Matadouro 17

armando

Matadouro 17 é um título inspirado no livro metalinguístico Matadouro 5 do escritor Kurt Vonnegut, uma obra surreal inesquecível e com uma crítica social das mais criativas e relevantes que já li na vida. Matadouro é, sem dúvida, uma palavra que diz respeito ao último escândalo da República (Operação Carne Fraca) que fulminou – só naquele momento – com a confiança da população nas carnes e embutidos postos nas prateleiras dos supermercados e pendurados nos ganchos dos açougues pátrios. O fato, gravíssimo, trazido com estardalhaço midiático ao conhecimento dos brasileiros, foi rapidamente abafado pelo próprio Estado, já que se descobriu também que, além da bandalheira costumeira, possuímos as maiores empresas de exportação de proteína animal do mundo. Obviamente que o país e as ditas empresas iriam sofrer um duro golpe nas finanças. Então que se dane o povo e preserve-se o superávit da balança comercial. Nosso matadouro é o 17 (óbvio) porque, tal qual o 5, pode ser interpretado também de forma ingênua e desesperançada.

O fato é que a fraude nas carnes atingiu-me com uma desagradável lembrança da infância, ainda no início da década de sessenta. Estava eu de férias com minha família na cidade de Soure, na Ilha do Marajó, no Pará. O local, naquela época, era lúdico e prazeroso para crianças em férias, mas obviamente carente de qualquer estrutura, quiçá na venda de alimentos. Logo de manhã, não sei por que cargas d’água fui levado por um tio para acompanhá-lo na compra da carne do dia em um matadouro local. Talvez ele pensasse que isso faria bem para a minha formação masculina. Eu sequer sabia o que era um matadouro. Lembro do terror que senti quando vi aquele boi ser abatido com uma facada no pescoço. Foi rápido, mas o sangue esguichava sem parar em jatos rubros, encharcando o local. Ali, paralisado pela violência explícita inesperada, vi trabalhadores vestindo apenas calções e descalços arrastarem o animal e o esquartejarem, golpearem e estriparem como se fosse um objeto. O piso chamava atenção pela lama de sangue e fezes de gado que se misturavam e aqueles homens nem se importavam. O cheiro era insuportável. Nunca mais esquecerei aquele boi pendurado por um gancho sendo retalhado e lavado com mangueiras d’água. Notei que a carne não parava de tremer e eu ali em pânico pensando que aquele boi poderia ainda estar vivo e sofrendo. Meia hora depois, as pessoas que formavam uma fila já podiam comprar as suas peças encomendadas.

Quando retornei para casa, ainda estava em choque e não quis comer carne por um bom tempo. Passei minhas férias inteiras sofrendo de pesadelos e pensando o tempo todo naquelas cenas cruéis, imundas e sentindo aquele cheiro de sangue, carne fresca e fezes de gado. Impossível apagar da memória. No entanto, naquele lugar não observei fraude e sim as condições brutais dos trabalhadores e do abate dos animais sem qualquer traço de humanidade ou cuidados com a higiene.

Hoje, embora sejam outros tempos, constatamos que aquela ilha não está distante da nossa realidade. Com a superpopulação mundial, as fraudes aumentaram e as condições de higiene são pouco confiáveis. No entanto, ninguém está preparado para as condições encontradas em 1906 nos matadouros e frigoríficos das indústrias de carne de Chicago (EUA), narradas no livro TheJungle (A Selva) do escritor socialista americano UptonSinclair. Ele na verdade tentava chamar a atenção da sociedade americana para as tenebrosas condições de trabalho impostas aos imigrantes pelas indústrias de carne, pois sofriam uma degradante exploração que lhes causava inúmeras doenças. Constantemente ocorriam acidentes sem nenhum tipo de socorro e eles nunca eram resgatados dos tachos moedores quando neles caíam e findavam tendo seus corpos misturados com as carnes de gado e de ratos, ali processadas. Sinclair fez a primeira reportagem investigativa da história do jornalismo, pois se infiltrou como trabalhador e viu que a coisa era tão degradante e que até as carnes e o sangue que caíam no piso eram recolhidos por um ralo que não levava a qualquer esgoto e sim para depósitos clandestinamente instalados abaixo deles para o armazenamento e processamento de carne enlatada. Upton também notou que os trabalhadores que padeciam de tuberculose, constantemente, cuspiam seus escarros naquele chão dos infernos que se misturavam às sobras. A bizarrice daqueles fatos era só a “lógica” do lucro que interessava e que até hoje permanece. Qualquer um teria saudades do leiteiro que acrescentava água no leite para render mais, como nossos pais ou avós se queixavam.

A omissão e a corrupção dos agentes públicos responsáveis pela fiscalização endossam e justificam a existência dessas práticas que nos enojam e colocam nossa saúde em alto risco. Publicado há mais de cem anos, TheJungle é uma obra que flerta com a atualidade e diz muito sobre ela. “Queria tocar o coração do público, mas acabei tocando o estômago”, declarou Sinclair ao avaliar a recepção do livro. Lá, ele serviu como divisor de águas, pois foi o responsável pela criação da FoodandDrugAdministration (FDA), órgão responsável, dentre outras competências, pela fiscalização da produção alimentícia. Aqui a Operação Carne Fraca servirá para o quê? Não afirmo que as condições de higiene sejam as mesmas da Chicago de 1906, mas certamente a corrupção endêmica desse país nos dá a certeza de que a fiscalização não nos garante o churrasco do fim de semana e muito menos o cachorro-quente da madrugada. Fica então a incômoda sensação de que junto com o sangue que escorre pelo ralo do chão dos matadouros, parece também esvair-se toda a nossa esperança.

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