Nosso discutível agrafismo

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Se leitura de jornal, por se tratar de hábito massivo, for indicador de outras formas de leitura, temos um confronto perdido especialmente com o Rio Grande do Sul. Seus principais jornais aparecem no ranking brasileiro liderados pelo Zero Hora, com 145 mil exemplares, e mais o Diário Gaúcho, com 142 mil, Correio do Povo, com 98 mil, edição digital do Zero Hora, com 46 mil, e fechando a lista de destaque o Jornal NH de Novo Hamburgo, com 37 mil, este à frente de todos os nossos periódicos, dos quais os principais Gazeta do Povo e Folha de Londrina aparecem com 34 mil e 30 mil, respectivamente.

O problema de um possível sinal de agrafismo do nosso lado é colocado por essa analogia e pela decisão do nosso principal veículo de abandonar a plataforma impressa e investir o máximo na digital. Em termos locais, seria como se Folha de S.Paulo, Estadão e O Globo decidissem o mesmo em seus respectivos espaços. O confronto com os gaúchos, já que temos dimensões equivalentes em peso econômico e cultural, é pertinente uma vez que revezamos entre o quarto e o quinto lugares em renda interna.

O Rio Grande tem precedência histórica na atividade editorial e isso se deve em grande parte à atuação do escritor e editor Érico Veríssimo pela obra pessoal e traduções que faziam daquele mercado um dos mais densos do país. Nosso primeiro jornal surge em 1854, alguns meses depois da autonomia da província com o Dezenove de Dezembro e nos anos quarenta do século passado tivemos nossa editora, a Guaíra, do alagoano De Plácido e Silva, que estava entre os fundadores tanto da Gazeta do Povo como da Universidade. De porte menor que a gaúcha, assim mesmo produziu livros de autores nacionais com uma linha forte de pensadores sociais e do marxismo e romances como Dona Bárbara, de Rômulo Galegos, e ensaios saborosos como A psicanálise do cafuné, de Mario de Andrade.

Uma das forças dos gaúchos está no tradicionalismo nos CTGs espalhados pelo país em função das migrações, outra das suas características. O fenômeno está a reclamar estudos sistêmicos para apurar as causas do descompasso e é visível que a perda de um veículo forte (que se limitará em futuro próximo à edição impressa de fim de semana) trará prejuízos à projeção da nossa imagem e dos nossos valores. Tentar dar uma dimensão épica a um ato de deserção, como se fez sob o suposto avanço que haveria na opção digital) é uma perda significativa.

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