O PT morreu, mas Lula ainda berra

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Não é necessário ser cientista político ou esculápio das ciências sociais para entender que o PT foi reduzido à condição excremental pela corrupção. Mas quem lavrou o atestado de óbito do PT foi Carlos Augusto Montenegro, presidente do Ibope, baseado em pesquisas de opinião. Montenegro afirmou: “O PT morreu. A Odebrecht morreu. Se continuarem, deveriam mudar de nome”.

Lula sobrevive. Seu índice de rejeição é altíssimo, mas ele tem garra, história e um governo que deixou saudades em boa parcela da população. Esta que agora passa a dizer que o grande erro dele foi fazer Dilma Rousseff presidente. Há outras figuras do PT que sobrevivem, ainda que reduzidas a lideranças menores, que terão que rever suas aspirações para obter um novo mandato. Gente como Gleisi Hoffmann, que, se escapar de sentenças de processos de corrupção, deve desistir de uma eleição majoritária ao Senado e tratar de segurar a onda com uma candidatura à cadeira de deputado.

Estes sobreviventes começam a entender que a sigla PT tornou-se sinônimo de corrupção e crise econômica. E se não há como mudar o nome dos candidatos, por que não mudar o nome do partido?

Esta ideia tomou corpo dentro do partido, principalmente no Sul e no Sudeste, onde a deterioração da sigla é maior. Provavelmente entrará na discussão do Congresso Nacional do PT. E vai à pauta nos congressos regionais. A etapa paranaense do 6.º Congresso Nacional do PT acontecerá nos dias 6 e 7 de maio, em Praia de Leste. Além de discutir sobre as agruras depois do mensalão e da Lava Jato, uma roupa suja que não será lavada, com a cínica conversa de que tudo se deve à perseguição de Sérgio Moro, o juiz, Deltan Dallagnol, o procurador, e do time da Polícia Federal que não cansam de encontrar as impressões digitais do PT em todas as falcatruas que estão a surgir na velha pátria mãe tão distraída.

É um partido que junta os cacos para sobreviver. Prova disso é que no Paraná cinco chapas disputarão a direção estadual. Pelos nomes é possível identificar as intenções divergentes. “Reconstrução Socialista (400)”; “Por Um Partido de Todos (410)”; “Mudar o Partido-PR (440)”; “Construindo Um Novo Brasil – Renovar e Avançar (480)” e “Sempre na Luta (499)”.

O PT SEM SENTIDO
A ficha, por incrível que pareça, ainda não caiu para todos os militantes. O PT não consegue sequer estruturar uma defesa convincente, mas há quem saia à rua para gritar que houve golpe e por isso o partido está no bico do corvo. Mas há também gente lúcida e que percebe que o negócio é salvar Lula, ou tudo o mais vai para o inferno.

O PT não naufragou apenas politicamente. O partido tem dívidas astronômicas que já não podem ser cobertas pela falta do dinheiro que entrava pelo caixa dois e outros dutos interrompidos pela Lava Jato. A Odebrecht era, na prática, o banco do PT, agora é uma empreiteira também afundada em dívidas, que tenta renegociar seus contratos aqui e no exterior, onde também sofre processos. A inadimplência do PT é tão grande e inclui, pasmem, dívidas caras com o INSS. Petistas foram para cima do relator da PEC da Previdência, Arthur Maia, em razão de uma dívida de 150 mil reais com a Previdência que o deputado diz já ter resolvido, referente a um posto de gasolina pertencente a ele no interior da Bahia, mas não olham para o próprio umbigo. O PT deve R$ 10 milhões para a Previdência.

Vão-se os anéis, que fiquem os dedos, pensa Rui Falcão. O time de marqueteiros que restou faz o que pode e o que não pode para tentar manter algo positivo da imagem de Lula. Manter intacta é impossível, porque não se consegue mais deixar intacto o que já sofreu rachaduras. Restaurar talvez fosse a palavra mais correta para a tentativa de devolver à imagem de Lula o vigor que tinha nos tempos heroicos do estádio da Vila Euclides.

O Instituto Lula, que, se seguisse o padrão normal de organizações dessa espécie, deveria ser um órgão dedicado a altos estudos de temas relevantes da realidade nacional, transformou-se no ventríloquo de seu boneco e um emissor de notas oficiais para tentar explicar as turbulentas andanças de seu chefe. Os escribas do Instituto Lula queimam neurônios e tutano para achar um caminho por onde Lula possa caminhar sem tropeçar nas contradições que ele plantou em seu próprio caminho.

NADA ORIGINAL
A estratégia montada não é original. Em vez de vir a público e convocar uma entrevista coletiva em que tenha a coragem de submeter-se sem disfarces a todos os questionamentos da imprensa independente, Lula prefere tediosas sessões onde repete o seu Sermão da Montanha à claque de fiéis já convertidos, como se ensinasse o padre-nosso aos seus vigários.

Ou parte para o que mais gosta e sabe fazer. Leva a claque para as ruas em manifestações contra “o golpe”, em defesa de Lula contra o juiz Sergio Moro, que é tratado como o demônio. Ou põe seus apóstolos a defendê-lo. Na falta de uma verdade comprovada, sólida e definida, Lula, com suas ambiguidades, deixa que as suspeitas vazem por todos os lados, como a água que escorre de ânfora rachada.

Ele não tem nada com nada, como sempre, mas seu coroinha Gilberto Carvalho resolve ajudá-lo com uma frase cheia de segundos, terceiros e quartos sentidos. Segundo ele, é “a coisa mais natural do mundo” que uma empreiteira queira fazer um mimo a um ex-presidente. Não sabemos se ele se referia ao tríplex do Guarujá, ao sítio de Atibaia, a ambos ou a nenhum deles. E muito menos ao que ele quis dizer com essa “coisa mais natural do mundo”. Coisa mais natural onde, cara-pálida?

O ex-presidente, que nunca tem nada a ver com nada, deixa que essa ambiguidade paire no ar, não a desmonta com a devida firmeza, reluta em dizer claramente do que se trata essas, digamos, “operações imobiliárias” e, para aumentar as dúvidas que pairam no ar, diz, num pronunciamento sobre os 36 anos do PT, que “cometemos erros e temos que pagar por eles”.

A AUTODESTRUIÇÃO
O PT está se autodestruindo num mar de ambiguidades e não consegue sequer estruturar uma defesa convincente, baseada num projeto para o país que não seja a tediosa repetição de uma retórica balofa, vazia de sentido, desgastada, maltratando a inteligência do país com a repetição de slogans mais velhos que a Sé de Braga, que não empolgam mais nem a sua plateia mais infantilizada.

Colocar a culpa de tudo nas elites brancas de olhos azuis que não gostam de pobres em avião, em filhas de empregadas na universidade, na imprensa golpista, na oposição, nos conservadores, nos que não se conformam com as “conquistas sociais”, é um mantra que já perdeu o prazo de validade e que começa, perigosamente, a beirar o ridículo, como qualquer slogan repetido à exaustão até a perda total de sentido.

Na falta de argumentos, Lula e seus asseclas mais fiéis partem para a radicalização. Políticos notoriamente desequilibrados fazem coro a Lula em declarações investidas de uma audácia ímpar, repletas de ofensas e críticas pesadas aos coordenadores da Operação Lava Jato, colocam Lula e sua caterva em rota de colisão com o ordenamento jurídico.

O tom raivoso de Lula, que chamou um procurador de “moleque”, pode ser enquadrado, no mínimo, como um crime de injúria. O despautério de Ciro Gomes, que afirmou receber “na bala (sic)” as pessoas porventura enviadas pelo juiz Sergio Moro para prendê-lo, configura uma ameaça gravíssima. Os insultos de Requião a Moro e aos procuradores da República são pesados. As sandices ditas por Gleisi Hoffmann fazem pensar em tratamento psiquiátrico. Num passado não muito distante, declarações como essas levariam os autores a serem responsabilizados por desacato à autoridade. Se fossem cidadãos comuns, poderiam ser presos.

Talvez o sonho de Lula e do PT seja o de lidar para todo o sempre com uma nação de imbecis, mas esse é mais um de seus sonhos impossíveis. Como aquele de achar que o seu líder está acima da lei.

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