Reflexões sobre a violência

simoes

A espiral da violência e da criminalidade (que nem sempre constituem uma explosão desenfreada do irracionalismo humano, mas são, muitas vezes, uma erupção dramática, provocada por carências sociais irreprimíveis), atinge patamares simplesmente inquietantes. Não há como evitar essa constatação: os meios de comunicação de massa se encarregam de nos oferecer, quotidianamente, imagens dramáticas dessa realidade sombria.

Assim, enquanto os psicólogos examinam, com base em complexas teorias comportamentais (e psicossociais), as causas determinantes do fenômeno deletério, que embora universal, assume entre nós particular intensidade, os índices estatísticos que o documentam chegam a revelar-se assustadores.

Enquanto os sociólogos estudam, à luz dos princípios e das leis que regem a mecânica social, as injunções e as variáveis que condicionam e estimulam o processo, a violência prospera e a criminalidade intensifica-se em todas as latitudes.

Enquanto os educadores se debruçam, compenetrados e atentos, sobre o universo rico e multiforme da criança e de toda a vasta problemática que dele emana, a delinquência juvenil extravasa perigosamente todos os diques e comportas, e novas safras de menores abandonados ou carentes se incorporam a cada instante às legiões da marginalidade, um dos cânceres urbanos do nosso tempo.

Enquanto os políticos fazem discursos veementes (onde a retórica assume a forma das catedrais góticas) denunciando a terrível situação e clamando por medidas saneadoras, a escalada aterradora parece recrudescer de intensidade.
Enquanto as autoridades responsáveis, aturdidas e impotentes, discutem fórmulas, debatem táticas operacionais e metodologias estratégicas, a espiral sinistra, feita de furtos e assaltos, de agressões e contravenções de toda a espécie, de mortos e feridos, atinge um novo patamar. Em face desse quadro conjuntural quase desesperador (e mais do que conjuntural ele cada vez mais parece estrutural), com os traços fortes de um “Guernica” picassiano e as cores patéticas de um Van Gogh, generaliza-se, em todos os quadrantes, a inquietação. A angústia, a perplexidade, o medo – quando não o luto – tomam conta da população sobressaltada, que se sente possuída, no mais fundo da alma, por uma sensação dramática de impotência irremediável.

O diagnóstico do mal – autêntica epidemia – não é difícil. O caldo de cultura onde proliferam os germes mortais é feito de causas sociais e econômicas bem conhecidas. A começar pelo crescimento demográfico desordenado, incontrolado, que se verifica predominantemente nas faixas mais pobres da população, nos estratos e segmentos sociais onde o fantasma da miséria é mais nítido e tangível. Outra causa fundamental foi a urbanização crescente das últimas décadas, provocada por migrações internas, onde o êxodo rural desempenhou – e desempenha ainda – um papel preponderante. Outras causas decisivas são o desemprego, o subemprego, os baixos salários, as péssimas condições de habitação, de saúde e de educação, os desajustes familiares, a proliferação do alcoolismo e da toxicomania, et cætera. Mas, se o diagnóstico e a etiologia da doença são relativamente fáceis e vêm sendo expostos com frequência, outro tanto não acontece com a terapêutica, que provoca manifestações desencontradas. Aí é que as dificuldades surgem.

Mas não andaremos muito longe da verdade se afirmamos que a solução do gravíssimo problema passa por duas áreas vitais: a econômica e a educacional. Não há dúvida que são as carências econômicas e as deficiências educacionais que estão na raiz da violência e da criminalidade, esses látegos terríveis que fustigam as espáduas de uma sociedade aflita. É para essas duas áreas que devem se voltar com urgência – e com intensidade – os esforços governamentais.

Há sintomas de que isso vai acontecer ou já está acontecendo. Uma coisa é certa: não será com paliativos e emolientes, analgésicos e anestésicos, que deteremos a progressão insidiosa do câncer da violência no seio do organismo social. A verdade é que o nosso país vive hoje um momento histórico particularmente adequado para que soluções heroicas – não apenas saneadoras, mas, sobretudo, salvadoras – sejam tomadas. Urge combater os exércitos que atacam a sociedade quase indefesa. Começando por desarmá-los, por eliminar as razões da própria luta. Só assim o ideal maior da paz e da tranquilidade será atingido pela sociedade brasileira. Uma sociedade basicamente pacífica e generosa que exorciza com vigor todas as formas da violência, esse espectro demoníaco fundamentalmente antissocial. Anti-humano. É imperativa a sua erradicação. Quæ sera tamen.

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