Cães e gatos

fabio

O gato é peludo e o cachorro também; o gato tem quatro patas e um rabo, o cachorro também tem; o gato e o cachorro têm uma cabeça com dentes e orelhas, mas o gato mia e o cachorro late. Conclusão: o cachorro é um gato relativo. Este raciocínio corre solto em desvãos de Brasília para ilustrar a parecença entre a situação e a oposição, hoje todos iguais perante a Lei, ou melhor, perante a Lava Jato e o juiz Sergio Moro.

A distância entre a zoologia e a política é às vezes bem pequena, embora os animais propriamente dito não politiquem mais, desde os bons tempos de Esopo e La Fontaine. Ou desde George Orwell, Borges e de nosso Wilson Bueno.

A semelhança definitiva entre a oposição e a situação é o medo. Nem todos o chamam assim, mas o nome certo é medo mesmo. Nem sempre a facilidade com que avança se explica à luz da razão, mas quem recua diante dele costuma exibir uma expressão de esperteza. Há quem diga que o medo não existe sem a coragem, como a luz não existe sem a sombra. A coragem, no entanto, tem sido mercadoria rara, o que talvez esclareça o fato de que ainda vivemos na sombra. Não há, de extremos da esquerda à direita mais furiosa, quem não tema as delações de empreiteiros doadores de propinas e suas consequências.

Mas não é apenas o medo que torna gatos e cachorros tão parecidos. As duas bandas sofrem do vício de raciocínio que leva as pessoas a tomarem as suas próprias fantasias pela realidade. Muitos dos políticos acuados pelas denúncias de corrupção parecem não compreender que a realidade mudou. Não são apenas os juízes, procuradores e policiais federais que devem assustá-los. A verdadeira ameaça contra eles está na sociedade. Não há brasileiro que trabalha e produz que não queira a punição exemplar de todos os que assaltaram o país desde sempre. Independente de partidos, facções, religiões, os corruptos devem ser investigados e punidos, a começar pela desapropriação de seus bens e riquezas para ressarcir o erário. E com uma boa temporada na cadeia para evitar que reincidam.

E talvez assim possamos alcançar as condições mínimas para construir a plenitude democrática. Isto é, o pleno exercício de um regime democrático, como os instituídos a partir do século XVIII nos principais países do Ocidente. Um regime onde o governo é eleito pela maioria dos cidadãos, mas onde o direito das minorias, até essa minoria exemplar que é o indivíduo, esteja garantida e protegida devidamente. Um regime onde o governo está submetido a um sistema de controle e fiscalização permanentes, graças à liberdade de imprensa (que o governo não pode tocar) e à separação dos poderes, isto é, a independência do Legislativo e do Judiciário, cuja extraordinária valia foi demonstrada e com tanta ênfase nesse processo que vivemos de abertura das caixas-pretas da corrupção.

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