Danilo Caymmi canta Tom Jobim

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Foi numa quarta-feira qualquer, numa dessas quartas banais que recebi Danilo Caymmi em casa para falar do seu disco. Ele aproveitou compromissos em Curitiba para, numa atitude que remonta a outros tempos, visitar rádios, jornais e revista para divulgação – coisa que aprendeu lá nos 1970 com Antônio Adolfo e seu selo independente, quando gravou “Cheiro Verde”. Por aquela época, colocava a nova criação debaixo do braço e percorria a imprensa dos lugares; aqui em Curitiba, Danilo teve a casa de Aramis Millarch como base de sua viagem de negócios – ele, esposa e filha (e fraldas e mamadeiras e chocalhos). 

O tempo passou, o mundo mudou, e, ainda assim, nesses dias mais virtuais do que qualquer outra coisa, Danilo entende o poder e o valor do tête-à-tête e não dispensa uma conversa assim, olhos nos olhos. Também não dispensa face, o outro, o Facebook: mantém-se conectado, faz divulgação, publica vídeos e, para concorrer com o Jornal Nacional, quando lhe dá na telha brinca com os lifes, em transmissões ao vivo em sua TV Dendê. A pauta? Qualquer coisa que caiba no caldeirão – quem quiser vatapá, que procure fazer… adriana-toquinho2

Danilo lançou, 25 de janeiro, dia do 90º aniversário de Tom Jobim, “Danilo Caymmi canta Tom Jobim”, álbum que saiu pela Universal e tem assinatura de arranjos de Flávio Mendes (que também toca violão no disco e divide a produção com Carlos Fuchs), violoncelo de Hugo Pilger. Flautas e voz são de Danilo, obviamente. Um disco-tributo a Jobim sem piano? Ele explicou isso e outras coisas numa quarta-feira pra lá de especial.

Li que você se “descobriu” cantor com Jobim, que antes você cantava de um jeito diferente, em falsete. Como isso mudou efetivamente, de que maneira Jobim o “ensinou”, foi um processo didático, ele te indicou alguém para estudar técnica vocal, como aconteceu? 

A primeira coisa, Jobim me deu uma responsabilidade, ele me disse que eu cantaria em seu próximo trabalho. Eu estava habituado que minha onda dentro da música era de flautista, até por uma “determinação” de mamãe, que comandava tudo: “Nana é cantora, Dori, arranjador e Danilo, flautista”. Obviamente isso não era uma imposição, mas nos reconhecíamos naqueles lugares.

Tom Jobim me disse, você vai cantar “Samba do avião” e “A felicidade” e já me deu o tom, o tom certo para mim. Porque ele tinha percebido que eu cantava fora da minha textura vocal.

Na Banda Nova, o Tom Jobim me disse, você vai cantar “Samba do avião” e “A felicidade” e já me deu o tom, o tom certo para mim. Porque ele tinha percebido que eu cantava fora da minha textura vocal. E com a responsabilidade de solar em duas grandes músicas, em dois sucessos, eu tratei de procurar aulas de técnica vocal e foi então que percebi que eu era, de fato, também cantor, fiquei confortável dentro daquele papel e depois disso ele me chamava sempre para cantar.

Qual a diferença de um intérprete instrumentista e um intérprete cantor?

Há muita diferença. Como instrumentista, é um grande marco quando a gente cria uma identidade sonora. Um dos grandes momentos da minha vida foi quando o Michael Breker, um saxofonista que admiro muito, infelizmente já falecido, elogiou a minha sonoridade. Quando um instrumentista chega a esse ponto, é porque tá legal.

Agora, para cantar, é outro barato. Eu venho de uma família de intérpretes, conduzida pela vertente da minha mãe, que passa por Nana, por Dori e pelo meu pai também (porque eles se conheceram com minha mãe cantando no rádio “Último Desejo” e isso influenciou todo mundo). O cantar, na minha casa, tem uma importância muito grande, tanto que tive a certeza desse disco, quando Nana ouviu, se emocionou e chorou. A interpretação, passa também muito por esse lado, o que comove o ouvinte.

Se de um lado, Michael Breker reconheceu minha identidade sonora e por outro, emocionei Nana Caymmi, é porque estou no caminho certo.adriana-toquinho3

Ao visitar um repertório que te é tão próximo, mas dessa maneira inédita, isso tem algum tipo de influência na sua vida de compositor? Não sei do seu cotidiano de trabalho, se você já passou pela criação depois de ter gravado…

Não. Eu trabalho muito por encomenda, prefiro trabalhar assim. Se eu não tiver nada, o violão fica sem corda… e como do momento do final do disco até aqui ainda não pintou nada nesse sentido, não tenho essa resposta.

Você citou que a escolha das músicas para esse disco foi na base de suas preferências afetivas. Você cantou o que lhe tinha um significado muito especial. Antes do trabalho em estúdio, como foi sua preparação para cantá-las, você as ouviu novamente, as estudou?

Sim, de fato, trata-se de minha memória afetiva. “Chora coração”, por exemplo, Tom fez essa música para o filme “Crônica da casa assassinada”, do romance do Lúcio Cardoso, eu tinha 22 anos e toquei flauta na ocasião e fiquei muito impressionado com a composição. “Por causa de você” é uma música que minha mãe cantava em casa quando eu era pequeno, eu adorava ouvi-la.

Eu não estudei nada, eu chegava no estúdio sem saber qual era a música que ia cantar naquele dia. Eu sou um improvisador, gosto disso, de me questionar, de estar aberto para o novo, para a surpresa.

O “Querida”, por exemplo, eu vi o Tom compor, ele estava doente, um ano antes já sabia que tinha câncer e não terminava a letra nunca. Era para abertura de uma novela e com a corda no pescoço por conta do prazo, eu e minha mulher cantamos uns trechos no telefone para o Boni ouvir. E a letra fala de finitude, e ele não terminava…

Sim, nessas condições, pode-se dar a impressão de que estendendo a obrigação de terminar a música, ele estendia a vida também…

Isso. E por conta da letra, eu me senti a vontade para tirar o foxtrote e transformá-la para de alguma forma aprofundar a audição do texto. Uma das tônicas desse trabalho, é que sempre há um pano de fundo a ser descoberto em cada canção.

Quanto tempo demorou para o disco ficar pronto?

Foi tudo muito rápido. Umas seis ou sete sessões de gravação. Primeiro eu e violão. Depois fiz a cobertura, gravei as flautas, em seguida entrou o Pilger com o cello.

A primeira coisa que pensei quando soube desse disco, foi sobre quem tocaria piano. Depois vi que não tem piano…

Sim, Tom Jobim sem piano. Mas isso não foi uma decisão, não foi uma coisa planejada desde o começo. Quando iniciamos as gravações, começamos com voz e violão. Fomos nessa levada, Flávio Mendes e eu, e gostamos do resultado. Havíamos cogitado o piano, mas a maneira como conseguimos explorar as canções, esse minimalismo de que gosto muito, acabou se estabelecendo naturalmente.adriana-toquinho1

E a opção de chamar Stacey Kent?

A decisão foi minha, porque sou super fã dela. Gosto de aos domingos pela manhã ouvir música e ela quase sempre está no meu playlist. Ela escolheu a música que queria cantar, “Estrada do sol”, concordei e mandei a base para os Estados Unidos e ela acertou em cheio, cantou com sua respiração colada na minha. A flauta é do seu marido, Jim Tomlinson. A tecnologia proporciona esse tipo de coisa, isso é espetacular.

E a falar sobre isso, eu sinto uma grande confusão sobre gravar CD. Antigamente eu comprava discos para ter o repertório em minha casa, o artista à minha disposição para quando eu bem quisesse. Hoje em dia, vou ao Youtube, à página do artista, aos playlists etc e encontro de forma mais simples muito mais coisas; pode não ter tanto charme quanto antes, mas é mais fácil, mais imediato e mais barato. Por que um artista ainda grava CD? Qual é a importância do objeto, do tátil?

O disco se transformou num cartão de visitas para que o artista circule, venda os shows, faça a divulgação de seu trabalho, frequente a imprensa. Tanto que esse meu disco deve ter umas 3 mil cópias só, hoje quem vende 10 mil discos é um super herói.

Eu sou cantor, instrumentista e também navego pela praia da fotografia, desenvolvo ideias para conceito de shows. Hoje em dia o conceito de multi-artista é cada vez mais forte

Eu aprendo muito com minha filha Alice sobre esse lance de plataformas digitais, porque lá em casa ninguém é uma coisa só. Meu pai era pintor também, tinha técnica e tal. Eu sou cantor, instrumentista e também navego pela praia da fotografia, desenvolvo ideias para conceito de shows. Hoje em dia o conceito de multi-artista é cada vez mais forte: você grava um CD e tem que fazer a correspondência dele nas plataformas digitais, não dá para desprezar EPs, singles; não dá para não se preocupar como isso vai ficar graficamente exposto na internet. O CD faz parte de um grande pacote que envolve o artista, o multi-artista, de hoje.

Quando o disco começará desfilar em palco? Já tem esquema de shows?

Eu ainda não iniciei show, tenho que montar. Mas isso vai acontecer em breve. Estou ouvindo e escolhendo as flautistas, que serão duas. E penso num repertório mais amplo, algo que misture as músicas do disco com outras coisas. Para as músicas do Tom, eu tenho vários roteiros, que sei que funcionam bem aqui no Brasil e lá fora. Penso também num cenário que apresente algumas fotos minimalistas para fazer um jogo de imagens. Há uma série de coisas na minha cabeça, e não vai demorar para começarmos com os shows.

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