Render-se a Haydn

erudita

Há quem não tenha Karajan entre seus afetos no mundo da música. Pois bem: eu, que tinha má impressão das suas conduções, fui surpreendido por duas coisas em sua interpretação: a sensação de imensidão dominada pelo som que aqueles tempos lentos passavam e a absoluta sincronia das cordas. A elegância aplicada aos minuetos os tornou devidamente aristocráticos. Os sopros transbordavam por todas as direções. Parecia que o regente queria nos dizer que não importava o quanto aquela exposição – ora possante, ora compassadíssima – duraria, ou seja: a música nunca deve se curvar às contingências; todos os seus recursos devem ser explorados irrestritamente. O caráter de cada movimento é efetivamente respeitado: enérgico ao que deve ser enérgico; suave ao que assim deve se expressar.

Enfim, aconteceu o inevitável: passei a adquirir tudo o que Karajan havia feito em Haydn. O impacto dessa descoberta foi tal que redirecionou minha atenção à obra sinfônica do compositor, com novo ânimo e uma atenção redobrada à importância daquele imenso colosso musical. Aqui estou, ouvindo as sinfonias parisienses, após várias aventuras em outras gravações, confirmando definitivamente que o lendário Herr Direktor continua intocável no topo das recomendações. Para se ter uma ideia da importância do álbum, disse o musicólogo Howard Chandler Robbins Landon, maior especialista em Haydn, na publicação The Haydn Yearbook:

As sinfonias foram compostas em 1785 e 1786 para uma grande orquestra parisiense (talvez a maior da Europa) chamada Le Concert de la loge Olympique, que reunia alguns dos maiores músicos da França. Incluía um grande e versátil conjunto de sopros, 40 violinos e 10 contrabaixos – o conjunto musical de Haydn em Eszterháza tinha 25 membros no total. De acordo com Robbins Landon, os músicos vestiam esplêndidas casacas na cor azul-celeste, com elaborados babados em renda e espadas ao lado.

Eles se apresentavam nos famosos Concerts Spirituels, o mais importante evento de concertos de Paris na época. Aliás, foi para um desses eventos, em 1777, que foi encomendada a célebre sinfonia nº 31 de Wolfgang Amadeus Mozart (1756-1791), por ocasião da última estada deste na capital francesa – ficando a obra conhecida como Sinfonia Paris. Os Concerts Spirituels eram uma iniciativa da loja maçônica Olympique, que contava com a proteção da rainha Marie Antoinette (1755-1793), ou Maria Antonia Josefa Johanna von Habsburg-Lothringen – austríaca de nascimento, como Haydn, e reconhecida amante da música.
Jean e Brigitte Massin comentam que um crítico do jornal parisiense Mercure de France, depois de ter ouvido as Sinfonias Paris em 1787, observou com admiração que, enquanto tantos compositores tinham necessidade de vários temas para construir um movimento de sinfonia, um único tema bastava a Haydn. Esse grande gênio, em cada uma de suas peças, sabe construir desenvolvimentos tão ricos e variados a partir de um único tema (sujet) – muito diferente daqueles compositores estéreis, que passam continuamente de uma ideia para outra por não saber apresentar uma ideia em variadas formas.

O musicólogo Charles Rosen complementa da seguinte forma: Não há uma passagem, mesmo a mais séria, dessas grandes obras que não seja marcada pelo humor de Haydn, e seu humor cresce de forma tão poderosa e tão eficiente que se torna uma espécie de paixão, uma força ao mesmo tempo onívora e criativa.

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