Castidade no carná e na MPB

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A propósito das constantes investidas sobre apropriação cultural e o decálogo do politicamente correto, suscitados tantas vezes especialmente no carnaval, é sempre aconselhável submeter esses questionamentos ao tempo em que foram lavrados. Em lugar de pretenderem enterrá-los como Rui Barbosa tentou com os documentos da escravidão, com o sentido de expurgá-la de nossa memória, o aconselhável seria olhá-los como perspectiva arqueológica e que apenas indicariam que evoluímos nas questões do racismo e do machismo e que cantá-los na forma original não os traz de volta com a intensidade imaginada.

Castidade que não é levantada com frequência nas igrejas, a despeito de sua importância nos códigos morais e comportamentais, já foi tema de carnaval, é claro que com sentido oblíquo e um tanto quanto caricato. Mesmo quando se faz ironia com um determinado valor, ele acaba sendo exaltado, o que se torna um contraponto ao hedonismo, a fúria sensual e militante dos nossos dias. Uma produção carnavalesca de 1938, tempo da gravação, para as festas de 1939, faz a abordagem da saga de Suzana de Copacabana em “A casta Suzana” com estes versos: “Será você a tal Suzana, a casta Suzana// do posto seis?// coitada! como está mudada! // teve apendicite e ficou sem it”. Todo um eufemismo, cheio de mesuras e delicadezas, para referir-se às mudanças em seu corpo de mulher. A produção é de Ary Barroso e Alcir Pires Vermelho e interpretada por Déo que nada tem a ver com o Deonilson Roldo, homem-chave do governo Beto Richa, mas que lhe conserva o carinhoso diminutivo.

Outra criação interessante, essa de 1949, é “Normalista”, de Benedito Lacerda e David Nasser na voz de Nelson Gonçalves: “Vestida de azul e branco// com um sorriso franco// num rostinho encantador// minha linda normalista// rapidamente conquista// meu coração sofredor//” e segue sugerindo que ela “não pode casar ainda// só depois que se formar”. Como ajustar essa paquera, ritualística e paciente, aos hábitos contemporâneos em que é mais prático “ficar” do que cogitar casamento? Não deixa de ser uma perspectiva de castidade essa aliança, cercada de tanta sedução e passando necessariamente pelo ato sacramental do matrimônio.

Da mesma forma que “Paraíba masculina, mulher macho sim, senhor” não é um grito de tom feminista, mas distanciada da “Maria Sapatão que de dia é Maria e de noite é João”, pois isso não entrava na lira daqueles tempos por um exercício singelo de autocensura, o conformismo do barracão de zinco e com a pobreza, cenário aureolado pela sinfonia dos pardais ou ainda “pisando os astros distraída” no despojamento da pobreza exaltada como virtude e, pior do que isso, a maior das realizações pessoais fundida ao universo. Hoje já se canta menos esse apego à singeleza em que o possível leva jeito de desejável e o pedreiro Valdemar, que faz tanta casa e não tem casa pra morar, ao menos toma consciência de sua situação, pois ele, “que é mestre no ofício// constrói um edifício// e depois não pode entrar//”.

Nesse assunto entro à sorrelfa, pois é domínio inquestionável da Adriana Sydor, bela e inspirada.

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