Vladimir Lagrange, a America e os Americanos

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Conheci Vladimir Lagrange e sua mulher Nina no dia 17 de julho de 2015. Foi no outro dia ao da abertura da exposição “A União Soviética através da câmera” no Museu Oscar Niemeyer (MON). Naquele dia nasceu uma amizade entre nós, apesar da barreira da língua. Desde aquela data nos falamos pelo Skype. O casal em russo, uma ou outra palavra em inglês, italiano, alemão e gestos, muitos gestos. Carmen Lucia e eu em português, com muitos gestos, uma ou outra palavra em inglês ou italiano. Na comunicação via computador eles escrevem em russo e eu em inglês. Depois é só colocar no tradutor do Google, dar muitas risadas com a tradução e perceber mais ou menos o sentido do quiseram dizer. Na Ideias 170 de dezembro de 2015 publicamos um trabalho que este mestre da fotografia fez num manicômio em Moscou.
Vladimir e Nina estiveram nos Estados Unidos em 2016 onde ficaram mais de um mês. Em fevereiro quando conversávamos pelo Skype fizeram algumas observações sobre a viagem (o que conseguimos decifrar) e mostraram o sexto livro de fotografias do Vladimir de 404 páginas, impresso na Rússia, com o nome de “Amarcord”. O título lembra o filme do mesmo nome do diretor italiano Federico Fellini e que quer dizer “eu me lembro” no dialeto da região de Rimini, terra natal do grande diretor.
Com a dificuldade da comunicação pedi a amiga comum Maria Vragova que falasse com o Vladimir para que ele dissesse em breves palavras as impressões do casal sobre a viagem ao país.
Segue o texto:
“Nunca havia pensado que um dia visitaria os Estados Unidos. Amigos que moram lá e que não os via há mais de vinte anos fizeram o convite. Ficamos uma semana em Nova York e quase um mês na costa oeste, nos estados de Nevada, Arizona e Califórnia. Em Nova York minhas impressões foram lentas, não muito vívidas, foi como eu já tivesse estado lá várias vezes. Já a tinha visto sob muitas formas: no cinema, em exposições e livros de fotografias, na televisão. Enfim, uma cidade muito exposta e muito vista. Quando visitei Brighton Beach me lembrei de um filme com o título “Irmão” com o ator Sergei Bodrov Jr. e direção de Aleksei Balabanov que foi filmado naquela região praieira. É um belo filme cheio do espírito russo mas que dificilmente o público americano entenderia as nuâncias dos diálogos e do humor russos. Este distrito fica na parte sul da cidade de Nova York e tem muitos imigrantes da Rússia, principalmente de judeus que abandonaram a antiga União Soviética. É uma espécie de paraíso provinciano. Penso que se muitos russos não têm ideia do que são os Estados Unidos, e os americanos, muito influenciados pela mídia, detestam a Rússia.
Depois fomos para a Califórnia (Pasadena, Los Angeles e Hollywood, Santa Bárbara, São Francisco), Sedona no Arizona e Las Vegas em Nevada. Passamos também por várias cidades vazias com casas de um só pavimento. Las Vegas é uma Disneylândia para adultos, muito kitsch. Que graça têm ver uma maquete gigantesca da Catedral de São Marcos ou da Torre Eiffel em meio ao deserto e as luzes de Las Vegas quando podemos vê-las em seu habitat natural, em harmonia com a paisagem, em Veneza ou Paris? Senti-me feliz em entrar nos cassinos da cidade e poder fumar um cigarro e fugir dos 42º centígrados das ruas.
São Francisco me impressionou, é uma belíssima cidade, com estilo, não tem as características de uma cidade típica americana. As casas são muito bem cuidadas, bonitas e a ponte Golden Gate impressionante.
Como fotógrafo acho que é muito difícil fotografar a América. Em primeiro lugar porque, desde a invenção da fotografia, foi muito fotografada por grandes fotógrafos tanto americanos como estrangeiros. Como fotógrafo de rua (street photographer) me senti muito tolhido pois muitas pessoas andam de carro. Usei muito a teleobjetiva e, outra frustração, para se fotografar as crianças tem-se que pedir autorização para os pais que são muito desconfiados. Neste meu último livro tenho um capítulo especial sobre os Estados Unidos a que dei o título de “Goodbye America”.
Como conclusão quero citar uma frase do livro dos escritores russos Ilya Ilf (1897-1937) e Yevgeny Petrov (1903-1942) “A América de casas de um só andar” (“One storied America”): “O que é possível falar sobre a América que ao mesmo tempo que aterroriza, espanta, dá piedade e dá exemplos que se gostaria de seguir é que é um país rico, pobre, talentoso e sem talento nenhum. Podemos dizer de uma maneira bem sincera que é muito interessante observar este país mas eu não gostaria de viver lá.” A frase é de 1936.
Vladimir enviou 57 fotos de vários aspectos da sua visita. Não quis fazer uma mistura de assuntos e, então, escolhi retratos de rua. As outras ótimas fotos ficam para uma próxima edição da Ideias.
Agradeço muito a Maria Vragova da empresa Ars et Vita pela tradução do texto do Vladimir.
Para quem estiver interessado em ver as fantásticas fotos (e consiga ler russo) nos 6 livros deste grande mestre da fotografia, segue o endereço do site: www.lagrangephoto.ru.

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