Um livro que canta

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A vida de Adriana Sydor tem trilha sonora. Enquanto a maioria de nós guarda na memória afetiva uma ou outra canção que invoca momentos importantes, a jornalista, blogueira e escritora carrega um repertório inteiro firmemente entrelaçado em sua história pessoal. Adriana trabalha com música há muito tempo e da convivência diária veio a autoridade para falar do assunto em crônicas pontuadas de citações. Na obra Salve o Compositor Popular, publicada pela Travessa dos Editores, ela recorda frases de canções como se cantarolasse, como se o leitor fosse um amigo sentado diante dela e com quem conversa sobre vários assuntos, sendo que cada um lhe traz à lembrança um bom momento da MPB. Seus textos nos provocam: “Lembra dessa?”

adriana-2-capalivroPodemos até não lembrar, mas ela está aí para nos ajudar e pinça da memória a canção que tem a melhor frase para aquele tema. O assunto é futebol? Adriana cita de Pixinguinha a Herivelto Martins. Religião? Paulo Leminski, Zeca Baleiro, Gilberto Gil são lembrados. Casamento? Dos sambas da primeira metade do século XX até Vanessa da Mata, Adriana encontra as melhores referências sobre a tendência do ser humano em, quando apaixonado, querer viver embaixo do mesmo teto.

O recém-lançado Salve o Compositor Popular reúne 33 textos de Adriana, todos publicados ao longo dos últimos quatro anos em sua coluna aqui na revista Ideias. Eles estão acompanhados por primorosas caricaturas de autoria de J. Bosco dos compositores citados. Os textos são reflexões despretensiosas sobre o que dizem os compositores da MPB. A autora é enfática: não pretende escrever textos enciclopédicos. “Pessoas mais preparadas que eu já fizeram isso”, diz. Nem definir o que tem valor e o que não tem segundo seus critérios pessoais. O que ela faz é uma celebração dos bons momentos do cancioneiro brasileiro, dentro de um corte muito particular da produção musical. O que é citado no livro é o que Adriana vê de mais significativo, os versos que mais admira, as palavras que mais lhe tocaram. Para nós, leitores, é oferecida a leitura prazerosa e recheada de bons versos.

NAS ONDAS DO RÁDIO

Adriana Sydor, curitibana da Vila Guaíra, era uma ouvinte atenta de rádio e de música quando, por apreciar o repertório que ouvia na rádio Educativa do Paraná, tomou coragem e se apresentou no prédio das Mercês. Queria trabalhar com música, naquela rádio. Foi aceita e permaneceu na equipe durante 14 anos. Como produtora, escrevia os roteiros e os textos dos programas, recebia os profissionais que apareciam para divulgar seus trabalhos e ouvia música o dia todo. Teve oportunidade de conhecer muitos de seus ídolos e de descobrir outros tantos. Naturalmente, essa proximidade com compositores e intérpretes lhe atiçou a vontade de fazer música também. Tentou alguns instrumentos, compôs um pouco com amigos. Acumulada alguma experiência, ela agora é crítica consigo mesma e se avalia sem talento para a criação ou execução. Insiste ainda nos instrumentos (está tendo aulas de cavaquinho), mas se encontrou melhor como divulgadora da boa MPB.

É que Adriana também gosta de palavras. Estudou Letras e Jornalismo. Lê muito. Escreve. Salve o Compositor Popular é sua terceira obra publicada (é autora também de MPB para Crianças e da coletânea de crônicas Adriana Sydor, toda prosa). Foi à escrita que recorreu quando, por força de mudanças na sua vida profissional – havia sido promovida à diretora da rádio Educativa – passava mais tempo envolvida com questões administrativas do que com o jornalismo e com a música. Resolveu fazer um blog para “não enferrujar o texto”, como explica. Fez do espaço digital um quase diário em que fala sobre os seus dias, minúcias do cotidiano como em uma conversa de vizinhas, mas também a poesia de quem observa o mundo com bom humor e delicadeza. adriana-1

Quando, em 2012, começou a escrever a coluna de música popular, aqui na Ideias, Adriana estava dando vazão ao conhecimento acumulado no trabalho da rádio. O texto nasce como uma crônica, com observações sobre fatos corriqueiros, efemérides, experiências que todos compartilhamos. No segundo ou no terceiro parágrafo surge ela, a canção popular, que toma conta da narrativa. A autora puxa pela memória e encadeia uma sequência de composições que abordam o tema da crônica; mesmo que muitas dessas músicas sejam contrastantes entre si, separadas no tempo por longos períodos, elas se aproximam através da leitura que Adriana faz delas.

Adriana nunca quis se tornar teórica da música popular nem crítica, faz questão de deixar isso claro. Seus comentários sobre MPB têm a natureza da provocação: fazem o leitor se transformar em ouvinte, correndo atrás daquelas canções que ela menciona para que a experiência seja completa: ler, ouvir, quem sabe cantarolar. Percebe-se que a seleção que nos apresenta é poética, que prevalecem os versos bem escritos, com palavras bem encaixadas dentro da frase. Adriana fala de música como quem fala de poesia e assim mostra seu respeito pelo compositor popular.

Fotos de Marcelo Elias

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