o que as pessoas esperam em colocar homens e mulheres trabalhando no mesmo lugar? E pode dizer o que quiser sobre mim, porque realmente não importa desde que eu tenha uma bunda nova e bonita ao meu lado.

RACISTA
Todo mundo anda a dizer por aí que sou racista. A questão não é essa, o lance é que tenho algumas preferências e gosto de deixar isso muito claro. Não gosto de negros contando meu dinheiro, também acho que eles são preguiçosos, mas isso não é racismo, entendo que não é culpa deles, tem relação com algo mais forte, alguma coisa que eles não conseguem evitar. O Obama, por exemplo, ele estudou em boas escolas por causa desse negócio de cotas, teve sorte. O lance com os mexicanos e os muçulmanos: eles não são uma raça, pode ter mexicano ou muçulmano branco ou preto; o que acontece é que esse pessoal do México é na maioria tudo estuprador, assassino e ladrão. E os muçulmanos eu nem preciso dizer, né? Um bando de gente louca que só quer detonar com os EUA. Na verdade, a intolerância é contra mim, eu sou quase uma vítima de preconceitos. Por que ninguém pode compreender minha simpatia pela Ku Klux Klan ou por grupos nazistas?

TELEVISÃO
É das telinhas que o mundo me conhece, isso é certo. Sou um fenômeno da televisão, ninguém resiste (nem as mulheres, que eu sei que uma hora ou outra, consciente ou inconscientemente, darão em cima de mim – gargalhadas). Sabe aquele programa chamado O Aprendiz, que o Brasil, esse que se aproveita dos Estados Unidos, também exibe? Pois então, na NBC, eu fui campeão de audiência a aplicar uma série de provas prum bando de bobo que queria trabalhar na Trump Organization. Também soube aproveitar a maré tranquila e favorável para fazer umas pontinhas nuns filmes, vez ou outra apareci no cinema num papel menor porque sou modesto. E não esqueça, você só conhece algumas beldades e alguns desastres do concurso de Miss Universo, porque eu comprei os direitos de transmissão e tratei de apresentar ao mundo aquele festival até 2015. Eu mesmo, pessoalmente, escolhi algumas semifinalistas. E antes que falem alguma coisa, chamei mesmo a Miss Venezuela de Miss Empregada Doméstica – latina, sabe como é, né?

DÚVIDAS, CRÍTICAS, OPINIÕES?
Eu estou pouco me lixando para o que pensam de mim. Se eu quisesse poderia ser o mais politicamente correto dos governistas, mas eu não quero. Eu sou assim e pronto. E se hoje me dispus a percorrer um pouco da minha história para iluminar a vida de vocês, não pense que isso muda alguma coisa, há um imenso muro entre nós dois.

Muito prazer, este sou eu, por mim mesmo, Donald.

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