À beira de um ataque de nervos

janot

A divulgação da lista de Janot causou estragos profissionais e emocionais nos políticos de alto e baixo coturno de todo o país. Não há quem não tenha sido atingido, direta ou indiretamente. A lista de centenas de nomes alcançou todos os partidos, políticos de todos os estados e não poupou muita gente. O impacto foi grande e além de causar distonia, depressão e ansiedade, colocando todos os políticos à beira de um ataque de nervos, deverá modificar radicalmente o quadro das disputas eleitorais de 2018, quando a depuração estará feita.

Hoje, ninguém consegue dizer que partidos ou lideranças restarão, com raras exceções. “Entre os casos que vão ao Supremo e os que ficam aqui em Curitiba, eu calcularia que em torno de até 350 novas investigações vão começar”, diz Carlos Fernando Lima, procurador da Lava Jato. É uma penca graúda de figurões da política que não escaparam às delações sobre a corrupção investigada pela Lava Jato. Não se pode dizer que a surpresa foi grande. Os nomes divulgados eram há muito comentados. Boa parte daquele tipo de político que já passou por escândalos ou que tem folha corrida na polícia.

É claro que muitos têm como e podem se defender. Mas o estrago político, a deterioração da imagem pública, é quase irrecuperável. Se hoje político passou a ser sinônimo de desonesto na cabeça dos brasileiros, imaginem o que acontece com político indiciado ou sob suspeição na Lava Jato. É execrado. Tudo se agrava com o confronto natural. Tudo vira guerra de babuínos, um tentando jogar excrementos no outro. E para aumentar a paúra dos políticos, o projeto do senador Alvaro Dias, que extingue o foro privilegiado para parlamentares e governantes com mandato eletivo, tem apoios suficientes para desaguar no plenário do Senado. Acaba com um privilégio com que muitos dos indiciados contam para se proteger.

No Paraná, a Lava Jato tinha alcançado figuras do PT, como o ex-deputado federal André Vargas, preso, e a senadora Gleisi Hoffmann, delatada por receber dinheiro de caixa dois para a sua campanha. Arrastou com ela o marido, o ex-ministro Paulo Bernardo, que chegou a ser preso. Agora, o governador Beto Richa está na lista de Janot e a oposição procura com isso acabar com a sua imagem. Ele negou, em entrevista, que recebeu dinheiro da Odebrecht para a sua campanha eleitoral. E afirma que o dinheiro recebido pela sua campanha foi integralmente declarado. “Acredito que assim como vários outros investigados já tiveram seus processos arquivados, que o meu processo terá o mesmo destino”, disse Richa, que contratou advogado para defendê-lo e diz que provará que todos os seus atos são lícitos. Ele apareceu ao lado de outros 21 políticos em lista que Rodrigo Janot teria encaminhado ao Supremo Tribunal Federal. É verdade que as pessoas citadas não podem ser consideradas culpadas de delito algum. Dependendo de decisão do relator da Lava Jato, serão investigadas e, havendo fundamento, transformadas em rés, que nessa condição passarão a ser julgadas para, finalmente, serem declaradas inocentes ou culpadas. Até então todos os inicialmente suspeitos estarão resguardados pelo princípio da presunção de inocência, fundamento essencial de um sistema penal civilizado.

O certo é que teremos boa parte das figuras políticas a dedicar boa parte de seu tempo a se defender. Dois ex-presidentes, Lula e Dilma; pelo menos cinco ministros de Estado do governo Temer – Eliseu Padilha, Moreira Franco, Aloysio Nunes, Bruno Araújo e Gilberto Kassab –; os atuais presidentes do Senado Federal e da Câmara dos Deputados – Eunício Oliveira e Rodrigo Maia –; pelo menos quatro ex-ministros dos governos petistas – AntonioPalocci, Guido Mantega, Edison Lobão e Romero Jucá; pelo menos dois líderes tucanos – os senadores Aécio Neves, presidente do PSDB, e José Serra. Além desses 15 expoentes da representação multipartidária que integram a seleção feita pelos delatores da Odebrecht, dezenas de outras figuras de menor expressão fazem parte do time que levou o procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a solicitar ao ministro-relator da Lava Jato no Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin, a instalação de 83 inquéritos apenas no âmbito da Suprema Corte, além de sugerir o encaminhamento de 211 outros processos a instâncias inferiores.

Mas é preciso considerar que esta lista é o resultado das delações premiadas de mais de 70 executivos da Odebrecht, apenas uma das grandes empreiteiras com o rabo preso na Lava Jato. Muitas outras virão. Quantas? Quantos? Onde vai acabar? Tem razão a senadora Gleisi Hoffmann ao dizer que se abriram as portas do inferno. Para ela e para os demais indiciados, especialmente. É trágico. A constatação de que figuras poderosas que há mais de uma década conduzem os destinos do País são suspeitas da prática generalizada de atos lesivos aos interesses dos brasileiros é mais do que suficiente para demonstrar a urgente necessidade de uma profunda revisão dos fundamentos do sistema político.

Apavorados com a perspectiva de acabar na cadeia a exemplo de ex-poderosos, como AntonioPalocci, Delcidio Amaral e José Dirceu, senadores e deputados de praticamente todas as legendas estão mais preocupados em salvar a própria pele do que em fazer sua parte na discussão e aprovação das reformas necessárias para sanear as contas públicas e criar condições para tirar a economia da recessão, de modo a garantir emprego e renda para os brasileiros. A obsessão no momento entre os parlamentares é criar mecanismos que lhes preservem mandatos. Vale tudo, desde a anistia de crimes eleitorais como o caixa 2 até a adoção da famigerada lista fechada de candidatos. Só não vale, pelo menos neste momento, pensar numa reforma política séria, que faça o Brasil transitar do sistema oligárquico para uma democracia compatível com o século 21.

Como ocorreu na Itália em 1992 em um caso de corrupção político-empresarial com muitas semelhanças com a situação atual do Brasil, que levou à prisão 800 pessoas e varreu os grandes partidos da República —, as forças políticas brasileiras estão a se organizar na tentativa de se salvar do dilúvio. Na Itália eles conseguiram, com uma série de leis do Congresso, paralisar a ação regeneradora dirigida pelo juiz AntonioDiPietro. E deram um jeito de aprovar uma espécie de indulto aos condenados. O resultado final não foi dos melhores, já que o desaparecimento dos políticos e dos partidos afundados pela corrupção deu margem à ascensão do bilionário Silvio Berlusconi, que acabou governando por 20 anos, deixou uma herança que os italianos chamam de “maldita” e ainda tem assuntos pendentes com a Justiça.

Difícil fazer profecias. Algo, entretanto, começa a parecer claro: sem fazer meia dúzia de reformas, o perigo é não só que tudo fique igual, como na Itália, mas inclusive que piore, já que a política brasileira arrasta o peso de uma história onde os valores democráticos são ainda frágeis. Assusta ver o sucesso de candidaturas da extrema direita troglodita, essa que lustra os coturnos com saudade do regime fardão. Jair Bolsonaro é o exemplo mais forte. Tudo prova que é necessária e urgente uma reforma política que acabe com essa anormalidade de dezenas de partidos, que na maioria das vezes servem apenas para se venderem à melhor oferta. É preciso pensar na possibilidade de uma reforma do Estado, ter a coragem de acabar com a Presidência da República para dar lugar, como nas democracias modernas, ao parlamentarismo com a figura de um primeiro-ministro. A Itália nunca foi tão próspera econômica e culturalmente como na época em que os governos duravam uma média de apenas dez meses. Eram a sociedade, o empresariado, a cultura, a classe operária e até a arte que, com sua força criativa, mantinham o país à tona. A grande pergunta é: quem seria capaz atualmente, com autoridade moral e liderança intelectual, de levar a cabo essas reformas? O presidente Michel Temer não tem autoridade nem legitimidade. Os políticos acusados ou condenados por corrupção? Os juízes? Os movimentos sociais? A pressão de uma opinião pública hoje salomonicamente dividida entre gregos e troianos e, ao que parece, sem esperanças de reconciliação? Talvez nenhum desses setores possa sozinho resolver a charada. Talvez a única possibilidade de esperança consista numa milagrosa conscientização dos que sobrarem vivos na Arca de Noé, depois do castigo do dilúvio. O grande dilúvio causado pela Lava Jato.

Leia mais

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *