Quanto vale um reality show? Nem um troféu abacaxi!

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Em 1973 estreava na TV americana o primeiro reality show. Doze episódios contaram a vida de um casal da Califórnia e seus cinco filhos, “An American Family”. O negócio deu certo e o formato foi copiado, adaptado, desenvolvido por uma pá de canais no mundo todo.

Parece que há um certo fascínio em ver o banal quotidiano anônimo, ou não, na televisão. Há também a vontade exibicionista de se mostrar para o mundo – o Facebook é catapulta para isso quando o espalha-brasas não alcança a sorte de estar nos canais. O sucesso dessa simbiose que tem na raiz a bisbilhotice e a vaidade pode ser explicado por profissionais de várias áreas: comunicação, filosofia, sociologia, história, ah!, todo o pessoal de Humanas pode tratar do assunto. E trata. Se você procurar direitinho, vai encontrar um monte de trabalhos acadêmicos sobre. Um exemplo, o Doutor em Ciências da Comunicação da Universidade Nova de Lisboa Samuel Mateus publicou na revista de comunicação e cultura Contemporânea o artigo “Reality Shows – ascendências e hibridação de género” que lá pelas tantas explica assim: “poderá parecer inusitado convocarmos um movimento artístico e literário para discutir as influências de género do programa televisivo de realidade mas a verdade é que o Realismo do séc. XIX expressa já aquilo que vai ser uma característica distintiva do reality-show: embora exaustivamente ensaiado, há um desejo de real, uma quase obsessão em denunciar a realidade social, uma procura funesta da veracidade através de uma narrativa lenta e minuciosa que atende aos detalhes, e que é escrita com uma linguagem cordial, quotidiana – por vezes mesmo vernácula – assente nas emoções e padecimentos do protagonista, contra a imaginação romântica, eis o Realismo de Flaubert, Balzac, Eça de Queiroz ou Machado de Assis escrevendo a crueza real dos factos, fazendo da observação descritiva o dever soberano da literatura”. adriana-1-chacrinha

Pois bem, na música, o que antes era programa de calouros, hoje virou reality show. Um formato repaginado do sucesso consagrado dos canais do mundo todo, que também é sucesso em todo o mundo. Na versão desses dias em que vivemos, a fama chega antes do êxito. Candidatos já saem tendo suas histórias reveladas, antes mesmo de o público saber se são merecedores de atenção.

Gosto dos formatos antigos não porque sou uma saudosista louca, mas porque antes a notabilidade chegava depois do propósito atingido.

Quando Ary Barroso gongava corajosos novatos, não interessava muito qual era a história atrás daquela alma. O que estava em jogo era a exibição e pronto; caminhos, dificuldades, sonhos e outros pormenores que fizeram o cidadão chegar ali não tinham importância. Se o sujeito era bom, passava; se a guria cantava bem, era aprovada – as cruezas de uma prova. As cortinas que desvendavam as histórias só eram abertas depois do sucesso. Ary Barroso fincou o formato na rádio Cruzeiro do Sul em 1937 e depois o levou para outros lugares até chegar na TV Tupi e se transformar numa referência do estilo. “Calouros em desfile” (e os outros que o compositor estrelou no mesmo estilo) revelou muita gente boa. E reprovou também. Era um entretenimento importante, tinha patrocinadores (“Vou dar início a mais uma transmissão do programa ‘Calouros em desfile’, como sempre patrocinado por Toddy do Brasil Sociedade Anônima”), passar pelo rigor de Ary era uma vitória e tanto e mesmo reprovar trazia alguma notoriedade ao candidato: muita audiência. Sylvia Telles, Luiz Gonzaga, Ângela Maria, Lúcio Alves, Elza Soares e sua simbólica e eterna frase “vim do planeta fome”, entre outros, passaram por ali, por Ary.

Renato Murce, homem de todas as possibilidades do rádio, apitava direto da Nacional o “Papel carbono”, que recebia gente que “copiava” ou não ídolos de sucesso. Quem passou por lá? Roberto Carlos, Baden Powell, Doris Monteiro e a lista segue.

Quem inventou um júri artístico na TV brasileira para dar notas aos aspirantes ao sucesso foi Flávio Cavalcanti. De postura polêmica, não perdoava nem quem já tinha trilhado alguma história. Se não gostasse de disco novo, o quebrava na frente de todos. De seus concursos despontaram nomes como Emílio Santiago, Alcione e Leci Brandão. Ele estreou na televisão em 1957, rodou pratos até 1986.

Foram tantos e tão interessantes os programas que envolviam novatos no rádio e nas primeiras horas da TV brasileira, que começa a ficar claro que não terei jeito de tratar de todos (nem do nosso querido Mário Vendramel). Por isso, peço desculpas e dou uma acelerada no tempo para chegar até à deliciosa zorra que era a “Buzina do Chacrinha”, isso depois de ser “A hora da buzina”. Num tempo em que a patrulha não tinha a voz que tem hoje, muita coisa era permitida e isso fazia dos programas uma divertida viagem por abacaxis, buzinas, comentários de toda ordem e até aprovações. Chacrinha promovia tudo que era imoral, politicamente incorreto e jocoso. Falava o que não devia, fazia o que não podia. Se o candidato passasse por sua buzina, um corpo de jurados tratava de dizer se ele continuava ou não no programa para se submeter a outra prova, “Vai para o trono ou não vai?”. Na banca, a diversão também era garantida: Pedro de Lara, Aracy de Almeida, Elke Maravilha foram alguns que passaram com olhos atentos e língua afiada nos programas do Velho Guerreiro. A irreverência de Chacrinha dá saudade.

Chacrinha promovia tudo que era imoral, politicamente incorreto e jocoso. Falava o que não devia, fazia o que não podia.

E o Silvio Santos lá, lá lá lá lá, lá lá, lá lá lá, lá lá lá lá lá… dono de carisma e forte poder de comunicação, atravessou os anos reinventando a cara do seu “Show de Calouros”. A qualidade dos que se apresentavam estava na base do quanto pior, melhor, mas mesmo assim o show de bizarrices era divertido. E figuras como Aracy e Pedro de Lara também passaram por lá e não dá para negar a curtição que era ver a cantora, cara carrancuda, “Vai tomar dez paus!”. É verdade que o programa não pode ser comparado com os citados acima e não tinha como foco a música, a qualidade, algum tipo de reconhecimento e incentivo cultural, mas é dos entretenimentos de sucesso que levaram o sobrenome “calouro” no título.

Um traço marcante entre os aqui listados e os outros que não couberam é o coração de aço dos apresentadores. Não importava o tamanho da vontade, da humildade, do sonho, da esperança dos candidatos – o facão descia sem dó nem piedade. E isso gerava um misto nos espectadores, que queriam ver a degola ao mesmo tempo em que torciam pelos novatos: sucesso de público.

Mas hoje, os programas transformados em reality shows têm uma coleção de equívocos. Nem vou entrar no mérito do que é aprovado e daquele berreiro sem fim que se transformou o que aprendemos a chamar de cantores. Não quero falar da falta de talento, nem do desrespeito com arranjadores, compositores e todos que trabalham para fazer o que eles são incentivados a estragar… Voltando aos programas, nesses tempos, o público continua ativo, os aplausos são via SMS, inclusive no tempo em que o espetáculo não está no ar, o que leva a outro engano: quem consegue mobilizar mais gente para votar, tem vantagem; quem expõe de forma mais competente o sonho de cantar, tem vantagem; quem sabe utilizar as redes sociais, tem vantagem; quem se dedica a cantar uma bobagem qualquer que esteja na boca do povo, tem vantagem. E assim segue o show, dando pistas da sociedade em que vivemos e como vivemos.

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