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O poder público do país está contaminado. Dos políticos à carne, nada se salva

A soja e a carne vêm sofrendo com as últimas notícias. A primeira está encalhada numa estrada não pavimentada e principal via de acesso aos portos do Norte. A segunda está envolvida talvez no maior escândalo de produtos alimentícios já visto. A operação Carne Fraca estremeceu as estruturas do país que mais vende carne no mundo. E agora, o pilar a que a economia se agarrava rachou e não dá para saber se vai aguentar. A pouca confiança que vendíamos, desmoralizou-se. O poder público está como a carne – apodrecido.

O DIA DA CARNE PODRE

Como se o caos já não estivesse instalado em nossas terras, mais um escândalo chega sem pedir bênção. Na manhã do dia 17 de março, a Polícia Federal deflagrou a operação Carne Fraca, investigando grandes empresários agropecuários e fiscais federais, acusados de fraudarem as carnes de boi e de frango produzidas no país para o mercado interno e externo. Políticos estão envolvidos no esquema, inclusive o ministro da Justiça, Osmar Serraglio. A PF divulgou que frigoríficos passavam propina ao PP e ao PMDB, e outros partidos, como PSDB e PT, também faziam parte do esquema. Nada novo.

Dentro das irregularidades encontradas, a lista se faz grande. Uso de doses altamente cancerígenas, carnes estragadas por bactérias, como a salmonela (causadora de vômitos e diarreias), e até mesmo misturadas com papelão. Mais de 20 empresas são investigadas. O Governo Temer nega e tenta diminuir a ação da PF para não causar pânico nos brasileiros e no mercado externo. Tentou bancar o despreocupado. Dois dias após a investigação, convidou embaixadores para comer carne, afinal tudo vai bem. O que não vai muito bem é sua assessoria, que providenciou um espeto-corrido de carne importada. A estratégia miou e o feitiço se voltou contra o feiticeiro.

No dia em que irrompeu a operação, a bolsa despencou. As ações da BRF, que se destacam entre as mais negociadas, caíram mais de 7%, enquanto os papéis da JBS tinham perdas de quase 10%. Citadas na Carne Fraca, as duas empresas lideravam as baixas do Ibovespa.

O Brasil é o maior exportador de carne bovina e de frango, além de ocupar o quarto lugar nos embarques de suínos. Juntos, os três segmentos responderam por 7,2% das exportações em 2016 ou US$ 11,6 bilhões.

“É uma situação muito preocupante. Pessoalmente, acredito que as irregularidades sejam pontuais e devam ser investigadas. Mas é muito ruim para nossa imagem, para nossa reputação. Muitos países podem rever as exigências (fitossanitárias) e pedir para enviar equipes próprias para fiscalização”, disse Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior e sócio da Barral M. Jorge.

NOVA LAVA JATO
O delegado Maurício Moscardi Grillo, que conduziu as investigações da operação Carne Fraca, confirmou que a data (mesmo dia em que a Lava Jato “comemorava” três anos) para divulgar todo o esquema dos frigoríficos foi escolhida com o objetivo de chamar a atenção da sociedade “para o descaso que temos na área de corrupção sistêmica e endêmica no nosso país”.

O modus operandi da Carne Fraca é bastante similar ao da Lava Jato. A começar com uma grande empresa com um departamento de propina. Assim como a Odebrecht, a BRF tinha toda uma estrutura para subornar agentes do Ministério da Agricultura.

“No caso da BRF, existe uma coordenação, na verdade uma gerência. Não fica muito claro para a gente o que ela faz senão esses contatos escusos, porque cuida de assuntos institucionais e governamentais. Toda a relação desse servidor dentro do cargo dele é exatamente falar do cargo mais baixo de um fiscal até o cargo mais alto de um Ministério; então você vê que ele tem um acesso pleno a toda forma de poder”, relata o delegado.

Basicamente, o setor da propina da BRF comprava os fiscais do Ministério da Agricultura que faziam vista grossa em relação às fraudes (produtos com validade adulterada, carne podre, substâncias cancerígenas etc.). Em grampo feito pela PF, até mesmo o ministro da Justiça do Governo Temer, Osmar Serraglio (PMDB-PR), foi flagrado conversando com Daniel Filho, fiscal agropecuário, considerado o líder da organização criminosa. Como explicar?

Uma parcela do dinheiro da propina servia para financiar campanhas políticas, como expôs Moscardi Grillo. “Uma parte do esquema criminoso dos agentes fiscais ajudava em campanhas políticas ligadas ao PMDB e ao PP. Isso é bem comum ao longo da investigação. Não foi aprofundado porque o nosso foco era saúde pública, corrupção e lavagem de dinheiro”. Mas não significa que não será.

A SAFRA DE OURO
No final do mês de fevereiro, uma carta de revés veio como recado da BR-163 para o Brasil e suas jogadas. Mais de três mil caminhões carregados de soja ficaram atolados na estrada e desafiaram a chamada “safra recorde”. A soja que saiu do Mato Grosso em direção aos portos do Norte já tinha endereço e dono, contratos e prazos a cumprir, mas as péssimas condições de estrada transbordaram seus problemas em lama. Produtores cobram o Governo Federal, que mais uma vez, em mais uma área e circunstância, tem de lidar com as decisões tomadas pensando num curto prazo.

A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estima que a safra de grãos de 2016/2017 seja uma das mais promissoras. A partir do 6.º Levantamento, divulgado no dia 9 de março, estima-se que a colheita seja de 222,9 milhões de toneladas, com aumento de 19,5% em relação à safra anterior. A soja, produto mais exportado pelo Brasil, registrou recorde de 103,8 milhões de toneladas e a estimativa é que chegue a 107 milhões de acordo com o IBGE, alcançando um aumento de 11%. Segundo a Secretaria Estadual da Agricultura e Abastecimento, o aumento e o recorde dessa safra são resultado do investimento dos produtores em tecnologias avançadas, contrariando qualquer crise.

O tempo e a crise foram driblados e a esperança é de que o clima geral continue assim. Acreditando no grande consumo de continentes como a Ásia, que detém dois terços da população mundial e comanda a compra desses produtos, os ventos se mostram favoráveis.

A China, como uma potência em crescimento, aumenta cada vez mais o consumo, priorizando e elevando os benefícios de venda para o Brasil.

Mas como nem tudo são flores, nosso país não se encontra preparado para dar conta de toda essa procura. Apesar dos investimentos tecnológicos dos produtores, o país não possui uma total estrutura e logística para lidar com a demanda. Sem colocar na mesa a demanda política e ambiental.

Desmatamento “compulsório”, degradação do solo do país, esgotamento da água, cuidado com terras e tribos indígenas, etc. são temas impossíveis de fugir quando o assunto é o agronegócio. Inclusive, devia ser pauta prioritária entre os empresários e o Poder Público. Mas como se sabe, para nenhum desses lados há importância.

BANHO DE LAMA
Para exemplificar toda essa falta de estrutura, no final do mês de fevereiro a BR-163 deu um banho de lama nos caminhões que por ali passavam carregando parte da supersafra. A BR que liga Cuiabá, no Mato Grosso, a Santarém, no Pará, é uma das rotas mais importantes para o transporte de soja, uma vez que é exportada pelos portos da região Norte do país. Infelizmente, 85% da BR-163 encontra-se não asfaltada na região paraense. A chuva começou e criou filas de caminhões atolados, que por lá ficaram mais de dez dias. Sem ter para onde correr.

Em entrevista ao Jornal Nacional, um caminhoneiro destacou o quão abandonados ficaram na estrada. “Você fica no meio da estrada correndo perigo de ser roubado, de ficar doente e morrer.” Cerca de 5 mil caminhões ficam retidos em trecho não pavimentado da BR-163.

Sem contar que o tempo parado é dinheiro perdido. Tudo custa. O navio ficar parado no porto de Santarém custa, é preciso pagar a demurrage, uma multa aplicada aos navios por não saírem do porto na data prevista. Segundo Sérgio Mendes, presidente da Anec (Associação Nacional dos Exportadores de Cereais), os prejuízos podem chegar a quase meio milhão de dólares por dia. “São 20 mil dólares/dia. Havia cinco navios esperando, que somam 100 mil dólares/dia. Se acrescentar o custo de elevação, 30 toneladas/dia a 10 dólares a tonelada, são 300 mil. Mais os 100 mil dos navios, totaliza-se 400 mil dólares/dia”, contabiliza.

“Dinheiro que estava na mesa, de uma grande colheita, está indo para o ralo, nos buracos das estradas. Dá pena de ver”, lamentou o ministro da Agricultura, Blairo Maggi. O analista França Junior, que presta consultoria na área, descarta a possibilidade de perda da soja encalhada, já que o produto resistiria pelo menos um mês dentro dos caminhões sem estragar. A situação não deve afetar o mercado como um todo, na percepção do especialista. Para ele, o discurso de Maggi pode ser interpretado apenas como uma pressão política para a resolução do problema.

“Não sendo molhada, a soja aguenta bastante tempo. O prejuízo será em relação ao frete. Para o produtor local, levar a soja até o Pará teria um custo menor, mas, como não dá para contar com essa rodovia, ele terá de gastar mais para transferir o local do embarque” garante.

O governo do Mato Grosso, vendo o prejuízo imediato de R$ 50 milhões com sua safra correndo lama abaixo, cobrou do Governo Federal providências pela falta de estrutura da BR-163. O Estado garante ser responsabilidade do DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte), setor do Governo Federal, que informou dar conta da emergência. Depois de mais de dez dias com a estrada parada.

A caótica situação vai durar até maio, quando o período de mais chuva na Amazônia termina.

Os produtores redirecionam partes da safra para os portos do Sul e do Sudeste, caminhões dão meia-volta e navios que já esperavam no Norte vêm para o Sul. Contratando novos serviços, os produtores transferem produtos para o Porto de Paranaguá, por exemplo, que, apesar da sobrecarga, terá aumento da importância no trânsito da safra.

ESTRADAS CAPENGAS
A BR-163, cenário do maior transtorno da última safra, foi uma construção do período da Ditadura Militar. Sob o lema “Integrar para não Entregar”, com objetivo de ocupar a região amazônica na década de 1970, foi construída a rodovia, parte do Plano Nacional de Integração (PIN).

Ela é fundamental para o escoamento da soja plantada no Mato Grosso, pois é muito mais barato levar o grão do Mato Grosso até o Pará do que até Santos, por exemplo. Com a redução do transporte, o preço fica mais competitivo no cenário internacional, principalmente em relação aos Estados Unidos, o grande exportador de soja do mundo.

Essa rodovia não é a única que se encontra em péssimas condições. Pelo Brasil afora é possível ver esses malfeitos. A Transamazônica (BR-230), conhecida como “obra faraônica”, é a terceira maior rodovia do Brasil e parte dela ainda não se encontra pavimentada. Também foi uma criação do período militar. A conhecida “rodovia da morte”, DF-001, perto de Brasília, não assusta só pelo apelido, é real o assombro ao ver sua situação. Desnível, remendos, placas escondidas etc. A GO-436, em Goiás, uma das principais rotas da safra, é infestada de buracos, o que dificulta e diminui o fluxo de caminhões que carregam a mercadoria.

Exemplos não nos faltam, muitas também são as cobranças ao Governo Federal. Que, por sua vez, está atolado e tem uma longa estrada pela frente.

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