Editorial. Ed. 186

No Brasil, brotam todos os dias surpresas de todos os tamanhos e para todos os gostos. E não temos a mínima segurança sobre o futuro próximo da política nacional. A cada avanço da Lava Jato, uma nova penca de indiciados em crimes de corrupção. O juiz Sergio Moro abre a boca e a República treme. Pensar que saímos das trevas do regime fardado com o coração cheio de esperanças e de ilusões, certos de que com a Constituinte brotaram leis como se o Brasil tivesse descoberto o reino da social-democracia perfeita: muitos direitos, alguns deveres e a felicidade, o bem-estar e a imortalidade garantidas por lei.

Mas sempre haverá no mundo os desmancha-prazeres a lembrar a velha e antipática máxima de que “não existe almoço grátis”. O pior é que não existe mesmo. Depois de 25 anos de democracia, estamos encalacrados de novo: o primeiro presidente eleito pelo povo depois da ditadura foi afastado por impeachment. Não passava de um aventureiro carreirista que pensava mais em seus jardins do que em seu País. Um malandro falsamente sofisticado, com ares de finório, vulgar como um novo-rico, colecionador de Lamborghinis e uma vocação de estroina.

Vieram os anos de remendos e de reconstrução do Plano Real, quando se tentou construir uma plataforma de relançamento de um país mais responsável e com os pés no chão, assentado sobre uma moeda que tinha deixado de ser a caricatura que foi durante todos os anos em que mudou de cara, de nome e de valor, até virar uma piada de mau gosto, que em 29 anos perdeu 1.142.332.741.811.850% de seu valor. Isso mesmo: um quatrilhão e alguns quebrados.
O patrimonialismo e o populismo tão arraigados na alma brasileira tiveram um breve descanso, até que voltamos de repente aos rios de leite e mel, só que sem leite e sem mel. A jovem democracia relançada menos de 30 anos atrás pegou o atalho errado na encruzilhada da estrada e, já com aparência de velha e caquética, apresenta rugas de senilidade precoce, mergulha num mar de incompetência e chafurda num universo moral mais parecido com o de uma cloaca do que o de um país jovem, cheio de potencial e de um futuro brilhante pela frente.

Os sinais de fracasso estão em toda parte: no Executivo, no Parlamento, no Judiciário, nos partidos políticos, nas universidades, nas escolas, nos vários segmentos sociais atingidos pelo desalento da falta de um mísero sinal de luz no fim do túnel. A crise é política, econômica, social e moral. Profunda. Há mais de 13 milhões de desempregados. Empresas de todos os calibres fecham diariamente e numa velocidade que dá bem a ideia do atoleiro em que nos metemos. A população não confia em nenhum de seus governantes, nenhum de seus representantes.

Para onde vamos? Vamos institucionalizar mesmo um país onde é “a coisa mais natural do mundo” que empreiteiras prestem favor a governantes e ex-governantes e onde fraudar contratos de merenda escolar e enfiar uma parte do dinheiro no bolso é uma prática aceita com um olhar complacente?

Melhor começar de novo. Isto não vai dar certo. Melhor, já não deu certo.

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