Recuerdos de Carnaval

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O carnaval ficou tão distante desses dias que vivemos hoje que parece que foi ano passado. Mas com a folia beirando o mês de março não houve jeito de tratar do assunto na edição passada. Por isso, leitores, peço licença para esse texto micareta.

A observar de longe àqueles dias intensos algumas coisas têm que ser ditas. A primeira delas, é nossa consagração total de cidade anti-carnavalesca. Ao longo da história, Curitiba deu uma série de provas de que é ruim da cabeça e doente do pé. Há exceções? Sim, e todas confirmam a regra. A nossa sensação no assunto foi o bloco Não Agite, surgiu lá em 1949 por conta de um grupo de amigos que queria sair do salão e ganhar as ruas. O nome dá esse tom irônico, cheio de humor e fidedigno. O tempo passou, outras manifestações, escolas, blocos entraram e saíram de nosso calendário de fevereiro e conhecemos aquela gente linda do Garibaldis e Sacis, que no começo serpenteava com meia dúzia de gatos pingados pelas calçadas do Centro Histórico, a fazer pré-carnaval. Ganharam corpo, adeptos, temas, fantasias. Ganharam multidão e isso complicou tudo, teve briga, intromissão política, regras e eles acabaram voltando para as origens: mais simples e independente no fazimento da folia.

Pois bem, Curitiba, que tem dificuldade para aceitar sopros que mudem sua turrice intrínseca, sabe-se lá por qual motivo, foi tema de escola de samba de São Paulo, grupo especial. A Nenê de Vila Matilde calculou mal. O empresariado da cidade não aderiu à homenagem e não abriu a carteira. A Fundação Cultural não facilitou contatos. Poucos artistas desfilaram e o samba-enredo foi tão fraco que nem nosso vampiro de estimação apareceu nele – o que de fato combina, imagina alguém a gritar na avenida: “ah porém, a cidade tem vampiro / é a alma do retiro / envolta em seus papiros…”. Mas ainda assim, é difícil imaginar uma homenagem a Curitiba dentro do campo da cultura que não se refira a Dalton Trevisan.

O que aconteceu com essa escola que ousou provocar nosotros? Foi desclassificada, caiu pro segundo grupo. Não dá pra mexer com coisa séria, Curitiba é pinhão na chapa, vida dentro de casa, nada de exibicionismo na avenida.

RIO DE JANEIRO

Que coisa bonita a Portela a misturar o manto azul com o dourado do primeiro lugar. As águas que ganharam o sambódromo empolgaram muita gente e foi emocionante. A Águia nasceu em 1923, no bairro de Oswaldo Cruz, naquele momento, ao lado da Deixa Falar e da Mangueira, iniciava o lance das Escolas do carnaval carioca. Foi a primeira a ter alegoria, a primeira a apresentar samba enredo, a primeira a combinar fantasias ao samba, a primeira a formar comissão de frente. A velha guarda é das instituições mais bonitas que a música do Brasil tem. É muita tradição! E por isso mesmo, pra lá de emocionante vê-la novamente no pódio.

Outro momento que mistura os mesmos sentimentos foi a subida da Império Serrano pro grupo especial. Aí sim!, cada coisa em seu lugar. A Verde e Branca de Madureira voltou para onde nunca deveria ter saído depois de ter tratado do Pantanal na avenida. Maravilha de cenário, um episódio relicário!

SALVADOR
O Carnaval de Salvador é imenso e intenso, como sabemos. Se duvidar muito ainda pode estar rolando pelas ladeiras do Pelô ou no caminho do Farol da Barra até Ondina. Apesar de ter incríveis pormenores, é preciso deixar tudo dentro da caixinha da admiração e parabéns e pinçar de lá o furacão Ivete Sangalo. Que mulher é essa, minha gente? Na quinta-feira e no sábado de carnaval, segurou por mais de seis horas dois trios em Salvador. Homenageada da Grande Rio, foi para o Rio de Janeiro no domingo, desfilou abrindo a parada, comissão de frente, dança, coreografia, fantasia; quando a Escola chegou ao final da avenida, pegou uma carona, voltou ao início do sambódromo, subiu no último carro e refez o desfile. Um dia depois já estava de novo em cima do trio elétrico, saracoteando e cantando, arrastando multidão com bom humor e simpatia – trabalho é trabalho. Mas quando suas obrigações chegaram ao fim, ela se enfiou na cama? Não, nada disso. Chamou os amigos, vestiu fantasia e se transformou em foliã anônima nas ruas de Salvador. É uma vontade de festa que ultrapassa minha compreensão, mas que, preciso reconhecer, é sublime. Ivete Sangalo já havia superado expectativas com o circuito profissional Salvador-Rio-Salvador, mas quando aproveitou seu dia de folga para se esparramar na folia foi além de tudo e trouxe de volta aquela natureza que deveria estar na raiz de todo artista: ele tem que amar o que faz.

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