Os três Sócrates (mais o de Xantipa)

simoes

Confesso que ao tomar contato pela primeira vez com o retrato de Sócrates “pintado” pelo seu amigo e discípulo Platão, em alguns dos seus “Diálogos” admiráveis, cheguei a pensar – e sei que não estava sozinho nessa concepção privativa – que se tratava de uma criatura, de um personagem, talvez até mesmo de um heterônimo engendrado pela superior criatividade platônica.

Estava errado. Incidia num equívoco conceitual transparente. Logo depois, ficaria clara a concretude física e a historicidade do filho do escultor Sofrenisco e da parteira Fenarete, cuja existência (refiro-me, naturalmente, à socrática) se desenrolou de 469 a 399 a.C., ou seja, por exatos setenta anos.

Sócrates, que o oráculo de Delfos chegou a considerar o maior sábio dos gregos, e Platão caracterizou como o melhor dos homens, não foi apenas um extraordinário filósofo. Foi, por antonomásia, o Pai da Filosofia. Para não dizer que era a encarnação do próprio espírito filosófico.

Curiosamente, o marido da proverbial Xantipa não escreveu uma só linha, uma única página, um simples folheto, nem mesmo um livro magro, magérrimo. Limitava-se a falar. Discutia, ensinava, dialogava, perorava. Sobretudo, fazia perguntas. Muitas perguntas. Perguntas ad infinitum e ad nauseam. Quer dizer: exercitava a palavra essencial, o verbo quase demiúrgico, como aconteceu, aliás, com o próprio Cristo, que também nada escreveu. E a sua palavra poderosa era a projeção de um pensamento maiúsculo, superlativo, na sua essencialidade significante.

Passeando nas ruas da polis ateniense, ou sentado nas suas praças, à sombra de figueiras e oliveiras frondosas, Sócrates era uma usina pensante de onde as ideias fluíam límpidas como as águas do mar Egeu.

A rigor, não existe apenas um Sócrates, mas três: o de Platão, discípulo dileto e porta-voz entusiástico do Mestre, o do historiador Xenofonte, e o do teatrólogo, sobretudo, comediógrafo, Aristófanes.

Não há a menor dúvida de que o Sócrates do gênio das estruturas dialogais é, de longe, o mais impressionante, o mais denso e o mais rico. Ele surge em diálogos soberbos como “Ménon”, “Banquete”, “Fédon”, “Críton”, “Cármides”, “Teeteto” e, sobretudo, na aristocrática “Apologia de Sócrates”.

Em todos esses diálogos imortais, o Filósofo da Academia não se limita nem se contenta em fazer o elogio do mestre excelso. Vai mais longe: glorifica-o. Canta-o, na condição de poeta que também foi, em algumas das suas páginas emblemáticas. É bom não esquecer, aliás, que Platão, além de poeta indiscutível, foi certamente o criador da prosa literária propriamente dita, com o uso onipresente daquilo que Proust, muitos séculos mais tarde, considerou essencial para qualquer obra literária – a metáfora. De fato, o Sócrates platônico tem qualquer coisa de um herói da “Ilíada”, ou de um semideus da “Odisseia” homérica. E chega a tangenciar a própria santidade, pela dimensão ética, pela envergadura moral, pela exemplaridade existencial que ostenta. Tem certamente, na peculiar visão platônica, o perfil exato de um santo pré-cristão, assim como Gandhi foi um santo não cristão.

Mas há outros dois Sócrates que merecem referência: o do historiador Xenofonte e o do teatrólogo Aristófanes.
Xenofonte, o autor de Anabásis, no seu livro “Recuperação de Sócrates”, mostra-nos o grande pedagogo sob uma ótica que não corresponde exatamente à de Platão. Ele é mais comedido, menos entusiasta, mais realista. É mais parcimonioso na adjetivação. Em suma: mostra-nos um Sócrates certamente respeitável, respeitabilíssimo, mas não tão grandiloquente quanto o de Platão. Tem a exata dimensão daquilo que futuramente seria chamado de um “varão de Plutarco”, rico de qualidades intelectuais, prenhe de dotes morais, mas que não chega a extrapolar a escala humana. Humanamente humana.

Já o terceiro Sócrates, destoa radicalmente dos dois anteriores. É inteiramente assimétrico a ambos. Chega a parecer uma espécie de antítese dos dois. Aristófanes pinta Sócrates, na sua hilariante comédia “As nuvens”, como um personagem caricato: misto de charlatão, boquirroto, embusteiro, molambento, tatibitate, bufão.

O que teria levado o colega de Ésquilo, Sófocles e Eurípedes a essa distorção flagrante, premeditada, perversa? Sem dúvida, o espírito de vingança. Aristófanes vinga-se, na sua peça, de algumas críticas socráticas contundentes a suas peças anteriores. Freud explicaria com facilidade o fenômeno. E Nietzsche haveria de considerá-lo humano, demasiado humano.

Seja como for, a tentativa de demolição sistemática do filósofo levada a efeito por Aristófanes, nem de longe ofusca, empana ou minimiza o brilho socrático que é refletido por Platão. Este, falando sobre o mestre, talvez pudesse dizer o que o velho Eça diria de Antero: era um gênio e era um santo.

A esta altura, parecerá ao leitor mais atento que eu esqueci o quarto Sócrates. Não esqueci. Esse seria o Sócrates de Xantipa. Ninguém poderia retratá-lo melhor do que ela. Infelizmente, não nos deixou uma linha ou um traço do marido na sua condição marital. Por uma razão simples: era, provavelmente, analfabeta.

Uma coisa, porém, nós podemos presumir: Sócrates não haveria de “sair” muito bem na “foto” da mulher…

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