O último dia com Gabo

dedallo

Um cientista russo anunciou e garantiu que o mundo vai acabar – ou quando for publicado este texto, se acabou – dia 16 de fevereiro. Cairá sobre a Terra alguma coisa grande vinda do céu e aparentemente nem baratas sobrarão. O cientista russo provoca a Nasa e os ansiosos que hoje (15 de fevereiro) não dormirão em paz.

Suponhamos que ele está a mentir por diversão, e é uma suposição válida. Em seus cálculos mirabolantes cheios de letras e sinais matemáticos que não aprendemos na escola ele viu que as baratas sobreviverão, percebeu que haverá trânsito, lagartixas e sapos e pernilongos e cachorros nascerão, alguém descobrirá que teve o carro roubado e um neném falará “papai” pela primeira vez para enfurecer a mamãe, portanto sabe que bolas de fogo não cairão sobre a Terra.

Enfim, tanto fazem as suposições. Exceto uma: digamos que o mundo de fato se acabará daqui a algumas horas. Gostaria de fazer uma porção de coisas. Quando a bola de fogo estivesse a chegar para dizimar-nos, gostaria de estar numa esteira em Trancoso, sendo servido de porções de tudo que mais gosto: picanha cortada fininha, lagosta, linguado com alcaparras, fraldinha (sem mostarda, por favor), nhoque, lasanha e macarrão. Queria ter apetite para comer tudo e beber água, coca-cola, guaraná (com laranja e sem), cerveja (por preferência de sabor: uma belga, a Kwak, depois a do dia a dia: Original, de resto tanto faz, sem Glacial, sem Kaiser, sem Itaipava), uísque, caipirinha, enfim tudo que é bom. Se fosse mesmo o mundo acabar, poderia estar numa daquelas praias da Croácia – com os mesmos comes&bebes.

Na realidade, não preciso de muito, se fosse para de fato acabar, Matinhos me bastava. Só queria estar na praia. Always praia.

Antes de repousar numa esteira confortável, a pensar que do outro lado está a África, queria comprar uma mesa de pebolim, jogar até cansar, morar numa casa com chuveiro a gás, mudar-me para o Porto, convencer o chefe que posso trabalhar de casa, não precisar mais trabalhar, terminar de escrever meu livro e escrever o outro que tenho na cabeça, ser um escritor famoso, viver em Sintra, numa quinta, mas sem mosquitos e aranhas, por favor. Cachorro fora, gato dentro. E os livros pra ler, de bate-pronto penso na coleção História do Marxismo, do Hobsbawm. Ter todos os tipos de dicionário: sinônimos, antônimos, homônimos, analógico, de filosofia, de história, de Eça de Queiroz. Queria ser rico, mesmo que fosse num dos últimos momentos, antes de descer pra praia receber o resultado da Mega e aí acreditar que não é uma fraude, mesmo sem divulgar o número de apostas. O dinheiro não me serviria para nada, exceto para um momento breve de intensa felicidade.

São muitas coisas.

Se o mundo acabar amanhã, não terei nada do que disse antes, mas pelo menos terminei de ler anteontem Cem anos de solidão e agora posso ver uma realidade fantástica diferente, nem tão real, nem tão fantástica. E acreditar que o primeiro da estirpe esteve amarrado a uma árvore e o último será comido pelas formigas, não da maneira real de García Márquez, mas da fantástica. E se o mundo acabar de fato amanhã não há problema, pelo menos terminei de escrever esse texto para lembrar os 90 anos de Gabriel García Márquez e os 50 de Cem anos de solidão, de um jeito real e fantástico.

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