Greca contra Curitiba

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Desde a posse, o prefeito vem tomando uma série de medidas, calçadas em programas e leis, que sufoca a vida cultural da cidade

O filósofo francês marxista Henri Lefebvre disse que o direito à cidade é inalienável. Não se pode vender, tampouco abrir mão de tê-lo. Nem se poderia boicotá-lo, privar sua existência. Mas Lefebvre percebeu que as práticas da e na cidade tornaram este direito, “tomado em toda a sua amplitude, utopiano”. Para ele “É óbvio que só um grande crescimento da riqueza social, ao mesmo tempo que profundas modificações nas próprias relações sociais (no modo de produção), pode permitir a entrada, na prática, do direito à cidade e de alguns outros direitos do cidadão e do homem.”

Embora isto pareça conversa de marxista, sua conclusão é óbvia – e é indiferente o lado da tribuna que se ocupa –: enquanto houver pobreza, o direito à cidade será utopiano, assim como parece ser a extinção da pobreza.
Porém, isto não impede que mesmo onde não há a pobreza o direito à cidade seja boicotado. Assim o faz Rafael Greca desde que tomou a caneta às mãos. Logo ele, que tem desaprovação de 54,8%, de acordo com pesquisa divulgada em março pelo Paraná Pesquisas. Mais que isso: em 60 dias de governo, 58,6% dos curitibanos conheciam alguma medida negativa que Greca tinha tomado.

Tudo começou com a Oficina de Música. Cancelada, em suas palavras “suspensa”, seria remarcada, ainda não foi. Justificou que a prioridade era destinar verba para a saúde e a Gazeta do Povo desmascarou o número: Greca teria que pôr R$ 900 mil na Oficina. Das informações não confirmadas, chegou uma que ele ouviu de um grupo de músicos que têm uma ideia diferente, eis: separá-la em várias pequenas oficinas durante os doze meses do ano. Isso parece querer transformá-la em política pública de cultura, sendo que não é isso.

Argumentou-se que Rafael Greca foi demagogo, tentou ecoar na cidade o discurso da saúde, o que mais importa, pois ninguém consegue ouvir música com dor de ouvido. Pegou um dos pilares do bem-estar social, agarrou-se a achar que teria apelo popular. E, assim, silenciou o mês de janeiro. Acabou com os concertos, com as oficinas, com o intercâmbio cultural tão rico nesta cidade tão pobre. 60,9%% desaprovaram a suspensão da Oficina de Música, que há 35 anos era realizada no começo do ano.

(Considerando que Rafael Greca optou por deixar de fazer a Oficina de Música – que ainda está sem data, é bom sempre lembrar –, fica a pergunta ao presidente interino da Fundação Cultural, Marcelo Cattani: Quando será, sem meias palavras? Para investir em saúde, espera-se uma melhoria significativa e imediata, tem que ser imediata, pois se não destinaram R$ 900 mil para a cultura porque a saúde era mais importante, imagina-se que com tal quantia faça-se o que precisa ser feito. De antemão os cidadãos já respondem: a saúde continua igual dantes − filas, exames que demoram, remédios que não chegam. A Banda B relatou inúmeros casos e em todos a prefeitura responsabilizou a gestão anterior. Portanto, aparentemente, o cancelamento foi um erro.)

Depois deste descalabro, Greca ficou incomodado com o movimento da Vicente Machado, região que conglomera vários bares e boates e também o seu apartamento. Para poder ter o sono dos “justos”, inventou o programa “Balada Protegida”, que tem a aprovação de 60,5% da população. Poderia ter começado por outras regiões, como o Largo da Ordem, a Avenida Batel ou a Trajano Reis, ter dado uma disfarçada, mas não. Alguns bares da Vicente Machado foram fechados. Se não bastasse, o prefeito anunciou as pulseirinhas: “Fitas verdes no pulso de quem está limpo e vermelhas no pulso de quem não pode dirigir. Hoje ninguém será preso, só educado”, disse Greca, em seu perfil na rede social Facebook.

No dia desta postagem, 19 de janeiro, para operar a Balada Protegida, que visa à educação de acordo com o prefeito, precisou de 50 pessoas da Guarda Municipal, Setran, Secretaria Municipal da Defesa Social, Secretaria Municipal de Urbanismo e Secretaria Municipal do Meio Ambiente. Estas 50 pessoas educaram 26, o número de participantes que recebeu as pulseirinhas.

(Num dos dias, o prefeito divulgou a imagem de adolescentes que estavam com simulacros e facas, em seu perfil, chamou-os de “elementos” e esqueceu que existe o ECA – Estatuto da Criança e do Adolescente –, que não permite a divulgação de fotografias. Usando em seu Facebook a hashtag CuritibaVoltaASerCuritiba, estava todo orgulhoso e possivelmente satisfeito em poder dormir, mas depois teve que ceder explicações e disse que a assessoria foi orientada a não permitir mais casos como esse. O artigo 247 do ECA prevê multa de três a 20 salários mínimos para quem expõe adolescente a quem se atribui ato infracional.)

De maneira um tanto arbitrária, o prefeito está impedindo a democratização, ainda que num sentido restrito, do espaço público, que deve ser ocupado pelo público, cada vez mais limitado, pois Greca não parou por aí.
Vamos adiante.

CARNAVAL? NÃO!
Diz-se que somos órfãos de carnaval e de seu espírito. Os desfiles das escolas de samba aqui em Curitiba não são sucesso de público e crítica e os curitibanos sequer conhecem os nomes das escolas que tomam a Avenida. A prefeitura decidiu reduzir a verba e foi apoiada por 70,3% da população. Faz sentido? É um debate complicado, pois em última instância está a fazer o mesmo que fez com a Oficina de Música, cortou verba da cultura. O que não é um debate complicado é a tentativa de Rafael Greca tentar cancelar o pré-carnaval de Curitiba coagindo a organização mediante a retirada de apoio.

Lefebvre disse: “Existe a fala da cidade: aquilo que acontece na rua, nas praças, nos vazios, aquilo que aí se diz.” E enquanto Greca tentava boicotar o pré-carnaval, a cidade já falava a sua língua, ele já estava a acontecer.

Itaercio Rocha, músico, compositor, carnavalesco e o coração do bloco Garibaldis e Sacis – responsável por institucionalizar o pré-carnaval na agenda da cidade – acredita que não dá para personificar no prefeito e nem se trata de boicote, o problema é institucional. “As instituições em Curitiba têm como premissa que a ocupação do espaço público é um problema, esquecendo que o espaço é público e que este uso gera economia. Gera grana para a administração. Pensando que em um evento que leva 40 mil pessoas para a Marechal, por exemplo, 30 mil usam transporte urbano, a R$ 4,25, quanto de grana circulou? Desta grana, quanto volta para os cofres públicos, sem se falar em farmácias, restaurantes, lanchonetes, bares, táxis, hotéis, produtores de refrigerantes e bebidas em geral?”

Itaercio vê que os órgãos públicos responsáveis pelos grandes eventos “sempre partem do ponto de vista da repressão”. E sobre os casos citados acima, como o fim da Oficina, o programa “Balada Protegida” e os problemas no Carnaval deste ano, o carnavalesco encara como se já fosse esperado. “A cidade elegeu esta gestão de forma bastante calorosa – tem uma sociedade pesada e várias instâncias de poder que apoiam tudo isto. Tanto o governo municipal quanto o estadual construíram isso. A ideia destes partidos é esta, né? Ao que parece, nada novo.”
“Esta gestão tem uma porrada de ‘justificativas’ e ‘desculpas’ para agir assim e a mídia reforça que eles estejam certos”, conclui.

NA RUA, NÃO!
Na rua não pode, informou a prefeitura ao Bar do Fogo, localizado na Rua São Francisco, a mesma rua que teve um restaurante fechado após o dono denunciar os traficantes que tomam conta da região. A questão é que a prefeitura está calçada na lei, o Bar do Fogo fazia música na rua, algo que se tornou “tradicional”. Porém, de acordo com a lei 10.625/2002, é proibido o som sem isolamento acústico.

“Eventos ao alcance de todas as pessoas, ali, na rua, para quem quisesse dar uma passadinha ou parar e conhecer de perto o trabalho de quem faz a música dessa cidade. (…) Quando começamos a movimentar nossas noites com atividades musicais, tudo rolou de maneira espontânea. Um bar e uma rua que transpiram cultura inspiram movimentos como vimos nascer e florescer por aqui. É muito triste que uma cidade como Curitiba somente autorize atividades musicais se estas estiverem entre quatro paredes e a portas fechadas. Toda e qualquer expressão musical aberta, livre e acessível sempre terá nosso apoio”, estas foram as últimas palavras do bar antes de encerrar as atividades musicais, após as exigências de Greca.

O dono do bar O Torto, Arlindo Ventura, concorda com a prefeitura e defende os moradores, mas acredita num meio-termo. “Acho que a solução é todo mundo fechar à meia-noite, como acontece em alguns lugares do mundo. Mas eu não posso fechar a esta hora e o boteco do lado continuar vendendo. O morador quando reclama aqui do meu bar tem razão, mas também é necessário o equilíbrio. Não podemos matar a vida noturna de uma cidade.”

Para ele, um dos grandes males na noite curitibana são as distribuidoras, pois vendem no varejo com um custo bem mais baixo. “Só não tem uma distribuidora aqui na frente do meu bar porque não tem onde abrir”. A prática é a seguinte: as pessoas compram na distribuidora, bebem em frente aos bares e depois entram, já bêbadas, nas baladas.

* * *

É claro que a cidade não pode virar uma grande zorra e carece certa ordem. Mas não pode também querer torná-la um local imaculado, fazer dela a “nora perfeita” ou o “genro católico”. Ela manifesta-se e pulsa. Aparentemente Rafael Greca pretende calar Curitiba, matar uma cidade que já está na UTI; quer transformá-la num lugar que vive sob ares-condicionados. Ou então, mantê-la com as rédeas firmes, beber e se divertir apenas onde o prefeito permitir.

Isto pode não significar nada ou atingir uma parcela muito pequena da população curitibana, já que apenas 1,9% citou a Oficina de Música como uma falha em seu governo ou 3,7% a Balada Protegida. Mas 88,1% desaprovaram a alta da tarifa e 75,3% acham que ela poderia ser evitada. Greca tem a indisposição ampla e geral. Apenas 13,7% acham que o prefeito está se saindo melhor que a encomenda.

Lefebvre já disse que não é possível dominar uma cidade, pois “Existe a fala da cidade: aquilo que acontece na rua, nas praças, nos vazios, aquilo que aí se diz. Existe a língua da cidade: as particularidades próprias a uma tal cidade e que são expressas nas conversas, nos gestos, nas roupas, nas palavras e nos empregos das palavras pelos habitantes. Existe a linguagem urbana, que se pode considerar como linguagem de conotações. Finalmente, existe a escrita da cidade: aquilo que se inscreve e se prescreve em seus muros, na disposição dos lugares e no seu encadeamento, em suma, o emprego do tempo na cidade pelos habitantes dessa cidade.” E Rafael Greca não vai conseguir suprimir isto tudo. Fechando bares ou não, cancelando carnavais ou não, “protegendo” baladas ou não.

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