David Carneiro também exibidor

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David Antônio da Silva Carneiro (Curitiba 1904 – 1990) foi historiador, escritor, ensaísta, pesquisador, museólogo, colecionador e professor universitário. Um lado pouco mencionado era o de um cinéfilo apaixonado e empresário cinematográfico. O que motivou sua entrada neste segmento foi a construção de um “arranha-céu” de seis andares, como eram chamados os edifícios na segunda metade dos anos 30, quase em frente ao Palácio Avenida, ao lado do hoje edifício Tijucas. Destinado a ser residencial, foi ocupado por famílias amigas ou escolhidas, e o último andar, como sua ampla residência, provavelmente o primeiro duplex da cidade de Curitiba. O nome do edifício “Heloisa” foi em homenagem a sua primeira filha, falecida prematuramente em razão de uma doença crônica.

Cine Ópera, meados de 1950.

Cine Ópera, meados de 1950.

Carneiro resolveu ocupar o imenso miolo da quadra construindo um cinema, com a entrada pelo térreo do edifício. Investiu num jovem de Paranaguá, Leôncio Aranoski (1915 – 1968), que queria entrar no ramo da exibição cinematográfica, para construir um enorme e luxuoso cinema, porém, em plena guerra, com todas as dificuldades que a época acarretava, como a falta e o atraso na entrega de materiais.

Cine Vitória

Cine Vitória

“Calçada da fama” do cine Vitória.

“Calçada da fama” do cine Vitória.

Apesar dos percalços enfrentados, o cine Ópera foi inaugurado em 16 de junho de 1941, os jornais alardeando uma realização brilhante do jovem Leôncio com sua arquitetura, modernos projetores americanos e sistema de som de altíssima qualidade, 2.400 poltronas em três plateias, sendo a última a “geral” com preços menores, como era comum na época. O filme escolhido: “Tudo isto e o céu também” (All this and heaven too), produção da Warner de 1940 com Bette Davis, Charles Boyer, direção de Anatole Litvak, música de Max Steiner, indicado ao “Oscar” de melhor filme.

Outro fato que causou interesse, ressaltando seu requinte, é que o cine Ópera rompeu o costume de os cinemas colocarem nas cortinas que cobriam as telas anúncios publicitários. Tinha uma linda cortina de veludo vermelho bordada com fios dourados na base que refletiam as luzes da boca do palco, executada com esmero pela esposa do construtor, senhora Renata. Os frequentadores chegavam bem antes das sessões para apreciar a cortina, a decoração e ouvir música. Mas com os inúmeros problemas acarretados no empreendimento, mais a inexperiência do Sr. Leôncio em negociações com as distribuidoras de filmes, acumulou-se dívidas, o que o levou a entregar o cinema ao professor David, apesar do contrato de exploração por vinte anos, e se retirar para Ponta Grossa.

Inauguração do cine Marajó, 1959. Em primeiro plano, à esquerda: Waldomiro Jensen, responsável técnico e montagem dos equipamentos cinematográficos da empresa e gerente do cine Ópera; 2º não identificado, 3º Antônio Morilha do cine Curitiba e Ismail Macedo.

Inauguração do cine Marajó, 1959. Em primeiro plano, à esquerda: Waldomiro Jensen, responsável técnico e montagem dos equipamentos cinematográficos da empresa e gerente do cine Ópera; 2º não identificado, 3º Antônio Morilha do cine Curitiba e Ismail Macedo.

O professor então constituiu a Empresa Cinematográfica David Carneiro, e entregou a administração do cinema a um jovem contador de suas empresas o castrense Ismail Macedo (1918 – 2008). Dinâmico e empreendedor, tomou gosto pela coisa. Introduziu um festival de filmes inéditos, um por dia durante uma semana, que só teriam lançamento depois, abarrotando o cinema em sessões concorridíssimas; lançou as matinadas com sessões aos domingos pela manhã, com desenhos e filmes infantis, que ficaram famosas pelos desenhos do “Tom e Jerry”; também inovou ao contratar mulher para a bilheteria, já que nesta época só homens trabalhavam nos cinemas. Mesmo não tendo sido projetado como cineteatro, em seu pequeno palco aconteceram recitais como o do tenor Beniamino Gigli, eventos como o I Festival de Cinema de Curitiba e edições do “Tribunascope de Ouro”, organizadas por Júlio Neto, João Feder e Henrique Lemanski do jornal “Tribuna do Paraná”.
Em 1949, o professor David Carneiro se mudou para a residência construída na rua Brigadeiro Franco, com os fundos para o seu museu na Comendador Araújo. O edifício Heloisa aos poucos foi se tornando comercial.

No início dos anos 50, Ismail Macedo constituiu a Orcopa, Organização Comercial Paraná e Santa Catarina com dois filhos de Davi Carneiro como sócios, e deslanchou a empresa exibidora, inaugurando diversos cinemas, tendo o professor deixado o negócio de exibição cinematográfica. Iniciou com o cine Arlequim em 1955, no Largo Frederico Faria de Oliveira, nos fundos do Ópera, ainda em terreno do professor David Carneiro. No mesmo ano a Orcopa começou a investir em bons cinemas de bairro: o Cine Guarani, pouco antes da igreja do bairro Portão na República Argentina; 1956 o Flórida na Marechal Floriano; 1959 o Marajó na avenida N. Sra. Aparecida no Seminário; o Oásis, av. Marechal Floriano no Hauer em 1960. Neste mesmo ano inaugurou em setembro o São João, na Des. Westphalen, em terreno da família Bettega, lançando muitas super-produções. jensen-5

Tornou-se um cinema de grande afluência de público. Em 1963, inaugurou com a família Johnscher, o cine-teatro Vitória, na rua Barão do Rio Branco, 1800 poltronas. O filme de inauguração: “Taras Bulba” com Tony Curtis, Yul Brynner, direção de J. Lee Thompson, produção de 1962 da United Artists. Sediou formaturas, concertos e em abril de 64, recebeu uma edição do “Tribunascope”, com as presenças de Janet Leigh, Antony Perkins, Karl Malden, dos brasileiros Jece Valadão e Vanja Orico, que deixaram no cimento suas mãos, tal como na calçada da fama em Hollywood (o Vitória encerrou suas atividades como cinema em janeiro de 1984, para dar lugar ao Centro de Convenções de Curitiba, após acréscimo de uma construção em sua frente, tornando-se patrimônio público). Finalmente, em dezembro de 1964 Ismail inaugurou o cine Plaza, 1200 lugares, na praça Osório, no terreno da Associação dos Servidores Públicos do Paraná – ASPP, com outros sócios. O filme de abertura: “Moscou contra 007” (From Russia with love) com Sean Connery, Robert Shaw, Lotte Lennya, direção de Terence Young, distribuição United Artists de 1963. Depois de diversas administrações, o Plaza sediou ainda o Festival de cinema de Curitiba em 2005 com sessões lotadas. Foi o último cinema de rua comercial a fechar suas portas em 2006, vendido ao Grupo Positivo que o demoliu, apesar de ter sido considerado um “bem de entorno”.

Ismail Macedo fundou em 1965, o Sindicato dos exibidores do Paraná e Santa Catarina, foi seu primeiro presidente, além de outros investimentos. Atuou fortemente na cinematografia curitibana e paranaense por quase vinte anos.

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